domingo, junho 30, 2024

A liberdade que habitamos ou de que somos construtores absolutos?

Artigo originalmente publicado no boletim do Arciprestado de Seia - Gouveia, 'O Alforge' 

A nossa condição de seres racionais faz-nos altamente dependentes dos conceitos que moram na nossa mente. Do conceito que temos resulta um certo modo de vivermos a realidade de que eles falam.

Deste modo, o conceito de felicidade que habitar a nossa mente condicionará a nossa forma de nos pensarmos felizes (ou infelizes), o conceito do outro condicionará o nosso modo de nos abeirarmos dele, o conceito que tivermos de Deus, etc… Assim também em relação à liberdade.

Do conceito de liberdade que tivermos resulta uma certa forma de a vivermos e uma certa forma de nos pensarmos como livres ou não livres.

Com este pressuposto, importa, então, limar os conceitos, para que não aconteça que de quimeras que construímos na nossa mente redundem aventuras votadas à desilusão, pois nada há de mais perigoso do que uma enorme ilusão: o resultado é, certamente, a desilusão.

Pela centralidade que ocupa nas nossas sociedades modernas (aliás, muitos definem a modernidade como a afirmação da autonomia - mais um termo cujo conceito é necessário precisar, para que não se torne fonte de desilusões!), o conceito de liberdade deve ser analisado, vez após vez, para que não se transforme num ‘fantasma’ responsável pela destruição da própria sociedade.

Neste registo, ouso desafiar à constatação de que o conceito de liberdade em que muitos discursos se vêm estruturando mostra enfermar de quatro traços que podem conduzir a uma ideia de liberdade que favoreça a sua própria destruição.

Enuncio esses quatro traços: a liberdade tem sido definida num registo voluntarista, solipsista (individualista) e incondicionado.

Analisemos cada um destes traços em busca de uma definição que faça da liberdade autêntica fonte de libertação.

 

A liberdade é ato da vontade?

Uma leitura atenta do conceito de liberdade terá de, rapidamente, concluir que o conceito é específico da humanidade e só por comparação poderá atribuir-se a outros seres criados. Por este facto (de ser especificamente humano), deverá procurar-se no ser humano aquilo que o distingue e que fará da liberdade uma condição que só nos humanos poder encontrar-se. Prontamente nos teremos de encaminhar para o facto de o ser humano olhar o mundo como quem o lê. O ser humano interpreta, pensa a realidade. Ora, a liberdade deverá, por isso, participar desta forma de aceder ao mundo. Ser livre não terá, por isso, de ser definido como a possibilidade de querer (tornando-a um ato da vontade, que também os não humanos possuem), mas sim como a capacidade de ler, de iluminar a vontade e o que se sente (os afetos) com o contributo da inteligência. Ser livre é, assim, escolher, discernir, mobilizar a vontade e os afetos à luz da inteligência. A liberdade terá de concluir-se ser um ato da inteligência e não um ato da vontade. Costumo ilustrar com a experiência do toxicodependente que tudo faz seguindo o desejo, o que a vontade lhe pede. Chega ao ponto de, se a vontade lho pedir, matar para obter o que ela quer. Mas poderemos definir estes atos como sendo livres? Falta-lhes serem iluminados pela inteligência e consequentes com essa iluminação. O ato livre é o que resulta dessa iluminação e dessa mobilização dos afetos e da vontade seguindo essa iluminação.

Curiosamente, porém, as definições que pululam de liberdade fazem-na confinar-se à vontade, o que se expressa de forma mais cabal na afirmação de que ‘ser livre é fazer-se o que se quer’.

Não foi esta a visão sobre a liberdade que nos ofereceu a história do pensamento e da filosofia (que sempre a identificou como determinação da vontade e do afeto à luz da razão), mas, por influência nominalista e, mais recentemente, nietzscheana e schopenhaueriana, fomos afunilando a liberdade para o âmbito da vontade, com custos que a nossa reflexão nos ajudará a identificar.

O primeiro grande custo é o que resulta de uma característica da vontade: a vontade tudo quer; é indeterminada, móvel, volúvel; o seu objeto é o que lhe aponta o desejo… As vontades sobrepõem-se, opõem-se, estorvam-se, enquanto as inteligências se encontram, apontam para um horizonte comum – a verdade – e caminham juntas, podendo auxiliar-se umas às outras na busca do horizonte comum.

 

A liberdade é um ‘fechar-se’ ou um ‘abrir-se’ ao outro?

Fácil é constatar que, se a liberdade é ato da vontade, com estas características apontadas, então, os sujeitos que se pretendem livres são seres fechados sobre si, excluindo os outros, pois são portadores de vontades que se anulam.

É o drama do liberalismo que padece deste conceito voluntarista de liberdade. Como definia Herbert Spencer, se a liberdade é assim pensável, então, ‘a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro’.

Mas não penso que este conceito de liberdade corresponda ao que somos, como humanos.

Em primeiro lugar, porque não podemos ser só uma parte de nós (a vontade) e, em segundo lugar, porque não é verdade que o que somos possa prescindir dos outros.

Pelo contrário, esta visão solipsista e individualista da liberdade (defendida pelos liberalismos) trai o reconhecimento de que nascemos de outros (nascemos de dois; não de um só… Somos seres que logo na sua origem dependem da relação e não da solidão…) e de que a consciência que temos de nós mesmos precisou de outros humanos para poder emergir.

Isso o demonstra a história dos meninos selvagens que, se abandonados na selva, por volta dos três anos, conseguiram sobreviver, mas nunca desenvolver consciência de si mesmos. São os outros (os nossos pais, os nossos cuidadores, os que nos rodeiam….) quem faz emergir a consciência de nós que está em potência, em nós, mas que, sem os outros, jamais emergirá.

Sendo assim, o solipsismo é uma traição à condição humana. Somos, contrariamente a esse solipsismo, liberdades que precisam das demais liberdades para serem livres. Por isso, há que superar o pensamento de Herbert Spencer com a convicção alternativa de que uma autêntica liberdade é a ação ou determinação pela qual as outras liberdades também podem desenvolver-se; a minha liberdade não acaba onde começa a do outro, mas sim, a minha liberdade precisa da do outro para realmente ser, existir e poder acontecer.

 

Liberdade humana ou inumana?

Superados o voluntarismo e o solipsismo, cabe constatar que é preciso ultrapassar, também, o ‘incondicionalismo’ de certas conceções de liberdade que pressupõem a possibilidade de uma liberdade não condicionada, completamente indeterminada. É a lógica dos movimentos de autodeterminação de género que pressupõem um sujeito sem qualquer ‘história’, sem qualquer condicionamento prévio. Um sujeito assim não é humano; poderia ser divino, mas não humano. Nenhum ser humano está fora de condições concretas. Toda a liberdade humana é condicionada: pela língua, pela cultura, pela condição biológica, pelas circunstâncias várias, diante das quais se constrói como ser capaz de transcender essas circunstâncias, mas sem as apagar. Tendo-as como pressupostos.

O nosso acesso ao mundo é sempre condicionado pela cultura em que nos fazemos, pela língua com que acedemos ao mundo, pelas relações que construímos.

Pressupor um sujeito humano sem estes condicionamentos é referir-se a alguém que não existe.

E percebem-se as consequências nefastas dessa ilusão de um sujeito completamente indeterminado.

Como seria se alguém decidisse prescindir de uma qualquer língua para comunicar?

Teria de instruir os demais na sua própria língua, pois ela tornar-se-ia ineficaz, na medida em que não comunicaria coisa nenhuma, por só ser compreensível pelo seu criador…

Uma autodeterminação absoluta isola numa mónada fechada cada sujeito humano, coisa absurda e inumana (ou, mesmo, desumana). Somos, intrinsecamente, seres relacionais.

E esses são os dois conceitos de liberdade em jogo: um de tipo individualista, fechado, solipsista, perante um de tipo personalista, em que todos somos pessoas, seres essencialmente definidos como seres de e para a relação.

Um humano é um ser feito do ‘húmus’, por isso, frágil, vulnerável, um indigente do outro, do ‘fora de si’, um ser aberto.

Curiosamente, poderia constatar-se que os dois conceitos de liberdade aqui em jogo evidenciam a tentação de Adão: fechar-se em si mesmo, ser autossuficiente, bastar-se a si mesmo ou reconhecer-se como ser aberto ao outro, ao mundo, ao Outro.

Estamos, vez após vez, a ser expulsos do paraíso…

domingo, junho 23, 2024

Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | 1 | Mistério na Torre dos clérigos

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*



O calor dos primeiros dias de verão convidava a uma viagem de comboio pela costa. J. e M. desafiavam, muitas vezes, o pai a uma viagem suave pela linha que ligava Porto e Aveiro. Tomar aquela linha parecia seguir o traçado de uma divisória entre o ardente interior e o frescor do mar. A linha férrea era como que o interstício entre duas dimensões da realidade, como se ali mesmo se cosesse o mapa, anteriormente separado em duas partes, artificialmente unidas para que dele beneficiassem os humanos, ainda que distraídos pelo correr dos dias.
Divertiam-se a ver quem entrava e quem saía. Distraíam-se, assim, ou – talvez, afinal – assim tomavam conta da realidade, como pastores de um ser que anda tresmalhado.
Faziam aquilo com frequência, quando as férias os levavam às margens do Antuã, a casa dos avós.
J. e M. esperavam, ansiosamente, pelos dias em que corriam o litoral, sobre duas linhas sempre unidas, mas sempre separadas, como irmãos que eles mesmos eram: unidos, mas, muitas vezes, às turras…
- Parecemos nós! – Diziam, entre piadas sobre o que viam e observavam.
Aguardavam pelo comboio.
Hoje, dia vinte e três de junho, o destino era o Porto. Bem sabiam que os haveria de esperar uma multidão. Mas isso seria pelo entardecer. A hora que tinham escolhido ainda arrastava consigo o erguer da alvorada.
Iam pela manhã. Poderiam sair em São Bento, visitar a Sé e terminar, pelo meio-dia, com um belo concerto de órgão que, diariamente, se pode ouvir na Torre dos Clérigos. Almoçariam e voltariam, mal as multidões da folia do São João se começassem a concentrar para a noitada.
Chegaram à estação de Estarreja, eram umas oito e meia.
Com eles, um desajeitado e trôpego homem, estranhamente vestido de palhaço.
Abeiraram-se da máquina automática de bilhetes, com o ‘andante’ nas mãos. Preparavam-se para registar as suas viagens.
O homem vestido de palhaço aproximou-se deles.
Tresandava a bagaço…
- Não precisam de pagar. A CP está a oferecer os bilhetes.
Disfarçadamente, o pai de J. e M. colocou os seus braços sobre os ombros dos dois filhos. Estacou e ficou gelado de susto.
Um homem vestido de palhaço a tresandar a bebida não podia ser fonte segura de informação.
Agradeceu, porém, por educação e virou-se, com os filhos, para a linha…
Como estátuas, os três, o pai e os dois filhos, fixaram o olhar no infinito, enquanto, pelo canto do olho, acompanhavam o bamboleante andar do homem vestido de palhaço.
Sentiram-lhe os passos a descer pela longuíssima escadaria – parecia infinita! – até que o sentiram desaparecer no túnel onde o odor a bagaço se haveria de confundir com o fétido cheiro que sempre inunda os túneis das estações.
Percebendo-o longe, viraram-se de novo para a máquina e acabaram a operação de registo e obliteração dos bilhetes.
O comboio estava prestes a chegar.
Desceram, velozmente, entre o riso e o desconcerto, e passaram para o outro lado da plataforma, na senda da linha que os haveria de levar ao Porto…
O homem vestido de palhaço também parecera escolher o mesmo trajeto. Mas longe uns dos outros… Não havia que denunciar não se ter acolhido uma sugestão aparentemente bondosa.
Entraram, mas à distância de um longo olhar, só revisitado de soslaio.
A viagem iniciou-se.
M. estava que não aguentava. Queria comentar o sucedido.
Cochichava, porém… Não fosse o homem aperceber-se de que era sobre ele que falavam.
Tinham de contar à mãe, quando chegassem a casa. Um palhaço convencido de saber quando é que os comboios são gratuitos. Cada uma!
Nas costas do homem vestido de palhaço, via-se, vindo do fundo da carruagem, um homem que lhes parecia ser o revisor.
Viam-no aproximar-se das pessoas, segredar-lhes alguma coisa ao ouvido e seguir.
Chegou a vez de lhes ser revelado o que segredava.
Aproximou-se do pai de J. e M. e tartamudeou: ‘hoje, véspera de S. João, a CP oferece os bilhetes’.
O olhar do pai de J. deambulou, à velocidade da luz, em busca dos já expectantes olhos do homem vestido de palhaço. Os seus lábios arquearam-se ligeiramente, esboçando um sorriso, colado a um encolher de ombros, como que dizendo: - está na hora de mudar este perfume com cheiro a bagaço.
A viagem prosseguiu.
M. só dizia: - com que então não podemos acreditar num homem vestido de palhaço com cheiro a bagaço. Grande lição, pai! Parece que até de uma má cabeça pode vir grande sentença…
Os manuais de pedagogia tinham-se tornado repentinamente bolorentos…
O que mais lhes haveria de reservar aquela viagem?
Chegaram ao Porto. Primeiro, a Campanhã, depois, S. Bento.
O primeiro destino era a Sé.
Na entrada, havia uma placa de homenagem a um dos organistas desta catedral, recentemente falecido neste mesmo dia 23 de junho. Deixara profunda marca de homem genial, com influência musical profunda na história da cidade do Porto, mas também por terras de Aveiro, onde fundara coros, dirigira outros e fora um reconhecido professor de música. As iniciais do seu nome, A.M., deram pretexto para que M. se enchesse de vaidade, glosando com a ideia de que a sua música lhe seria dedicada.
- Convencida! – Dizia-lhe J. – Achas que o mundo gira à tua volta. Deve ter sido um genial músico, pois percebe-se a marca que aqui deixou. Uma homenagem assim só pode ser dedicada a quem muito deu de si.
- Estás um artista das palavras, J. Quem me dera a mim poder ouvi-lo executar alguma peça com a arte que estes elogios nos fazem supor.
Partiram para a Torre dos Clérigos. A proximidade do meio-dia fizera-os afligirem-se com o escasso tempo de que dispunham.
Entraram na igreja dos clérigos. Para seu espanto, não havia ninguém sentado nos bancos para ouvir o concerto. Entretanto, o relógio dos telemóveis indicava a iminência da hora do concerto. Com precisão alemã, à hora certa, o órgão começou a tocar uma peça que J. e M. prontamente reconheceram, por lhes ser familiar o estudo da música. A ‘Toccata e fuga em ré menor’ de Bach saía de todos os cantos daquela belíssima igreja cuja torre Nasoni fizera sair da sua imaginação e elevar aos céus do Porto.
Durante dez eternos minutos, J., M. e o pai sentiram que terra e céu se uniam como nos interstícios do real onde corre a linha do norte. Estavam ali, mas sentiam-se em todo o lado. A música parecia sair-lhes do mais recôndito lugar da alma.
Quando terminou, abriram os olhos, como que acordando de um delicioso sonho. Abraçaram-se!
Ao saírem, por porta distinta da que os levara ao interior, quase tropeçaram na placa que lhes parecia ser a do anúncio do concerto.
- M. vê onde pões os pés!
M. estava lívida. Na placa, um anúncio: ‘concerto cancelado por doença do organista’.
Em rodapé, duas iniciais: A.M.


 

 


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra.
 

Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos] | A 23 de junho, primeiro conto inédito de Alberto Ferreyra

 

A partir de 23 de junho, nova rubrica, dedicada à publicação de contos inéditos de Alberto Ferreyra

 


A Comissão Diocesana da Cultura iniciará, no dia 23 de junho, a publicação de contos inéditos de Alberto Ferreyra.
 
Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...
 
 

sexta-feira, junho 07, 2024

Sabes, leitor... | 6 | Marca de água do livro de Aldous Huxley, 'Admirável Mundo Novo'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura
O autor e a obra
Aldous Huxley, Admirável mundo novo, Lisboa, Edição «livros do Brasil, S/D. [Direitos de publicação reservados em 1932]

Aldous Huxley (1894-1963) é um autor de origem inglesa, que tem em ‘admirável mundo novo’ a sua obra-prima, apesar de outras obras suas terem tido reputado reconhecimento, entre as quais poderemos destacar os ensaios ‘as portas da perceção’ e ‘a filosofia perene’, e o romance ‘a ilha’, já transposto para a tela do cinema.

Pertencendo a uma família britânica de renome, tendo o seu avô, Thomas Henry Huxley (1825-1895), ficado na história pela sua defesa da teoria darwinista e pela criação do termo ‘agnóstico’, Aldous evidencia uma atitude crítica em relação a estes ascendentes, posição que se repercute nas suas obras, entre as quais ‘admirável mundo novo’ não é exceção. Nesta obra, evidenciam-se sinais de demarcação em relação a esse agnosticismo e em relação a uma qualquer ingénua receção do progresso científico como sendo intrinsecamente virtuoso. A omnipresença da ironia para com essa ingenuidade é um dos traços marcante desta obra. O autor coloca no sujeito a decisão final, mas confere-lhe todos os instrumentos para que possa ajuizar sobre o que fazer perante as inauditas aberturas que nos proporcionam a ciência e a tecnologia. Recusar aprioristicamente não será a decisão, mas também o não será a sua absoluta receção. Ser crítico é o que se pede do individuo para que não se abata sobre a sociedade humana ‘o admirável mundo novo’.

A genialidade desta obra encontra-se, não apenas na narrativa fluente que prende o leitor, desde o início, mas também no facto de se tratar de um enredo escrito ainda na década de 30, quando o mundo ainda não vivera os horrores da II Guerra Mundial, onde o totalitarismo se tornou evidente aos olhos de todos, e ainda muito poucos vislumbravam o que se escondia para lá do que viria a ser a ‘cortina de ferro’. Da revolução russa e do totalitarismo que ela criara muito poucos tinham consciência. Teríamos de esperar por 1984 para que isso se tornasse notório…

E o eugenismo, sendo prática desde que, em 1883, se criara o termo, pela pena de F. Galton, era comummente aceite, sem grande consciência crítica (exceto, como recordam André Pichot[1] e Matt Ridley[2], nos países de influência católica, onde o respeito pela dignidade humana se aplicava a todos, sem exceção dos portadores de deficiência). Teríamos de esperar pelo que nos mostraria a segunda grande guerra para despertar desse torpor. Mas ‘admirável mundo novo’ fora um aguçado alerta… E continua a sê-lo, hoje!

[1] Pichot, André, O eugenismo: geneticistas apanhados pela filantropia, Lisboa, Instituto Piaget, 1997.

[2] Ridley, Matt, Genoma: autobiografia de uma espécie em 23 capítulos, Lisboa, Gradiva, 2001


Marcas de água (o que fica depois de se deixar o livro)

‘Admirável Mundo Novo’ conta-nos a vida da sociedade na Londres de 2540 (no ano 632 DF – depois de Ford – muitos dos nomes escolhidos são alusões a nomes reais; Ford (que aparece aludindo ao trocadilho de ‘our Ford’ com ‘Our Lord’ (Nosso Senhor) poderá aludir, ainda, a uma sociedade freudiana, mais do que ‘fordiana’, ainda que possa supor-se uma intencional equivocidade..). A natureza desta narrativa, contrária à de uma visão utópica, situa-a no âmbito das chamadas «distopias», em que ‘1984’, ‘O triunfo dos porcos’ são outros ilustrativos exemplos, desta feita, da pena de George Orwell, já analisado nesta rubrica.

O autor recolhe o título da obra de uma citação de Shakespeare, ‘oh, admirável mundo novo’, começando, logo aí, a ironia desdenhosa que caracteriza toda a narrativa.

As personagens desta distopia esquivam-se a toda a emoção, são programadas e socialmente categorizadas (por letras do alfabeto grego: os ‘alfas’, os ‘betas’, os ‘épsilões’, etc.) de acordo com o que geneticamente está previsto e devidamente controlado. Só o ‘selvagem’ parece esquivar-se a essa programação, ou outras vagas memórias que tudo no sistema pede que se apague. Há salas de predestinação social, e um ‘soma’ que os habitantes desta distopia tomam para combater a infelicidade, pois esta é uma sociedade onde sofrer não pode ter lugar. Ficar infeliz é proibido, sendo, por isso, inevitável combater tudo o que o possa gerar, como, por, exemplo, vincular-se aos outros.

Nesta sociedade, não há infelicidade, mas também todas as emoções são controladas para que tudo seja devidamente controlado e mantido dentro de uma ordem previamente definida. O leitor como que sente o cheiro à ‘desinfeção’ das emoções, pois tudo é assético.

Sentimo-nos perante uma sociedade feita de seres que continuam a ter a designação de ‘humanos’, mas que não o são, por estarem impedidos (ainda que sem consciência disso – foi intencionalmente apagada) de se relacionarem comprometidamente.

Uma leitura crítica de tal sociedade permite-nos constatar que estamos perante ‘indivíduos’ que pensam agir em liberdade, mas que não são, em verdade, ‘pessoas’ (apesar de o termo ser utilizado, não representa o que diz…) que lutam e ambicionam algo maior do que o que já são; ambicionar é algo que lhes está vedado… ‘As pessoas são felizes, conseguem o que querem e nunca querem aquilo que não podem obter. Sentem-se bem, estão em segurança, nunca estão doentes, não receiam a morte, vivem numa serena ignorância da paixão e da velhice, não são sobrecarregadas com pais e mães, não têm mulheres, nem filhos, nem amantes, pelos quais poderiam sofrer emoções violentas, estão de tal modo condicionados que, praticamente, não podem deixar de se portar como devem. E se por acaso alguma coisa corre mal, há o soma, que o senhor atira friamente pela janela em nome da liberdade […].’ (p. 230)

A leitura desta obra gera em quem a lê algo semelhante ao que nos faz o despertador, pela manhã. Quando Huxley a pensou, o descomprometimento era, ainda, um cenário que surpreendia. O próprio autor, no prefácio escrito em 1946 e recolhido na edição que aqui seguimos, mostra ficar surpreendido por ‘a promiscuidade sexual do Admirável Mundo Novo [não lhe parecer] estar muito afastada’, sendo que ‘à medida que a liberdade económica e política diminui, a liberdade sexual tem tendência para aumentar, como compensação’ (p. 17). Esta ‘previsão’ é elucidativa de quanto se transformou a sociedade, no sentido do que narrava o ‘admirável mundo novo’ como uma distopia.

Estará o mundo distópico?

 

Na mesma página que o autor (citações)

(Do prefácio de 1946) ‘Existem já certas cidades americanas onde o número de divórcios é igual ao número de casamentos. Dentro de alguns anos, sem dúvida, passar-se-ão licenças de casamento como se passam licenças de cães, válidas para um período de doze meses, sem nenhum regulamento que proíba a troca do cão ou a posse de mais de um animal de cada vez. À medida que a liberdade económica e política diminui, a liberdade sexual tem tendência para aumentar, como compensação. E o ditador (a não ser que tenha necessidade de carne para canhão e de famílias para colonizar os territórios desabitados ou conquistados) fará bem em encorajar esta liberdade. Juntamente com a liberdade de sonhar em pleno dia sob a influência de drogas, do cinema e da rádio, ela contribuirá para reconciliar os seus súbditos com a servidão que lhes estará destinada.’ (p. 17)

‘Vendo bem, parece que a Utopia está mais próxima de nós do que se poderia imaginar há apenas quinze anos. Nessa época coloquei-a à distância futura de seiscentos anos. Hoje parece praticamente possível que esse horror se abata sobre nós dentro de um século. Isto se nos abstivermos, até lá, de nos fazermos explodir em bocadinhos. Na verdade, a menos que nos decidamos a descentralizar e a utilizar a ciência aplicada não com o fim de reduzir os seres humanos a simples instrumentos, mas como meio de produzir uma raça de indivíduos libres, apenas podemos escolher entre duas soluções: ou um certo número de totalitarismos nacionais, militarizados, tendo como base o terror da bomba atómica e como consequência a destruição da civilização (ou, se a guerra for limitada, a perpetuação do militarismo), ou um único totalitarismo internacional, suscitado pelo caos social resultante do rápido progresso técnico em geral e da revolução atómica em particular, desenvolvendo-se, sob a pressão da eficiência e da estabilidade, no sentido da tirania-providência da Utopia. É pagar e escolher.’ (pp. 17-18)

‘Não nos contentamos unicamente em incubar os embriões: isso qualquer vaca é capaz de fazer. Também os predestinamos e condicionamos. Decantamos os nossos bebés sob a forma de seres vivos socializados, sob a forma de Alfas, ou de Épsilões, de futuros varredores ou de futuros…’ (p. 29)

‘- Não sente o desejo de ser livre, Lenina?

- Não percebo o que quer dizer. Eu sou livre. Livre para gozar à vontade, para gozar o mais possível. «Agora todos são felizes!».’

Ele riu-se.

- Sim. «Agora todos são felizes!» Começamos a impingir isso às crianças de cinco anos. Mas não sente o desejo de ser livre de outra forma, Lenina? De uma maneira pessoa, por exemplo, e não à maneira de todos.’ (p. 103)

‘[…] a civilização é a esterilização […]’ (p. 119)

‘- Velho? – repetiu ela. – Mas o Director também é velho, e há muita gente que é velha e, apesar disso, não é assim.

- Porque nós não lhes permitimos que o sejam. Preservamo-los das doenças; mantemos artificialmente as suas secreções internas ao nível do equilíbrio da juventude; não deixamos cair o seu índice de magnésio e de cálcio abaixo do que era aos trinta anos; fazemos-lhes transfusões de sangue novo; mantemos o seu metabolismo permanentemente estimulado. Assim, evidentemente, eles não têm este aspecto. Em parte – acrescentou – porque a maioria de entre eles morre muito antes de ter atingido a idade deste velho. A juventude quase intacta até aos sessenta anos. Depois, trás! O fim.’ (p. 120)

‘Parece-me frequentemente que é possível que nos tenha faltado qualquer coisa por não termos tido mãe.’ (p. 121)

‘Ela contava-lhe como toda a gente era feliz, sem nunca haver pessoas tristes ou zangadas, como cada um pertencia a todos. Falava-lhe de caixas onde se podia ver e ouvir o que se passada do outro lado do mundo, os bebés em bonitas provetas bem limpas – tudo tão limpo, sem mais cheiros, sem a menor porcaria!’ (P. 137)

‘Partindo da sala de Predestinação Social, os escalators desciam ruidosamente para o subsolo, onde, na obscuridade vermelha, aquecendo-se no seu colchão de peritónio e fartos de pseudo-sangue e de hormonas, os fetos cresciam, cresciam, ou então, envenenados, estiolavam-se no estado definhado dos Épsilões.’ (p. 157)

‘Em mil e oitocentos biberões, mil e oitocentos bebés, cuidadosamente etiquetados, mamavam simultaneamente o seu meio litro de secreção externa pasteurizada.’ (pp. 157-158)

‘Linda morria acompanhada – acompanhada e com todo o conforto moderno. O ar era constantemente vivificado por alegres melodias sintéticas. Junto de cada leito, diante do ocupante moribundo, havia um recetor de televisão. Deixava-se funcionar a televisão, como se fosse uma torneira aberta, de manhã à noite. De quarto em quarto de hora o perfume dominante na sala era automaticamente mudado.’ (P. 209)

‘- Mas porque está ele proibido? […]

[…] Porque é velho, eis a razão principal. Aqui não temos o culto das coisas velhas.

- Mesmo quando são belas?

- Sobretudo quando são belas. A beleza atrai, e nós não queremos que as pessoas sejam atraídas pelas coisas velhas. Queremos que amem as coisas novas.’ (P. 229)

‘As pessoas são felizes, conseguem o que querem e nunca querem aquilo que não podem obter. Sentem-se bem, estão em segurança, nunca estão doentes, não receiam a morte, vivem numa serena ignorância da paixão e da velhice, não são sobrecarregadas com pais e mães, não têm mulheres, nem filhos, nem amantes, pelos quais poderiam sofrer emoções violentas, estão de tal modo condicionados que, praticamente, não podem deixar de se portar como devem. E se por acaso alguma coisa corre mal, há o soma, que o senhor atira friamente pela janela em nome da liberdade […].’ (p. 230)

‘Nosso Ford fez muito para tirar à verdade e à beleza a importância que lhe concediam, transferindo essa importância para o conforto e para a felicidade.’ (P. 237)

‘[…] apesar de tudo […] é natural acreditar-se em Deus quando se está só, sozinho, à noite, quando se pensa na morte…

- Mas agora nunca se está só […].

- Procedemos de forma que as pessoas detestem a solidão e dispomos a vida de tal maneira que seja mais ou menos impossível conhecê-la.’ (P. 245)

**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

quarta-feira, junho 05, 2024

Uma espécie de manifesto cívico-político | Todos nós somos humanos, gerados de um pai e uma mãe

 Artigo publicado no Correio do Vouga e no site da Comissão Diocesana da Cultura | Aveiro

Quem é gerado de um homem e uma mulher não pode ser senão um humano, um filho de humanos, participante, por isso, da condição e da dignidade humanas!

Muitos são, porém, os que se propõem duvidar deste facto insofismável, gerando suspeitas em que se pretende sustentar leis e decisões que ofendem a humanidade que em todos os humanos ‘habita’.

Diante de um humano, uma sociedade que se quer humanizada não deve perguntar-se sobre como legitimar o seu fim ou a sua eliminação, mas preocupar-se em cuidar e criar condições para cuidar.

Esta é a matriz que se consolidou na Declaração Universal dos Direitos Humanos, que, no seu preâmbulo, é clara na afirmação da anterioridade da dignidade em relação à própria liberdade. Isso mesmo defende, ao afirmar que «o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo» (DUDH, preâmbulo).

Hoje, porém, erguem-se nuvens e sombras sobre esta certeza em que ainda assentam as legislações dos Estados de Direito, que não deixam a norma dependente da arbitrariedade e das vontades oscilantes e manipuláveis, mas as fazem alicerçar-se no reconhecimento da inalienável dignidade que as liberdades devem respeitar.

Face aos sinais preocupantes de indiferença perante o dever de cuidar dos humanos mais frágeis (seja pela sua total dependência das suas mães, na fase intrauterina, seja pela particular vulnerabilidade decorrente da doença, idade ou deficiência), urge revisitar e reafirmar a certeza de que a afirmação da dignidade humana implica a defesa de que cada ser humano é merecedor de proteção, atenção e cuidado, seja qual for a sua condição, sem exceções nem dúvidas.

Urge recordar que a morte é irreversível, enquanto as condições, tantas vezes invocadas para a legitimar, são reversíveis.

Abortar é irreversível. Os motivos que o pretendem justificar são reversíveis, cabendo, por isso, às sociedades enfrentá-los e revertê-los. Justificar o irreversível por motivos reversíveis é inverter a hierarquia de valores que estrutura as sociedades europeias.

Praticar e legitimar a eutanásia é aceitar o irreversível perante condições sempre reversíveis, que deverão ser abordadas e encaradas para que em momento algum se peça o irreversível porque se descurou o reversível.

Executar a pena de morte é irreversível, enquanto a «cura» das feridas decorrentes de um ato injusto é processo possível e sempre do âmbito do reversível.

Todas as formas de morte provocada são atos irreversíveis, legitimados por decisões emotivas e que ocultam a verdade decorrente do reconhecimento da dignidade de cada ser humano, conquista lenta, mas que pensávamos estar consolidada.

Os sinais de retrocesso, nesta matéria, estão diante de todos, quando alguns pretendem levar à carta europeia dos direitos humanos a aceitação do aborto como se fosse um direito, para mais incidindo sobre um ‘bem’ que, por ser gerado por dois, não poderia jamais ser direito de um só; quando alguns forçam a veiculação de ideias de que a eutanásia possa ser ato lícito e respeitador da dignidade que deveria, afinal, tornar-nos invioláveis; quando se vislumbram sinais de progressiva legitimação da prática da morte e da tortura em nome do bem do Estado.

É por isso que os cidadãos, num exercício de verdadeira literacia política e cívica, na iminência das eleições europeias, devem interrogar-se sobre que Europa pretendem construir. Os sinais, tantas vezes sedutores, do individualismo que isola os sujeitos nos seus problemas, deixando nas suas mãos a solitária decisão de se extinguirem, não abrem o futuro, antes o esfumam e anulam. A Europa defendida pelos pais fundadores é, antes, uma Europa da solidariedade em que os problemas de uns são desafios para todos; em que a dor de uns pode ser diminuída pelo contributo de todos; em que o desespero de uns pode ser iluminado pela esperança de todos.

Abortar, eutanasiar, executar quem se opõe reduz a dignidade humana a condição disponível às vontades movidas por circunstâncias móveis e reversíveis. Olhar o outro como um tu, como um igual, como um humano, é a matriz em que assentam as leis de uma sociedade humanizada e humanizadora. Não podem, por isso, leis particulares ofender os pressupostos que a Europa diz defender.

Perante tais desafios, as eleições europeias são oportunidade para os cidadãos eleitores reafirmarem que não somos só ‘contemporâneos sobre um território e um tempo’, mas partilhamos um destino comum, porque todos humanos, todos filhos nascidos de um pai e uma mãe.

quarta-feira, maio 15, 2024

Regresso a Ítaca no sonho do Éden | Do mito de Psiquê à redenção cristã do rosto

 

Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'


‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ leva-nos a um mito que tem merecido numerosas representações artísticas (da ópera, com Lully, à escultura, com a célebre representação feita por António Canova, passando pela pintura por inúmeros estudos do âmbito da psicologia, que visam explorar a sua densidade e dela retirar leituras sobre a condição humana): a história de Psiquê e o Amor (Eros).

Este é um conto que nos chegou pela mão de Apuleio, autor latino do século II d.C., cujas Metamorfoses foram a única obra da literatura latina do género romanesco a chegar-nos integralmente preservada. (Os leitores interessados poderão encontrá-la aqui: https://www.gutenberg.org/ebooks/1666). O nosso guia será, ao longo deste ensaio, a versão do mito recolhida por Pierre Grimal, no seu dicionário da mitologia grega e romana[1].

Psiquê (a tradução portuguesa deste dicionário grafa a palavra sem o acento ‘pique’, mas parece-nos mais adequado manter a acentuação original de ‘psiquê’) é uma de três filhas de um rei, todas belas, mas especialmente Psiquê. De tão bela, não consegue encontrar marido, pois todos os pretendentes temem o fulgor daquela beleza.

Como tantas vezes ocorre nos mitos gregos já anteriormente analisados, os pais decidem socorrer-se dos oráculos, que lhes comunicam que deverão prepará-la para as núpcias, e levá-la ao cimo de uma montanha que lhes é indicada, onde a espera um monstro horrível que a tomará como esposa.

Os pais, ainda que temerosos, assim como Psiquê, cumprem o definido pelo oráculo.

Já na montanha, Psiquê é erguida pelos ventos que a transportam para o fundo de um vale de ervas suaves e macias, onde, após intensa emoção e felicidade, Psiquê adormece, acordando diante de um palácio ricamente decorado. Aí viverá um dia particularmente feliz até que, ao final da jornada, prestes a adormecer, sente a presença do seu prometido que a proíbe de o ver, condição para que ele permaneça junto de si. Se o vir, desaparecerá.

Como é fácil concluir, tal acabará por ocorrer, quando, ao regressar da família, que visitara por sentir saudades, é instada por esta a tentar descobrir como é o seu amado.

Sentindo-o adormecido, acende uma vela com que ilumina o seu rosto, descobrindo-o jovem e belo. Uma gota de cera quente acorda-o, porém, seguindo-se o seu imediato desaparecimento (definitivo).

Só, Psiquê erra pelo mundo e pelo submundo, sempre perseguida por Afrodite que inveja a sua beleza. Do submundo, trará um frasco de água recolhida da fonte da juventude que lhe fora dada por Perséfone, com a condição de não o abrir. No regresso, Psiquê parte o frasco, adormecendo profundamente. É nesta condição que a encontra Eros que pede a Zeus que os liberte das maldições que impendem sobre ambos, isto é a de não poder vê-lo e a de ele não a poder desposar.

Libertos das maldições, podem, finalmente, casar-se.

Este mito é denso de significados, mas para o nosso labor de estabelecimento de pontes entre a cultura clássica e a cristã, importa-nos reter como é trágica na visão clássica a relação entre o amor e a condição humana, simbolizada na impossibilidade de se ver o rosto, o lugar do enrugar do tempo sobre a pele.

Numa primeira leitura, é possível perceber alguma proximidade com a recusa de ver a Deus, face a face. Há, porém, que constatar que essa recusa é temporária, pois toda a história da salvação assenta na esperança do encontro definitivo que nos há de permitir ver a Deus tal como ele é.

Há, por isso, aqui, um coincidir para prontamente se distinguir. A cultura cristã redime o rosto, pois são inúmeros os momentos em que é o encontro, o ver, o olhar que abre ao amor…

Estar longe da face é, inclusive, sinal de maldição (por oposição à maldição de ver, implícita no mito de ‘eros e psiquê’): assim acontece com Caim que, ‘longe da face de Deus’, tem de errar… (Cfr. Gn 4,14).

Confirmando esta constatação, por oposição, ‘ver’ é fundamental e o lugar em que o amor se expressa (e não se some ou abandona, como no mito): os pastores querem ver o Menino (Lc 2,15), João Batista anuncia o Cordeiro de Deus, ao vê-lo (Jo 1,29), o leproso cai por terra ao ver Jesus (Lc 5,12), o Pai de misericórdia comove-se ao ver, ao longe, o filho pródigo (Lc 15,20), Zaqueu esquiva-se à multidão para ver Jesus (Lc 19,4), o centurião desperta para a fé ao ver o modo como Jesus morre (Lc 23,47). ‘Ver’, ‘ver’, ‘ver’…

O rosto, na cultura judaico-cristã, não é o lugar da perdição e da maldição, mas o primeiro despertador do amor. Não é, por isso, fortuito que uma das mais fecundas ‘éticas’ – a que tem em E. Levinas[2], um judeu, o seu principal pensador - contemporâneas funde no rosto o seu principal axioma: o de que o rosto é expressão da indigência que nos comove e insta a partir ao encontro do outro.

‘Psiquê e Eros’ é um mito perturbador, inquietante (não restará ao ser humano senão a trágica condição de nunca poder amar a beleza?), mas transfigurável pela visão cristã redentora do rosto, do olhar, do ver. A esperança cristã funda-se, aliás, na promessa de que veremos a Deus tal como Ele é…

Ver e amar não se excluem, na visão cristã: germinam um no outro!



[1] Pierre Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana, Lisboa, Antígona Editores, 2020.

[2] Entre as suas obras, merecem especial destaque ‘Totalidade e Infinito’, ‘Ética e Infinito’, ‘Entre nós: ensaios sobre a alteridade’.

terça-feira, maio 07, 2024

Sabes, leitor... | 5 | Marca de água do livro de Viktor Frankl, 'Dizer sim à vida apesar de tudo'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura
O autor e a obra
Viktor Frankl, Dizer sim à vida apesar de tudo, Lisboa, Editora Pergaminho, 2021

‘Dizer sim à vida apesar de tudo’ é o título de um livro que reúne três conferências proferidas por Viktor Frankl [1902-1994], em março de 1946, poucos meses depois da sua libertação de quatro sucessivos campos de concentração nazis. Fora libertado em março de 1945. Estas conferências, feitas numa universidade operária, em Viena, sua cidade natal, são proferidas no rescaldo de uma densa e dramática experiência a que se somou a notícia de que a guerra o deixara só no mundo, pois perdera a mulher, a mãe e o irmão, vítimas do genocídio dos judeus, perpetrado pelos nazis. As circunstâncias densificam a importância deste livro.

Ler este livro humaniza quem o lê, na medida em que à autoridade científica resultante de se tratar de um autor a que muitos reconhecem a autoria da chamada ‘terceira escola de psicoterapia vienense’ (tendo em conta que as duas outras eram a psicanálise de Freud e a psicologia individual de Adler) se soma a autoridade de quem viveu experiências em que a sua visão da existência se confirmou como oportuna e útil enquanto ‘terapia em ação’.

Viktor Frankl é um autor de leitura obrigatória para quem não desistiu de reconhecer que têm sentido a existência humana e a ação moral humanizante.

O título da edição portuguesa, que retoma o que, originalmente, tinha escolhido o próprio Frankl, mas que muitas edições deixaram de adotar, reproduz o verso de uma canção de esperança, cantada pelos prisioneiros de Buchenwald, e que, completo, ainda diz ‘Ah, Buchenwald, nem uma voz será ouvida, sem lamentos aceitamos o que virá, apesar de tudo, dizemos sim à vida, seremos livres: o dia chegará!’.

O título explicita a ideia fundamental sustentada no livro: toda a vida tem sentido; todo o sofrimento tem sentido; toda a doença tem sentido; toda a morte, se a morrermos como a nossa morte, tem sentido.

A capa da edição portuguesa é, também ela, merecedora de referência. A autora da capa, Marta Teixeira, transfigura o arame farpado cortado em leves e livres aves ondulantes ao vento… O design prepara para a leitura!

Marcas de água (o que fica depois de se deixar o livro)

‘Dizer sim à vida apesar de tudo’ é uma ode à vida, ao sentido da vida, à decisão de se tomar nas mãos a existência que é reconhecida como dom recebido e acolhido e apreciado e amado.

Viktor Frankl parte da sua própria experiência existencial (ela perpassa por cada linha escrita, mas é particularmente visível na terceira e última conferência, em que ele começa, precisamente, por recordar a sua vivência, no campo de concentração de Kaurering), mas, também como terapeuta, fazendo das suas conferências, não apenas reflexões bem argumentadas, mas também existencialmente muito fundamentadas.

A sua ideia fundamental é a de que a vida vale a pena ser vivida, mesmo quando as circunstâncias são muito adversas, sendo que, perante o destino que cabe a cada um viver, restam duas formas de abordar: ‘mudar, desde que seja possível, ou aceitar de boa vontade, desde que seja necessário.’

Frankl constata que, como referia Nietzsche, ‘quem tiver um porquê para viver, suporta quase qualquer como’, o que confere à existência a condição de uma responsabilidade que projeta o sujeito humano para diante. Assumir a vida como uma responsabilidade significa, na perspetiva de Frankl, que o sujeito humano tem um ‘alguém’ ou ‘uma instância’ diante do/da qual responde pela sua vida. Isso lança-o para diante, para o futuro, fazendo emergir um sentido que, na linha da constatação que ele mesmo fez, ao criar a logoterapia, é condição para se sobreviver às maiores adversidades.

Coerente com estes pressupostos, Frankl defende que é insustentável a posição dos que entendem que há vidas indignas, pois, na sua perspetiva, toda a vida humana tem sentido, toda a doença tem sentido e toda a morte, quando é vivida como morrer assumido pelo sujeito, tem sentido. O sentido é anterior ao sujeito a quem cabe descobri-lo. Ele não é o seu criador; descobre-o! A vida define-se, para Frankl, como um interrogar o sujeito humano que, pelo viver, corresponde, ‘respondendo’. Viver é responder. O sentido está em responder, no próprio ato de viver que é, sempre, um encaminhar-se para diante e um responder perante alguém.

Afigura-se, assim, coerente a sua posição de que a eutanásia seria um reconhecimento de que haveria ‘vidas indignas de serem vividas’, contrariando as constatações a que a sua reflexão nos levara. Numa clara e lúdica argumentação, Frankl leva o leitor à constatação de como a aceitação desta significaria a perda da confiança inabalável no sentido da vida, assim como a aceitação de que ao médico competiria o poder de determinar o destino de alguém (negando que o destino é exterior aos sujeitos, perante o qual todos se posicionam) redundando numa alteração da própria missão do médico.

A razão última para a sua recusa desta, assim como da legitimidade do suicídio, está no reconhecimento da intrínseca dignidade de toda a vida humana, assumida como responsabilidade pessoal e insuscetível de qualquer redução ao critério da ‘utilidade’. O sentido da vida humana está acima e para além de toda a qualificação resultante da sua utilidade.

Interpelam estas conclusões, não apenas pela sua atualidade, mas principalmente pela sua intemporalidade, sustentada em experiência real em que a certeza do sentido conferiu a ‘força’ para a superação dos maiores limites algum dia vividos.

Na mesma página que o autor (citações)

‘Frankl conseguiu sobreviver ao tifo, que quase o levou à morte, e resistiu à fome, ao frio e à doença, graças a uma objetivação da dor, ou seja, à capacidade de se autodistanciar daquele mundo que o circundava, enveredando pela «autotranscendência», compreendida como «orientação da existência humana para além de si, orientada para algo ou para alguém».’ (Prefácio de D. Nuno Almeida, pp. 14-15)

‘A reconciliação com a vida […], segundo Frankl, acontece mediante a busca e a ativação do sentido para a existência pessoal e coletiva. Para que isto se realize, há que desenvolver a capacidade pessoal de entrega, de saída de si mesmo, e percorrer as vias da autotranscendência.’ (Prefácio de D. Nuno Almeida, p. 16)

‘Encontra-se em Frankl não somente um honesto e rigoroso estudioso da alma humana, mas sobretudo alguém que, com assertividade, proclama a dignidade inalienável de cada ser humano. Apesar do sofrimento, da culpa e da transitoriedade da vida, é possível renascer, recomeçar sempre.’ (Prefácio de D. Nuno Almeida, p. 17)

‘O homem e a mulher, pela sua dimensão espiritual, podem distanciar-se tanto de disposições internas como de posições externas. Por isso, o ser humano é um ser essencialmente livre, podendo decidir livremente sobre a sua vida, graças a uma capacidade não possuída por nenhum outro ser, uma faculdade especificamente humana: o autodistanciamento, ou seja, a capacidade que o ser humano tem de se distanciar não só do mundo, mas também de si mesmo. O importante não é a nossa disposição nem a nossa situação exterior, mas sim a atitude que se adota, a qual é sempre escolhida livremente por cada um de nós.

As circunstâncias biológicas, psicológicas, sociais podem condicionar, mas não determinar, o desenvolvimento da existência humana.[…]

A liberdade humana, não sendo omnipotência, pois o ser humano não pode fazer tudo o que quer realizar, nem é tão pouco arbitrariedade, pois há de responder perante a sua decisão, possibilita que a pessoa possa ser responsável.’ (Prefácio de D. Nuno Almeida, p. 18)

‘Para a logoterapia, o impulso primário da pessoa não é, como pensou Freud, a vontade de prazer; também não é a vontade de poder, como preconiza Adler, mas a vontade de sentido. Este sentido não se inventa, mas descobre-se: numa obra, num amor, numa tarefa a realizar. No fundo, cada um tem de perguntar: o que é que a vida quer de mim? Em última instância, viver significa assumir a responsabilidade de encontrar a resposta correta para os problemas que a vida coloca e cumprir as tarefas que ela continuamente aponta a cada pessoa.’ (Prefácio de D. Nuno Almeida, p. 19)

 

‘[…] a felicidade não deve, não pode nem consegue nunca ser um objetivo, mas apenas um resultado; resultado precisamente do cumprimento (Erfüllung) daquilo que no poema de Tagore se chama dever e que nós, mais à frente, iremos esforçar-nos por definir melhor. De qualquer forma, toda a busca da felicidade da pessoa humana está condenada a falhar na medida em que a felicidade só lhe pode cair no colo, deixando-se jamais «caçar». Foi Kierkgaard que expressou a sábia parábola: a porta para a felicidade abre «para fora», isto é, ela fecha-se justamente para aquele que, por assim dizer, a tenta forçar para dentro.’ (Pp. 33-34)

‘[…] impunha-se efetuar aquilo a que, com Kant, se poderia chamar uma viragem «copernicana», uma viragem de pensamento de 180 graus, de acordo com a qual a pergunta não pode ser: «O que posso eu ainda esperar da vida?», mas sim: «O que espera a vida de mim?» Que tarefa na vida espera por mim?’ (P. 34)

‘Viver em si nada mais é do que ser interrogado (Befragt-sein), todo o nosso ser nada mais é do que uma resposta – uma assunção da responsabilidade da vida.’ (P. 34)

‘[] costumo habitualmente contar a história que apareceu numa breve notícia de jornal: um negro condenado à prisão perpétua foi deportado para a Ilha do Diabo. Quando o navio, o Leviatã, se encontrava no alto mar deflagrou um incêndio. Naquela emergência, o prisioneiro foi libertado das suas correntes, tendo participado na operação de salvamento. Este senhor salvou a vida de 10 pessoas. Mais tarde, em consequência disso, o prisioneiro foi amnistiado. Eu pergunto: se se tivesse, antes do embarque, isto é, no cais de Marselha, perguntado a este prisioneiro se a sua vida futura poderia ainda ter algum sentido – ele teria obviamente abanado a cabeça: havia alguma coisa que estivesse ainda à espera dele? Mas nenhum de nós sabe o que está ainda à nossa espera, que grande momento, que oportunidade única para um ato sem igual está ainda à sua espera – tal como o salvamento de 10 pessoas estava à espera desse negro do navio Leviatã.’ (p. 35)

‘Damos sentido à vida através de ações, mas também através do amor – e finalmente através do sofrimento. Pois é a forma como uma pessoa lida com a limitação das suas possibilidades de vida, enquanto elas afetam o seu agir e a sua capacidade de amar, a forma como se comporta com esta limitação – a forma como assume o seu sofrimento sob tal limitação, em tudo isto ela é ainda capaz de realizar valores.

Portanto, é na forma como lidamos com as dificuldades que se vê quem somos, e é também isso que nos torna capazes de viver uma vida plena de sentido.’ (Pp. 39-40)

‘O destino, portanto, aquilo que nos acontece, pode, […], de qualquer forma, ser modelado – duma ou doutra maneira. «Não existe nenhuma situação que se não deixe enobrecer, seja através da realização seja através da resiliência», diz Goethe. Ou nós alteramos o destino – se for possível – ou então aceitamo-lo de boa vontade – se for necessário. Interiormente, em ambos os casos podemos crescer através da infelicidade. E agora compreendemos também o que o poeta alemão Hölderlin quer dizer quando escreve: «Se eu piso a minha infelicidade, fico mais alto.».’ (p. 40)

‘[Esta é] a grande realidade fundamental do que é pessoa humana – a pessoa humana não é outra coisa senão: ser consciente (Bewusst-Sein) e ser responsável (Verantwortlich-Sein)!

Mas se a vida, tendo em conta a possibilidade, tem sempre sentido, se, portanto, depende unicamente de nós quanto à vida ser cumprida a cada momento com este possível sentido – que está em permanente mudança -, se é da nossa inteira responsabilidade e depende da nossa decisão a concretização deste sentido, então sabemos também com certeza o seguinte: há uma coisa seguramente sem sentido, que não tem sentido nenhum, que é deitar fora a vida. O suicídio não é, por conseguinte, de forma alguma uma resposta a uma qualquer pergunta; o suicídio nunca será capaz de resolver algum problema.’ (Pp. 42-43)

‘[…] o suicida infringe as regras do jogo da vida; estas regras do jogo não exigem de nós que vençamos a todo o custo – porém, elas exigem de nós que em nenhum caso desistamos da luta.’ (p. 44)

‘[…] o facto e apenas o facto de sermos mortais, de a nossa vida ter fim, de o nosso tempo ser limitado e as nossas possibilidades serem limitadas, faz com que pareça ter sentido realizar qualquer coisa, aproveitar uma possibilidade e concretizá-la, realizá-la, aproveitar o tempo e preenchê-lo. A morte representa aqui uma compulsão. É justamente sobre o pano de fundo da morte que o nosso ser constitui, pois, um ser responsável.’ (p. 44)

‘A unicidade só pode ter valor quando ela não constitui uma unicidade para si mesma, mas sim uma unicidade para a comunidade humana. O simples facto de que todo o indivíduo possui impressões digitais «únicas» nas polpas dos dedos tem quando muito relevância para os criminologistas, para a investigação criminal ou para descobrir um criminoso; mas esta «individualidade» de cada indivíduo não faz dele, sem mais nem menos, uma «personalidade», isto é, uma pessoa humana que na sua unicidade tem valor para a comunidade.’ (p. 49)

‘[…] a vida em si significa ser interrogada, significa responder – cada um responsabilizar-se pela sua existência. A vida assim já não surge como uma realidade (Gegebenheit), mas sim uma realidade incumbida (Aufgegebenheit) – é em cada momento uma tarefa.’ (p. 50)

‘O ponto de vista que se nos oferece pode expressar-se acertadamente com as palavras de Hebbel: «A vida não é alguma coisa – ela é uma oportunidade para alguma coisa!».’ (p. 51)

‘Uma das conclusões a que quisemos chegar na nossa primeira conversa é a seguinte: se a vida tem sentido – então o sofrimento também tem de ter sentido.’ (p. 55)

‘A doença faz parte do sofrimento. Dizemos «faz parte»; pois «o sofrimento» e a «doença» não são a mesma coisa. A pessoa humana pode sofrer sem estar doente; e pode estar doente sem sofrer. O sofrimento é de tal forma um assunto humano, pertencendo-lhe de certo modo como tal, que, em determinadas circunstâncias, justamente o não sofrer pode ser uma doença. Vemos isso sobretudo no caso das doenças que qualificamos de doenças mentais que são nada menos que doenças ligadas à mente.’ (p. 55)

‘[…] a realização de sentido é possível em três direções principais: a pessoa humana é capaz de atribuir sentido à sua existência, em primeiro lugar, fazendo algo, agindo, criando algo – concretizando uma obra; em segundo lugar, experienciando algo – a natureza, a arte, amando pessoas; e, em terceiro lugar, finalmente, pode atribuir sentido à vida, encontrar sentido nela também onde nem na primeira nem na segunda direção lhe é dada essa possibilidade – a saber, justamente quanto toma posição sobre a limitação inalterável, fatídica, inescapável e inevitável das suas possibilidades, a forma como lida com ela, como se comporta com ela, como aceita este destino. No decurso do tempo, a pessoa tem de estar preparada para alterar sempre a direção desta realização de sentido, muitas vezes abruptamente, tendo em conta as «exigências específicas da hora».’ (Pp. 60-61)

‘[Um designer gráfico publicitário, com doença oncológica em fase terminal] sabia perfeitamente que os seus dias, em última análise, as suas horas, estavam contados. Lembro-me nitidamente da visita que tive de fazer como médico de serviço naquele hospital na última tarde da sua vida. Quando passei pela cama dele, fez-me sinal para eu me aproximar. Falando com esforço, deu-me a entender que, durante a visita do chefe de serviço, tinha percebido que o Prof. G dera ordens para, nas derradeiras horas, lhe ser administrada uma injeção de morfina a fim de aliviar os estertores da morte iminentes. Continuou dizendo que, como tinha motivos para acreditar que na noite seguinte «chegaria a sua hora», me pedia que lhe desse a injeção já, durante a visita – de modo que a enfermeira do turno da noite não tivesse de incomodar o meu sono de propósito por causa dele… Nas últimas horas da sua vida, este homem estava ainda preocupado em poupar os outros, em vez de os «incomodar»! […] Hão de me compreender se eu agora afirmar: nenhum cartaz de publicidade esplêndido nem o melhor e mais belo do mundo que este nosso doente tivesse conseguido fazer ainda durante a plena atividade profissional equivaleria como realização a esta singela realização humana que se viu no comportamento descrito relativo às suas últimas horas.’ (Pp. 62-63)

‘[…] Rilke exige de toda a pessoa humana ou desejou para toda a pessoa humana: «poder morrer a sua morte!» Dito doutra forma, integrar também a morte com sentido no todo da vida, mais ainda, realizar o sentido da vida até na própria morte.’ (Pp. 64-65)

‘Se após tudo isso se comprovou que até a vida com doença, ou melhor, a vida condenada à morte não representa de modo algum uma vida sem sentido, então agora temos de nos virar para a questão de saber com que direito se pôde alguma vez afirmar que o homem doente ou um homem que sofre de doença terminal era um homem sem valor, sendo a sua vida «uma vida indigna de ser vivida». Queremos aqui pôr de lado todo o tipo de valor no sentido de «utilidade», que até as vidas de pessoas doentes, aliás precisamente as suas vidas, poderiam ter, na medida em que podem contribuir para a descoberta de novas doenças ou o desenvolvimento de novos tratamentos; […]

Se, portanto, se levanta a questão do simples valor utilitário da vida doente para a sociedade humana e para o progresso científico, então esta questão revela já um ponto de vista inumano (un-menschlich) e, por conseguinte, também um ponto de vista não médico (un-ärtslich), um ponto de vista de um radical coisificação e degradação do ser humano, que recusamos adotar por uma questão de princípio. Nem sequer o doente psíquico «é» para nós uma doença, mas sim em primeiro lugar uma pessoa humana, que «tem» uma doença. E como esta pessoa humana pode ser humana, ainda que esteja tão doente, como pode ser humana não apenas apesar da e na sua doença, mas também na sua atitude face à doença.’ (Pp. 70-71)

‘Temos de nos questionar sobre o seguinte: suponhamos que de facto éramos de tal forma omniscientes, como seria aliás necessário, ao ponto de podermos falar com absoluta segurança da incurabilidade não apenas momentânea, mas também duradoura: quem, mesmo nesse caso, dá ao médico o direito de matar? Estará alguma vez o médico como tal designado para isso pela sociedade humana? Não terá ele antes a tarefa de salvar, onde puder, ajudar, onde puder, e tratar quando não for já possível curar? […] O médico enquanto médico não é com certeza um juiz sobre o ser e o não ser dos doentes que lhe são confiados ou mesmo dos que confiam nele. Por isso, não lhe assiste de antemão o direito de – e jamais deve arrogar-se possuir esse direito – formar um juízo sobre o suposto valor da vida, ou a falta dele, de doentes supostamente ou de facto incuráveis.

Imagine-se onde iríamos parar se a este «direito» (que não tem de facto) se desse força de lei (ainda que fosse apenas uma lei não escrita). Digo-lhes o seguinte: a confiança dos doentes e dos seus familiares na classe médica ficaria destruída duma vez por todas! Pois ninguém saberia ao certo se o médico se aproxima dele como alguém que presta cuidados e alguém que cura – ou já como juiz ou algoz.’ (Pp. 74-75)

‘[Há quem interrogue] se o Estado não teria o dever de conceder ao médico o direito de aniquilar indivíduos supérfluos e inúteis. […]

Pois bem, quanto ao «consumo» de bens como os géneros alimentícios, as camas dos hospitais, o trabalho realizado pelos médicos e enfermeiros, etc., qualquer discussão deste argumento torna-se supérflua se tivermos em conta o seguinte: um Estado que economicamente está numa situação tão miserável que tem necessidade de eliminar uma percentagem relativamente reduzida dos seus doentes incuráveis para assim poupar nos gastos referidos acima – um Estado destes não tem hipóteses nenhumas em termos económicos!

No que diz respeito ao outro lado da questão, isto é, o facto de que os doentes incuráveis já não são úteis para a comunidade humana, de que a assistência para eles é uma assistência «improdutiva», seria necessário lembrar que a utilidade para a comunidade não é nunca o único padrão que temos o direito de aplicar a um ser humano.’ (Pp. 75-76)

‘Quando nós, na nossa primeira conferência, falávamos de que a unicidade e a singularidade de toda a pessoa humana constituía o valor da sua pessoa, que este valor tinha de estar relacionado com uma comunidade, «para a qual» esta unicidade tinha uma importância valiosa, então estávamos todos a pensar especialmente em termos de serviço prestado à comunidade; mas agora verifica-se que existe ainda um segundo caminho em que a pessoa humana como um ser único e singular se realça nesta sua unicidade, em que, portanto, o valor da sua personalidade se concretiza e, nessa medida, o seu sentido da vida pessoal e concreto se realiza: é o caminho do amor – ou melhor, de ser amado. […] No caminho do amor é concedido à pessoa humana, «pela via da graça», aquilo por que doutra forma tem de se esforçar, que tem de obter através da ação: a realização tanto da sua unicidade como da sua singularidade. Pois, a essência do amor consiste em fazer com que a pessoa amada se nos torne visível justamente na sua unicidade e singularidade.’ (Pp. 76-77)

‘[…] defendo o ponto de vista de que no caso duma tentativa de suicídio, o médico tem não só o direito como a obrigação de intervir medicamente, e isto significa: a obrigação de salvar e de ajudar, tanto quanto lhe for possível. […] o que eu contrapus aos críticos morais do meu método […] foi o seguinte: não sou eu quem pretende desempenhar o papel do destino, mas sim é o médico que tenta desempenhar o papel do destino, que deixa o suicida entregue ao seu destino, que deixa o destino «em roda livre» e, onde talvez pudesse intervir, ajudando, cruza dos braços. […] uma vez que foi colocado nas mãos do médico, então este deve agir como médico e não cair nos braços deste destino, deste destino «misericordioso».’ (Pp. 80-81)

‘Espero agora, através da discussão de todos os argumentos aparentes que poderiam falar em favor da eutanásia, ter-lhes mostrado como é incondicional o sentido da existência e, consequentemente, como deve ser também inabalável a nossa crença no sentido da vida.

[…] Relembrando, grosso modo, o nosso resultado principal, fizemos a constatação básica de que a vida em si significa que a questionemos e que, deste modo, não de pode, justificadamente, perguntar pelo seu sentido, pois este sentido consiste em dar uma resposta. As respostas, como dizíamos, que temos de dar às perguntas concretas da vida já não podem ser dadas em palavras, mas sim em atos, mais ainda: na nossa vivência, em todo o nosso ser! As questões «da» vida só podem ser respondidas, queríamos nós dizer, sendo «cada um de nós» responsável pela própria vida.’ (p. 81)

‘[…] o deixar-se cair psiquicamente por falta de suporte espiritual, sobretudo pela perda de um suporte no futuro, conduz também à decadência física.’ (p. 97)

‘Recordando-me das palavras de Nietzsche, que uma vez disse: «Quem tiver um porquê para viver, suporta quase qualquer como».’ (P. 97)

‘Era necessário morrermos a nossa morte – e não, por exemplo, a morte que as SS nos tinham imposto! Somo responsáveis tanto por esta tarefa como pela tarefa de viver. Responsáveis – perante quem, perante que instância? Pois então, quem poderia responder a esta pergunta pelo outro? Não terá cada um de nós de decidir por si próprio sobre essa questão? Que importa se, por exemplo, uma pessoa na barraca se sentia responsável perante a sua consciência e uma outra perante Deus e uma terceira perante uma pessoa humana, que estava naquele momento distante? Em todo o caso, cada um deles sabia que existia, de alguma forma, algures, alguém que olhava, invisível, por ele, alguém que exigia dele «que ele se mostrasse digno do seu sofrimento» - como Dostoiévski disse uma vez – e que esperava dele que ele «morresse a sua morte».’ (Pp. 98-99)

‘[…] em cada momento sou responsável pelo próximo; […] cada decisão, a mais pequena como a maior, é uma decisão «para a eternidade»; […] em cada momento realizo uma possibilidade, a possibilidade de um momento, ou perco-a. Cada momento alberga milhares de possibilidades – e eu posso escolher apenas uma para a realizar; ao tê-la, por assim dizer condenei todas as outras ao nunca-ser – e também isto; «para toda a eternidade»! Mas é maravilhoso: saber que o futuro, o meu próprio futuro e, conjuntamente com ele, o futuro das coisas, das pessoas à minha volta – dependente em cada momento da minha decisão. O que eu realizo através dela, o que eu «coloco no mundo», como dissemos – salvo-o para dentro da realidade e assim protejo-o da transitoriedade.’ (p. 107)

‘O problema é que em média as pessoas são demasiado indolentes para assumir a sua responsabilidade. E é aqui que começa a educação para a responsabilidade: a carga é pesada; é difícil não só reconhecer a responsabilidade como ser partidário dela. Dizer-lhe sim a ela e à vida.’ (p. 107)

‘Dizer sim à vida tem não só sentido sob qualquer circunstância – a própria vida tem-no -, mas sim, é possível sob qualquer circunstância.’ (p. 107)

**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

domingo, abril 07, 2024

Caminhada pela vida | Contra rótulos e preconceitos, os factos. Simplesmente, os factos


 Artigo originalmente publicado em https://diocese-aveiro.pt/cultura/

No dia 6 de abril, sábado, o país mobilizou-se para afirmar que a vida humana é portadora de uma dignidade (inerente) que a torna merecedora de proteção.

Com honrosas exceções, em que merecem destaque a Sic, a Renascença, a Ecclesia e a imprensa de âmbito regional (sempre atenta à autêntica realidade e não preocupada em ficcionar sobre ela…), esta manifestação, que reuniu alguns milhares de pessoas em doze cidades do país (que inclui ilhas!), foi brindada com o silêncio da imprensa de âmbito nacional.

Como tem ocorrido, aliás, ao longo dos tempos.

Infelizmente, a causa da vida parece não ter ‘boa imprensa’. Nunca a teve, mas estou certo de que terá bom tempo, o bom tempo do lugar certo da história da humanização.

E quando merece algum lugar de referência, é, com frequência, como forma de se lhe atirar com os habituais epítetos preconceituosos que sossegam os ânimos dos potencialmente mobilizáveis e pretendem isolar os mobilizados.

Entre esses epítetos e preconceitos, contam-se, como mais frequentes, os de que são os crentes que estão a tentar impor a sua vontade aos demais ou que se trata de movimentos que visam assegurar um retrocesso em ‘conquistas’.

Antes de avançar para os factos, gostaria de enfrentar estes dois ‘brindes’ com que costumamos ser rotulados.

Como crente que sou, agradeço o reconhecimento de que a opção crente está do lado dos que protegem a vida humana, em particular quando se encontra mais frágil e mais dependente, mas o meu agradecimento tem de ser honesto. Como bem reconhecia Norberto Bobbio, um laico, socialista e descrente, reconhecido político e pensador italiano, ‘não se pode (nem deve) entregar aos crentes o monopólio da defesa da vida humana.’ Ele mesmo sabia que esta não era uma questão de natureza religiosa, mas de ordem humana, humanitária. De qualquer modo, como crente, não posso senão sentir-me honrado com aquela que pensam ser uma ‘acusação’ ofensiva. Agradeço-a, mas a honestidade obriga-me a colocá-la onde deve estar. As motivações religiosas somam motivos, mas não precisamos da fé para reconhecer que temos o dever de cuidar uns dos outros. É a base de uma sociedade solidária…

O outro epíteto é o de que a defesa da vida humana contra as arbitrariedades da liberdade individualista seja um retrocesso.

Lamento defraudar os que se consideram progressistas por defenderem o aborto, o infanticídio, a eutanásia, etc. Daí já vimos e não queremos lá voltar. Ao longo da história, a tentação de desvalorizar a criança, o filho no útero, o doente, o idoso, foi omnipresente, mas as conquistas de humanidade levaram-nos a reconhecer que não era andar para a frente a sua legitimação, mas um autêntico regredir ao tempo em que nos abandonávamos, por sermos um empecilho no nomadismo. Hoje, já não estamos aí.

Como recordava o Cardeal Tolentino de Mendonça, no seu discurso de 10 de junho de 2020, e invocando ideia defendida pela antropóloga Margaret Mead, o primeiro sinal de humanidade foi um ‘fémur cicatrizado’, o primeiro sinal de que não abandonámos à sua sorte ou, melhor, à morte, aquele que partiu uma perna e não podia acompanhar-nos. Ficámos ao seu lado e ajudámo-lo a erguer-se…

Defender que é legítimo matar (um filho ainda precariamente desenvolvido ou um pai idoso e doente) não é um avanço. É um enorme retrocesso. Um enorme retrocesso!

Mas porquê?

 

Os factos

 

Facto 1

A morte é irreversível. As circunstâncias que envolvem a vida e o seu desenvolver-se são, por sua vez, reversíveis. É pouco lógico e pouco consistente legitimar um ato irreversível por circunstâncias que poderíamos mudar, porque são reversíveis. Poderemos ser mais ricos ou mais pobres, mais livres ou menos livres, mais dependentes ou mais autónomos, mais belos ou esteticamente menos dotados, mais robustos ou mais frágeis, mais sofredores ou mais saudáveis… Tudo isso é móvel e volúvel. A morte é que é irreversível. Ora, é por isto que os constituintes perceberam que a vida teria de ser inviolável. Não se lhe deveria poder tocar com a legitimação do seu abrupto e voluntário fim. Porque nenhuma circunstância é mais valiosa do que a vida aberta ao amanhã.

 

Facto 2

Um filho, desde o início, desde a fusão de um espermatozoide com um óvulo, passa a ser o fruto de dois: um pai e uma mãe. Deste modo, sabendo que, pela natureza das coisas, o filho só pode desenvolver-se no útero de um, esse filho não é posse desse que lhe permite desenvolver-se, não só pela dignidade inerente ao filho (é um ser irrepetível e único), mas também porque, enquanto gerado por dois, não pode ser direito de um só. A mãe é a primeira cuidadora, não a possuidora do filho, tal como o pai não é, nunca, o seu possuidor, mas o seu outro protetor e cuidador. Ao pressuposto destas considerações dá-se o nome de dignidade. Dignidade não é uma mera perceção de se ser digno; é anterior à própria perceção. É essa condição que deve despertar a perceção.

 

Facto 3

O filho é distinto da mãe, pelo que é um sofisma motivador de reprovação em qualquer cadeira de lógica de primeiro ano pretender confundir o filho com o corpo da mãe, o que é facilmente demonstrável, por exemplo, nos casos em que o tipo de sangue do filho é distinto do tipo de sangue da mãe. O sofisma é ainda assente num outro erro de lógica que é presumir que, se fosse corpo da mãe, então poderia fazer-se o que se entendesse, conclusão que a simples obrigação, por exemplo, de utilizar cinto de segurança deita por terra. O legislador sabe bem que a obrigação de utilização do cinto é estabelecida, não para proteger outros, mas a si próprio, pelo que se demonstra que há um pressuposto, no ordenamento jurídico, de que temos o dever de cuidar de nós mesmos, não sendo legítimo o absoluto princípio de que a minha autonomia poderá legitimar tudo o que eu pretenda fazer-me a mim mesmo.

 

Facto 4

A eutanásia não é um meio de acabar com o sofrimento.

Para isso, existem as terapêuticas várias, entre as quais merecerão destaque os cuidados paliativos.

A eutanásia mata o sofredor, sem incidir sobre o sofrimento. Mata quem sofre, acabando, entre outras coisas, com o seu sofrimento, mas também com o seu futuro e levando consigo todos os que o rodeiam. Como testemunhava um filho de um suicida, em estudo recolhido por Alexandrina Meleiro, na Revista Brasileira de Medicina (Set 2013), ‘quando uma pessoa se mata, não se mata só a si mesma. Mata todos ao seu redor. Mata todos os que a amam.’ A eutanásia não é um suicídio, antes um ato realizado por outrem sobre alguém a pretexto de estar em fim de vida ou em sofrimento, mas é, muitas vezes, pretensamente legitimada como se de um suicídio se tratasse.

Não o é e comporta custos para a confiança nas relações, mas mesmo que fosse um suicídio, seria contraditório que a sociedade defendesse que o suicídio é um mal a combater e, em total contradição, legitimasse a prática da eutanásia.

 

Facto 5

A compaixão não legitima as práticas de morte. Utilizá-la para legitimar o aborto ou a eutanásia é cobardia e um sofisma a denunciar.

A compaixão que pretende suportar a eutanásia e o aborto é um modo fácil de abandono e de deixar de se preocupar com o outro. É um modo assético de encarar o fim da vida, com os seus desafios e exigências. Devemos cuidar. É isso que faz uma sociedade humanizada.

Eutanasiar é próprio das sociedades distópicas como as que Aldous Huxley descreve no seu ‘Admirável mundo novo’, um mundo de humanos robotizados, amorfos e incapazes de enfrentar a condição frágil, próprio de se ser humano.

 

Facto 6

Os que pretendem legalizar estas práticas que tornam vulnerável o ser humano nas suas fases de maior dependência utilizam argumentos que manipulam a realidade e a contorcem até que diga o que querem que ela diga. Invocam, inclusive, os chamados valores europeus, como se a Europa tivesse como único e absoluto valor uma certa ideia de liberdade identificada com um ‘fazer tudo o que se quer’. A Europa tem na liberdade, bem certo, um valor fundamental, mas não absoluto. Anterior ao valor da liberdade está a inviolabilidade da dignidade humana que, como afirma a Declaração Universal dos Direitos do Homem, no seu preâmbulo, fundamenta a liberdade. Sem o reconhecimento da dignidade inerente a todos os humanos (todos, mesmo!), não há liberdade, mas pura arbitrariedade dos mais fortes sobre os mais fracos. E isso não é um valor europeu…

 

Diante destes factos, para onde caminha o futuro?

Sabes, leitor... | 4 | Marca de água do livro de George Orwell, '1984'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura
O autor e a obra
George Orwell, 1984, Lisboa, Relógio D’Água, 2021.

George Orwell é o pseudónimo de Eric Blair, nascido em junho de 1903, na Índia Britânica. ‘1984’ representa, com ‘o triunfo dos porcos’, o seu principal legado para a história da literatura, ainda que não seja de descurar o seu contributo enquanto ensaísta. Nos seus ensaios, reflete-se a sua visão crítica da sociedade, sempre bem documentada e sustentada em experiência vivida. Preparava-se, com a diligência de um jornalista comprometido, para cada texto, como ocorreu com o seu ‘como morrem os pobres’, que nasce da sua experiência de internamento hospitalar, por motivo de pneumonia. Assim também o seu ‘na penúria em Paris e em Londres’, publicado em 1933, sob o pseudónimo que o eternizou, emergiu do seu conhecimento profundo da realidade dos pobres e vagabundos.

Lutou na guerra civil de Espanha, ao lado dos republicanos, vertendo essa sua experiência para Homenagem à Catalunha (1938).

Tendo uma visão socialista da realidade, não deixou de se distanciar das experiências do socialismo real, opondo-se, através das suas mais conhecidas obras, ‘Triunfo dos porcos’ (1945) e ‘1984’ (1948), à tentação totalitarista.

É dos mais finos críticos das ditaduras totalitárias.

Marcas de água  (o que fica depois de se deixar o livro)

George Orwell mostra, neste livro, uma dupla liberdade: não só a que se revela no que diz, mas principalmente a que se revela por dizê-lo. Vale a pena lembrar que Orwell (Eric Blair, aliás…) escreve esta obra em 1948. A Rússia saíra vencedora da Guerra e a Europa tornara-se russófila. Ela tinha, afinal, derrotado o inimigo comum, que era o nazismo! Ter a coragem de pôr em causa um regime de que pouco se sabia e que, afinal, derrotara o inimigo que ensombrara o mundo, era ‘virtude’ que lhe custaria sérias adversidades.

‘1984’ é um livro inquietante. Pelo que diz e pelo que deixa subentendido. E, se o que anuncia se tem confirmado, esperemos, vividamente, que não se confirme o que nos reserva a última linha do livro: a entrada em vigor da novilíngua foi agendada pelo Partido para 2050…

Ao livro ‘1984’, cujo protagonista (e vítima) é Winston, devemos algumas das expressões que se incrustaram, como lapas, na linguagem crítica das tentações totalitárias. Ideias e termos como ‘polícia do pensamento’, ‘ministério da verdade’, ‘big brother’, ‘novilíngua’, ‘duplipensar’, ‘patofalar’, ‘pensacrime’ (crime do pensamento), ou o reconhecimento de que ‘quem controla o passado controla o futuro’ perpassam esta obra, surpreendendo a incisividade com que se retrata uma realidade feita, toda ela, de ilusão e manipulação.

Lemos, hoje, ‘1984’ com uma surpresa inédita, pois descobrimos, em cada página, já não o retrato de uma realidade política que julgávamos ultrapassada, mas com a perplexidade de quem vislumbra, ao espelho, as manchas do próprio rosto. Num tempo da cultura woke, manipuladora, revisionista e negadora da liberdade de pensar, a leitura de ‘1984’ faz doer a alma. As personagens de 1984 poderiam ser substituídas pelos nomes de todas as vítimas contemporâneas da ousadia de pensar por si, vítimas de processos de ‘remissão da verdade’, transformadas em ‘impessoas’, desaparecidas para sempre do convívio dos vivos, por terem ousado pensar por si.

‘1984’ é um livro de génio e de um génio que alertou e continua a alertar para a vulnerabilidade da verdade e para como, manipulando as massas, através da criação de inimigos (virtuais e inexistentes, mas omnipresentes), e promovendo uma cultura do medo, se pode perpetuar a posse do poder, distraindo e alienando.

A verdade, como nos leva a concluir, é um fruto vulnerável, nunca imunizado à manipulação de quem comanda as leituras do passado.

1984 é um alerta e devia ser obra de leitura obrigatória, antecedida da de ‘o triunfo dos porcos’. 1984 podia bem ser ‘2023’ ou ‘2024’ ou qualquer outra data de hoje em que se pretende sumir a verdade às manipulações da leitura da verdade, que chegam a fundir, na impessoalidade, indivíduos que, por se pretender esquecer e a obra que deixaram, se considera nunca terem existido. Nunca existiram, mesmo, diria o ‘Grande Irmão’.

Medo, omnivisão do grande irmão, manipulação são os condimentos da ditadura. E que maior ditadura do que a que se faz de poderes cuja sede é impossível determinar?

Na mesma página que o autor (citações)

‘As pessoas tinham de viver – e viviam, por um hábito tornado instinto – no pressuposto de que todos os seus ruídos eram escutados e, exceto às escuras, todos os seus movimentos eram escrutinados.’ (p. 18)

‘Escrever ABAIXO O GRANDE IRMÃO ou abster-se de o escrever não fazia qualquer diferença. Prosseguir com o diário ou não prosseguir, não fazia qualquer diferença. A Polícia do Pensamento iria apanhá-lo na mesma. Havia cometido – e tê-lo-ia feito mesmo que não escrevesse nada no papel – o delito fundamental, que continha em si todos os outros. O pensacrime, como lhe chamavam.’ (p. 32)

‘A pessoa simplesmente desaparecia, sempre durante a noite. O seu nome era eliminado dos registos, tudo o que essa pessoa alguma vez fizera era apagado, toda a sua existência era negada e depois esquecida. A pessoa era abolida, aniquilada: o ermo mais usado era vaporizada.’ (p. 32)

‘Era quase normal as pessoas com mais de trinta anos terem medo dos seus filhos. E com bons motivos, pois rara era a semana em que o Times não trouxesse a descrição de como um pequeno delator – ‘herói infantil’ era a expressão normalmente usada – ouvira às escondidas uma observação comprometedora e denunciara os pais à Polícia do Pensamento.’ (p. 37)

‘”Atenção. A vossa atenção, por favor! Acaba de nos chegar uma notícia sobre a frente do Malabar. As nossas forças no Sul da Índia alcançaram uma vitória gloriosa. Estou autorizado a dizer que a ação militar que estamos a noticiar pode ter contribuído para tornar mais próximo o final da guerra. Segue-se o flash informativo…”

Vêm aí más notícias, pensou Winston. E, de facto, após uma vívida descrição da aniquilação dum exército eurasiático, com prodigiosos números relativos a inimigos mortos e capturados, veio o anúncio de que a partir da semana seguinte a ração de chocolate seria reduzida de trinta para vinte gramas.’ (p. 38)

‘Em baixo, na rua, o vento sacudia dum lado para o outro o cartaz rasgado, com o que a palavra SOCING ia aparecendo e desaparecendo. Socing. Os princípios sagrados do Socing, Novilíngua, duplipensar, a alterabilidade do passado. Winston sentiu como se caminhasse nas florestas do fundo do mar, perdido num mundo monstruoso onde o monstro era ele próprio. Estava sozinho. O passado estava morto, o futuro era inimaginável. Que certeza tinha de ter do seu lado um único ser humano? E como podia saber se o domínio do Partido não iria durar para sempre?’ (p. 38)

‘[…] se toda a gente aceitava a mentira que o Partido impunha – uma vez que todos os registos a repetiam -, então a mentira passava à história e tornava-se verdade. “Quem controla o passado”, dizia o lema do Partido, “controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.”’ (p. 46)

‘Esta era a grande subtileza: induzir conscientemente a inconsciência […]’ (p. 46)

‘Toda a história era um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário.’ (p. 51)

‘O camarada Ogilvy, que há uma hora não existia, era agora um facto. Winston pensou em como era curioso que se pudesse criar homens mortos, mas não vivos. O camarada Ogilvy, que nunca existira no presente, existia agora no passado, e, quando este ato de contrafação fosse esquecido, a existência dele seria tão autêntica, e documentalmente tão fundamentada, como as de Carlos Magno ou de Júlio César.’ (p. 58)

‘”Não percebes que todo o propósito da novilíngua é encurtar o alcance do pensamento? No final vamos tornar o pensacrime literalmente impossível, porque não haverá palavras para o exprimir.’ (p. 62)

‘A filosofia do Partido negava não só a validade da experiência, mas a própria existência da realidade externa. A maior heresia era o senso comum. […] O Partido dizia às pessoas para recusarem as evidências que lhes entravam pelos olhos e pelos ouvidos.’ (p. 89)

‘Muitas vezes estava disposta a aceitar os mitos oficiais simplesmente porque a diferença entre verdade e mentira não lhe parecia importante.’ (p. 157)

‘Um membro do Partido vive do nascimento até à morte sob o olhar da Polícia do Pensamento.’ (p. 210)

‘Pára-crime significa a faculdade de interromper abruptamente, como por instinto, qualquer início de pensamento perigoso.’ (p. 211)

‘A palavra-chave aqui é pretobranco. Tal como muitas palavras de novilíngua, esta encerra dois significados mutuamente contraditórios. Aplicada a um adversário, significa o insolente costume de afirmar que o preto é branco, contrariando a evidência dos factos. Aplicada a um membro do Partido, significa a leal disposição para dizer que o preto é branco quando assim o exige a disciplina partidária. Mas também significa a capacidade de acreditar que o preto é branco, e, mais até, de saber que o preto é branco e de esquecer que alguma vez se acreditou no contrário. Isso exige uma alteração permanente do passado, tornada possível pelo sistema de pensamento, que realmente abrange tudo o resto, conhecido em novilíngua como duplipensar.’ (p. 211)

‘O Ministério da Paz ocupa-se da guerra, o da Verdade ocupa-se da mentira, o do Amor encarrega-se da tortura, e o da Fartura lida com a fome.’ (p. 215)

‘O que quer que o Partido considere ser a verdade é a verdade.’ (p. 248)

‘Cortámos as ligações entre pais e filhos, e entre um homem e outro, e entre os homens e as mulheres. Já ninguém se atreve a confiar na sua mulher, nos seus filhos, nos seus amigos. Mas no futuro não haverá esposas nem amigos. As crianças serão tiradas às mães à nascença, tal como se tiram os ovos às galinhas.’ (p. 265)

‘Fora principalmente para dar tempo a esse trabalho preliminar de tradução que a adoção definitiva da novilíngua fora fixada para uma data tão longínqua como 2050.’ (p. 307 – última frase do livro).

**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'
 

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...