quinta-feira, junho 01, 2023

Regresso a Ítaca no sonho do Éden | Do ‘meio-homem, meio-peixe ou meio-pássaro’ ao ‘verdadeiramente Homem, verdadeiramente Deus’! (Ou de como o nosso ‘regresso’ nos leva do Furadouro a Calcedónia…)

   Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)

 

O medo e o perigo acompanham as mais longínquas e enraizadas histórias míticas de seres que eram ‘meio-homem, meio-animal’ (seja pássaro, seja peixe…). As trevas e o abismo devorador estão enlaçados com a descrição de seres que, por serem metade humanos, metade animais, se caracterizavam, paradoxalmente, por possuírem um poder sedutor. E o que terão tais narrativas míticas a ver com este ‘regresso a Ítaca no sonho do Éden’? Onde se encontram ou divergem, aqui, a cultura clássica e o cristianismo?

Antes de nos lançarmos a estabelecer essa ‘ponte’, partilho uma confidência. A matéria que dará corpo a este texto nasceu de forma muito improvável: uma visita à casa-museu Júlio Dinis, em Ovar, ocasião em que soube da existência de um conto do autor de ‘as pupilas do senhor reitor’, para mim, até então desconhecido. Aliás, desconhecido, ainda hoje, de significativa parte do grande público, e só descoberto por estudo feito pelo médico Egas Moniz, em 1924. O título: ‘o canto da sereia’. Segundo nos é dito na apresentação deste conto, Egas Moniz encontrou numa lenda de Pardilhó (Estarreja) a base que terá servido de mote para o conto criado por Júlio Dinis, no período em que esteve enfermiço em casa de uma tia, na então vila piscatória de Ovar (de maio a setembro de 1863).

Ao ler este conto[1], enquadrável no género dos contos fantásticos, dei-me conta de quão enraizadas estão as histórias de sereias, esses seres dotados de um poder sedutor a que dificilmente os sujeitos humanos se conseguem opor.

Recordei, ao ler a história contada pelo Ti’ Cabaça, passada em terras do Furadouro, e que tem em Pedro do Ramires o protagonista, a difícil viagem de Ulisses no seu regresso a Ítaca, ao passar pela ilha das sereias. Na epopeia de Homero, estas são mulheres-pássaro que, pelo seu canto, atraem para a morte, tendo a Circe recomendado a Ulisses que selasse com cera os ouvidos dos seus companheiros e que se prendesse ao mastro da nau.

Dois traços retêm a atenção de quem lê estas histórias: por um lado, estes seres, metade humanos, metade animais, são sedutores, mas atraem para o abismo; por outro, estão associados ao mar, que na cultura antiga, era sinal abissal e associado ao mal. Dali, nada de bom poderá vir, exceto perigos e perdição. (Não será difícil reconhecermos nestes traços as ‘tintas’ com que se pintavam os mitos que tomavam conta da cabeça dos nossos primeiros navegadores e tão poeticamente descritos por Camões, n’Os Lusíadas.)

Em síntese, recolhamos, para o nosso ‘regresso’, estas duas notas: a sedução para a perdição por parte de seres que são quimeras (meio-humano, meio-animal) e o perigo do mar.

E que ponte poderá estabelecer-se com o cristianismo? Que ‘redenção’ poderá esperar-se deste para estes tão radicais medos?

O mar parece ser abissal, no texto bíblico, e, com ele, as próprias águas. Mas essa seria uma conclusão precipitada se excluirmos a dimensão redentora com que as diversas narrativas bíblicas se acercam do elemento ‘mar’.

Bem certo que as águas destroem, pelo dilúvio, separam da salvação, antes de se abrirem fazendo barreira à direita e à esquerda, distanciam e afastam da salvação que se espera, em Nínive, etc. Mas essa é apenas parte de cada narrativa bíblica, pois só há salvação do que precisa de ser salvo. E a salvação é a resposta bíblica.

Essa mensagem é particularmente visível na narrativa de Mateus 14, 22-33.

É noite! (Mais um símbolo do abismo…) Jesus, após ter despedido as multidões, pede que o levem para a outra margem do mar da Galileia, para rezar. Sem grandes elementos intermédios, percebemos que o barco regressa ao mar, ficando Jesus no monte. O mar está encapelado, enchendo-se os discípulos de medo. O medo! Sempre o medo e o que ele significa de perigo e sedução do abismo.

Sem que percebam que é Jesus, este acerca-se deles, caminhando sobre as águas (que já não têm poder sobre Jesus… Ele é superior ao abismo que o mar representava.) Neste passo, Mateus revela-nos que – ao contrário do que acontece nas narrativas gregas – a palavra dita, proferida, não seduz para levar para o abismo (como acontecia com as sereias), mas antes é libertadora. Jesus não diz palavras para seduzir para o abismo. Antes, assegura que o abismo já não vence: ‘Tranquilizai-vos! Sou eu! Não temais!’ Termina a perícope afirmando que, perante o amainar do mar, ‘os que se encontravam no barco prostraram-se diante de Jesus, dizendo: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!»’ O abismo já não tem poder de seduzir para destruir. Antes, está definitivamente vencido, na linha do que se afirma no credo dos apóstolos que profere que Jesus ‘desceu ao reino dos mortos’, não porque este tivesse o poder de o levar, mas sim para que atue o poder redentor daquele que diz ‘Eu Sou!’.

Fixemo-nos, agora, no outro elemento da nossa síntese inicial: os seres ‘quimera’ (meio-humano, meio-animal)…

Ao afirmar ‘Eu Sou’, expressão recordada por este evangelista que terá escrito para judeus, Jesus está a afirmar a sua divindade. Com efeito, ‘Eu Sou’ é expressão muitas vezes associadas a um ‘cair por terra’ da parte dos que a ouvem, pois ela evoca a própria teofania de Deus, no Sinai, quando Se apresenta como ‘Eu Sou Aquele que sou’ (Yahweh).

Curiosamente, porém, Jesus não é ‘metade Homem, metade Deus’. Ele não é uma quimera. Às quimeras associamos, como anteriormente descrito, o perigo e a ambiguidade que seduz para o abismo. Vejamos o que consagrou o concílio de Calcedónia, em pleno século V, contexto de acesas polémicas sobre a identidade e a presença das duas naturezas na pessoa única de Jesus Cristo.

Diz o Concílio de Calcedónia (451), quarto concílio ecuménico, na quinta sessão (22 de outubro de 451), onde formula o ‘credo de Calcedónia’, acerca das duas naturezas em Cristo: “Seguindo, pois, os Santos Padres, ensinamos unanimemente que há que confessar um só e mesmo Filho e Senhor nosso Jesus Cristo: perfeito na divindade, e perfeito na humanidade; verdadeiramente Deus, e verdadeiramente homem <composto> de alma racional e corpo; consubstancial ao Pai segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado; gerado do Pai antes dos séculos segundo a divindade, e nos últimos dias, por nós e pela nossa salvação, gerado de Maria Virgem, a mãe de Deus, segundo a humanidade.” (Tradução nossa, a partir da edição de Heinrich Denzinger e Peter Hünermann, El magistério de la Iglesia: Enchiridion symbolorum definitionum et declarationum de rebus fidei et morum, Barcelona, Herder, 1999, n. 301

Jesus Cristo não tem as características de uma quimera, em que cada uma das naturezas tem de ceder espaço à outra para poder existir. As duas naturezas estão presentes, plenamente, numa afirmação clara de que Deus não anula o homem nem a plenificação deste significa a anulação de Deus. Ele é ‘verdadeiramente Deus e verdadeiramente Homem’. Uma tal verificação contraria, aliás, as presunções da história, em particular do século XIX, onde algumas correntes ateias pretenderam denunciar que a fé religiosa significaria a anulação do ser humano. A afirmação de Calcedónia rejeita tal conclusão. Jesus não é, à maneira das sedutoras sereias, voz que atrai para o abismo, supondo que uma natureza limite a outra: pelo contrário, na Pessoa de Jesus Cristo, explicita-se que a realização máxima do Homem não significa o recuo de Deus, assim como a plena expressão de Deus, na História, não comporta o esvaziamento da humanidade.

A voz que atraiu Pedro do Ramires para o abismo era a de uma quimera, assim como a que obrigara Ulisses a prender-se ao mastro. A Palavra, que é o Verbo encarnado, atrai, mas já não para o abismo; antes eleva e redime os limites que se simbolizavam no mar, enquanto metáfora do abismo. E só é possível porque, n’Ele, as duas naturezas estão completas, sem se limitarem uma à outra.



[1] Li a edição de 2021, da Oro, apoiada pela Câmara Municipal de Ovar e pelo Museu Júlio Dinis, e coordenada por José Licínio Pimenta e António França.

terça-feira, maio 16, 2023

Confissão sentida de um rapaz que foi, por muito tempo, ‘uma’ criança…

 [Este texto é um mero exercício de ironia. Escrevi-o (hoje, convém assegurá-lo…), mas o que nele se defende não corresponde ao que defendo.]

 

Não fosse o marxismo cultural e, com ele, a novilíngua, e nunca me teria descoberto alienado. Mas assim sou, de facto.

Vivi todos estes anos certo de me pertencer, mas descubro que, afinal, vivi uma alienação de que o marxismo cultural me anuncia libertação para breve. Conto com isso, pelo menos.

Senão, vejamos…

Hoje, o marxismo cultural tomou em mãos libertar-nos de uma linguagem que pensávamos plataforma de entendimentos convencionados, mas que percebemos ser, afinal, lugar de opressões de que urge (já peca por tardia essa libertação, garantem-nos!) libertarmo-nos… Onde víamos, até agora, meras convenções que nos facilitavam entendermo-nos, encontramos, agora, com um arregalar de olhos, marcas de escravatura e de machismos reprimidos e opressores.

Libertemo-nos, por isso!

É nessa onda que, após a minha mais entranhada surpresa, decidi empapar esse processo de libertação dos elementos da minha causa.

Descobri que vivi sob uma identidade que me impingiram através da linguagem, identidade desfocada e desajustada daquilo que sou, pelo que me somo aos que pedem que adequemos os termos aos sujeitos a que se refere.

Vejamos, então, o que descobri e constatemos como é urgente que outros somem vozes aos que pedem acabar com os machismos ou as marcas de colonização e outros sinais opressores e desrespeitadores de todas as identidades.

Eu tenho a minha causa a associar a essas vozes.

Pois bem. Cá vai.

Nasci rapaz, mas – vejo, agora, de forma opressora – passaram o tempo a dizer que eu era ‘uma criança’ (Como assim? Que desrespeito para com a minha masculinidade designarem-me como 'a' criança. Constato, agora, por mérito do marxismo cultural, que tal me terá traumatizado, sem que de tal tomara consciência até hoje...).

Não satisfeitos, cresci e passei da infância (eu era um rapaz!) à adolescência (confusão total!) e, desta, à juventude (Irra! Tanto feminino para dizer a vida de ‘um’ rapaz já é abuso!).

E, como se não bastasse, elogiavam-me o que recebiam de mim: a minha voz!

Certamente, nesse desajuste de identidades, procurei refúgio no interior. E o que encontrava, dentro de mim?

Uma alma!

Uma alma? Mas, eu era um rapaz!

Cresci…

Esperei (tomo agora consciência disso, graças ao marxismo cultural que me veio libertar desta opressão de que eu nunca tivera consciência…) pelo avançar da idade (mais uma vez… ‘A’ Idade!) e no que me tornei?

Numa pessoa adulta!

- Bolas! Mas quando é que eu sou quem sou, se afinal a linguagem só me diz no feminino?

E se me dizem que eu sou ‘um homem’, logo me atalham que isso é ‘a minha identidade’…

(Não me livro da opressão feminina que se me impõe…)

A minha descoberta desta dimensão opressora da linguagem que devo ao marxismo cultural gera, porém, uma perplexidade que não consigo superar.

Estranho porque não se entusiasmam os rapazes com ‘a escola’ (talvez por esta ser de provecta idade…). Mas sempre poderiam apaixonar-se pelas ‘disciplinas’, pelas ‘cadeiras’ e, então, se as tratarem pelo nome, o entusiasmo redundará em paixão: ‘a’ Matemática, ‘a’ literatura, ‘as’ ciências (que promiscuidade!), ‘a’ geografia…

Bem, a causa de tal perplexidade ainda está o marxismo cultural por perceber, mas lá chegará a hora em que vislumbrará que libertação nos merecerá nova batalha…

Ah, que felicidade ter descoberto este marxismo cultural que me permitiu descobrir quem sou e que, teimosamente, a linguagem oprimia em redes de escravaturas de liames ocultos!

Ou será sufoco o que me toma a voz que oculta a identidade marcada pela idade de pessoa nascida de uma criança feliz?...

 


segunda-feira, maio 15, 2023

A síndroma do ultrapassado e a religião como antídoto contra os fundamentalismos

Onde há medo, não há liberdade.

Com este pressuposto, tenhamos em conta que nos apavora sermos ultrapassados pela última onda de novidade. Como poderemos sobreviver ao facto de não nos vermos a ‘surfar’ a última onda de mudanças? Vivemos como que oprimidos e amarrados a uma síndroma que nos impede de decidir com tranquilidade: a síndroma do ultrapassado.

Não é de hoje (enraíza-se nos já longínquos tiques setecentistas e oitocentistas do tempo dos estrangeirados em que temíamos que nos escapasse o lugar singular na história…), mas a volatilidade dos tempos, a voracidade das mudanças e a universalização do ‘clique que muda a história’ na ponta da espada digital, tornaram esta síndroma particularmente incapacitante.

Vislumbro nesta vertigem sedutora uma manifestação de um novo absolutismo de tipo ‘crónico’ (de ‘crónos’ - ‘tempo’), constatação que me leva a recuperar uma ideia que tem germinado em mim, desde há muito, e que passo a explicar.

Contrariando uma difundida tese de que o fundamentalismo tem origem religiosa (defendo que os fundamentalismos nascem do medo e de um desejo de poder que é anterior à própria religião, o qual a instrumentaliza), sustento que o verdadeiro ‘antídoto’ contra o ‘veneno’ das verdades absolutas, na história, está, precisamente, nas religiões e que, sem elas, ficaríamos privados das únicas que podem superar, sem cair no relativismo, os perigos de todos os absolutismos.

Explico-me melhor…

A absolutização das verdades, na História, pressupõe que a alternativa a esta absolutização seja o relativismo; do mesmo modo mas em sentido contrário, os relativistas parecem pressupor que são a única alternativa possível à ideia de verdades absolutas e inamovíveis.

Uma e outra convicção são insuficientes e esquecem a alternativa em que as religiões não panteístas são a resposta abstratamente a considerar.

Para entendermos o alcance desta afirmação, tenhamos em conta que as religiões não panteístas (as que distinguem Deus do mundo, não fundindo uma e outra realidade) pressupõem, de forma implícita (mas também explícita), duas condições fundamentais para se problematizar a questão da verdade: que o Absoluto está para além da história e que esta (a História) está em tensão para esse absoluto.

Estas duas condições, reunidas e mantidas unidas, constituem o quadro para a terceira via entre o absolutismo e o relativismo gnosiológico e epistémico.

Por um lado, ao pressuporem que o Absoluto está para além da História, as religiões sublinham que a ninguém deve caber a veleidade de entrincheirar a verdade e impô-la aos outros como sendo definitiva e sem desenvolvimento (mesmo no caso dos dogmas católicos esta consciência está presente, ao falar, na senda do que preconizou o cardeal John Newman [1801-1890], da história do desenvolvimento dos dogmas[1]). Wolfhart Pannenberg [1928-2014], considerado ‘o mais católico dos teólogos protestantes’ sublinhou esta ideia da ‘conquista’ sempre heurística e nunca definitiva da verdade ao afirmar o carácter proléptico da realidade, na qual se antecipa o ‘definitivo’ da História em acontecimentos densamente simbólicos, nos quais se densifica a tensão para o definitivo, no relativo da finitude histórica. Em eventos particularmente teofânicos, antecipa-se o sentido definitivo da história, mas esses momentos prolépticos escapam ao ‘aprisionamento’ no finito. A prolepticidade não é pretexto para uma ideia de ‘absoluto’ conquistado, mas antes sublinha a tensão entre o relativo e o absoluto, evidenciando que o que é particularmente simbólico, na história, deve a sua natureza, não à possibilidade de se absolutizar o agora, mas à abertura do agora e do finito ao infinito, para o qual tende. O absoluto nunca é conquistado e ‘aprisionado’, mas deixa-se vislumbrar, prolepticamente, no finito[2].

Esta condição da realidade faz dela, no dizer de Leonardo Boff[3], transparente: nela ‘transparece’ o transcendente, que não se confunde com ela. O relativo permanece relativo; o absoluto permanece absoluto, mas aquele tende para este.

É esta tensão que se perde numa visão absolutista ou numa visão relativista. Na primeira, a tensão perde-se por fundir no absoluto o relativo; na segunda, por se perder a noção de se encaminhar para o absoluto.

Só as religiões não panteístas podem assegurar essa tensão. Consciência que, bem certo, em muitos momentos da história, elas próprias esqueceram, mas que, como bem recorda Nicolai Berdiaiev no seu ‘contra a indignidade dos cristãos’[4], está nas próprias religiões (em particular, no cristianismo) o antídoto contra os seus próprios limites.

Como pertinentemente observa o não crente Alain de Botton, no seu ‘religião para ateus’[5], jamais a humanidade conseguiu elevar as diversas dimensões e áreas do saber humano para além do que foi conseguido pelas religiões. Contrariamente, porém, a Alain de Botton, não acho que seja por uma insuficiência do saber secular e profano, mas por mérito da religião.

Saberão as religiões permanecer fiéis à sua natureza, nestes tempos radicalizados e extremados entre absolutismos e relativismos?



[1] Cardeal Newman, Apologia, S/L, Verbo, 1974.

[2] Cfr. estas e outras ideias sobre o pensamento de Pannenberg em Luís Manuel Pereira da Silva, Teologia, ciência e verdade. Fundamentos para uma definição do estatuto científico da teologia segundo W. Pannenberg, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2004.

[3] Cfr. Leonardo Boff, Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos, Petrópolis, Vozes, 1993.

[4] Nicolái Berdiáiev, Contra la indignidad de los cristianos. Por un cristianismo de creación y libertad, Salamanca, Ediciones Sígueme, 2019.

[5] Alain de Botton, Religião para ateus. Um guia para não crentes sobre as utilizações da religião, Alfragide, Publicações Dom Quixote, 2012.

quarta-feira, maio 10, 2023

Um diálogo em condições...

 

Os nossos tempos têm medo… Medo de tudo, mas, particularmente, do outro, do diferente de si próprio. Temos medo daquele que vem de outro lugar, do que pensa de outro modo, do que crê de forma diferente… Por paradoxal que pareça, porém, muitos tomariam estas primeiras afirmações como defesa de um pronto acolhimento das agendas ditas ‘da diferença’. Há, contudo, que reconhecer que uma das maiores promotoras deste medo do outro, do diferente, é, entre outras, precisamente, a ideologia de género (e outras agendas agregadas) que promove um individualismo que fecha cada um em si mesmo, como que revisitando a régua de Protágoras e dando-lhe um novo sujeito: ‘o indivíduo é a medida de todas as coisas’…

Impõe-se, por isso, superar os medos, superar os individualismos enclausurantes, e partir em direção ao outro, ao tu, diante de quem nos definimos como ‘eu’.

A etimologia da palavra ‘diálogo’ ajuda a perceber o alcance desta minha última afirmação.

Uma etimologia fina do que nos diz a palavra ‘diálogo’ permite-nos concluir que ela afirma que a ‘palavra percorre um caminho que vai de um a outro sujeito’. Poderíamos traduzir a palavra ‘diálogo’ como ‘a palavra ao longo de, através de’, como que afirmando que existe uma ‘tensão’ natural, fundamental, que é condição para que a palavra se sinta atraída a sair de um e dirigir-se a outro.

À luz desta etimologia, percebe-se que, para haver diálogo, é necessário assegurar duas condições. Condições que, quando inexistentes, criam o cenário em que se representam os extremismos de direita ou de esquerda.

São essas condições as seguintes:

- Por um lado, diferença;

- Por outro lado, abertura.

Os tempos em que vivemos, radicalizados, polarizados, esquecem uma ou outra condição.

Ora afirmam que, em nome do ‘diálogo’ se fundam as identidades, se omitam as identidades, se neutralizem as identidades, como se tal assegurasse as boas condições para o diálogo. Nada mais errado. A ocultação das identidades impede o diálogo, funde as vozes num monólogo, redundando, por fim, na gritaria dos que elevam mais alto a voz.

Contra esta visão, deve afirmar-se a importância das identidades, da história, da memória, na linha, aliás, do que sustenta a nossa Constituição, quando se refere à natureza da relação entre Estado e Igrejas, e onde se evita uma ideia de laicidade compreendida como silenciamento das religiões ou neutralidade opaca do Estado. A nossa Constituição, ao evitar os termos ‘laico’ e ‘laicidade’ para definir a relação da III República com as religiões, foi sábia, pois compreendeu as lições da História e definiu que a República se relaciona com as religiões como parceiras e como cooperantes na construção da sociedade. A nossa Constituição defende a separação entre Estado e Igrejas, não em nome de uma indiferença e fusão de identidades (neutralizando-as), mas sim em nome da liberdade e identidade religiosa. Evita, com sabedoria, os erros da Constituição francesa que utiliza o termo ‘laica’, criando um problema com as religiões que, felizmente, Portugal não tem.

É esta sabedoria que deveria ter-se sempre que a matéria é diálogo e encontro de culturas. O diálogo não supõe, a esta luz, uma fusão, uma neutralidade das identidades, mas, antes, supõe-nas. Sem identidades, a palavra não percorre um caminho; antes, pára, estagna, não circula…

Este é o risco dos radicalismos de esquerda.

A outra condição é a abertura. Abertura que tem a consciência de que ninguém nasce de si, ninguém se gera a si mesmo, ninguém pode constituir-se como ‘eu’ sem ser diante de um ‘tu’.

O medo do outro, enclausurado numa máscara que faz dele sempre alguém sem virtudes, aprisiona e contradiz o axioma de que sem os outros nunca teríamos consciência de nós mesmos. É diante do outro que nos definimos e não sem o outro. O outro não deveria, por isso, suscitar-nos medo, mas gratidão. O outro é como que a nossa condição de possibilidade, pois, como tenho vindo a afirmar, repetidamente, a nossa liberdade não termina onde começa a do outro (como defendeu Herbert Spencer, preconizador do liberalismo clássico), como se o outro nos limitasse, nos oprimisse e fosse o impedimento para o nosso desenvolvimento, mas antes, a nossa liberdade só é efetiva se crescer com a do outro, se promover a do outro e só germina com a do outro.

O esquecimento disto é o erro dos extremismos de direita.

Radicalismos de esquerda, que fundem as identidades e as neutralizam, ou de direita, que isolam e fecham em si mesmos, esquecem uma das duas condições, absolutizando apenas uma delas.

Ao afirmarem essa condição, que pretendem proteger, parecem seduzir e atrair, mas é sempre bom lembrar aos que, entre os católicos, se identificam com o radicalismo de esquerda ou com o radicalismo de direita que o segredo da catolicidade está em não tomar apenas uma parte, como tantas vezes fizeram as ‘heresias’ (‘heresia’ quer, precisamente, dizer ‘escolha’, ‘opção’, ‘parte’). A verdadeira sabedoria católica está em não ficar com uma parte: é preciso tomar o todo.

E assim haverá um diálogo em condições… Todas!

terça-feira, abril 11, 2023

Regresso a Ítaca no sonho do Éden | A Graça ou o destino?

 Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)

Prossigamos a nossa viagem…

Regresso a Ítaca. O sonho está no Éden.

Este já longo percurso tem-nos levado a refletir sobre duas fontes estruturantes da nossa cultura ocidental: a cultura clássica, principalmente a grega, e a matriz cristã. Neste caminho, temos encontrado pontos de convergência e distinção.

Hoje, o nosso olhar deter-se-á numa das que considero ser uma das maiores dívidas do mundo ao cristianismo: a liberdade!

Para muitos, soará a paradoxal esta enunciação, pois um muito consolidado preconceito tem vincado a ideia de que liberdade e cristianismo são termos que não conjugam. 

Mas é difícil estar mais longe da verdade do que quando se defende esta preconceituosa ideia.

Na verdade, o olhar atento e honesto sobre o que nos legou e continua a legar o cristianismo não pode senão levar-nos a concluir que a liberdade é conquista definitivamente proporcionada pelo cristianismo. E percebamos, então, porquê.

Já em anteriores etapas da nossa reflexão recordei que as histórias de Édipo, de Antígona, de Cassandra, de Sísifo, etc., são marcadas por uma dimensão trágica resultante de uma visão que faz depender estas personagens de um destino que ninguém consegue contrariar.

Somo a estas constatações a ideia de que os gregos tinham a convicção de que o poder das moiras, as deusas do destino, chegava a ser superior aos próprios deuses, tudo submetendo sem apelo nem agravo. 

A visão cristã, que, infelizmente, tantas vezes, continua impura mesmo entre os cristãos, fruto de forte ambiência cultural envolvente, apresenta uma perspetiva diametralmente oposta. 

A ideia que concentra esta nova visão sobre o mundo e sobre o homem e a sua história, condensa-se na ideia de Graça. Graça deverá ser – como tantas vezes tenho recordado aos meus alunos – não tanto como um ‘substantivo’, mas como um adjetivo que qualifica a ação de Deus para com a Sua criação. Graça define essa ação como sendo ‘gratuita’, generosa, entregue sem ser devida. Puramente dada e, por isso, também puramente e gratuitamente recebida.

Recordo, para ilustrar o alcance desta visão especificamente cristã, o que afirmava, há uns anos, o vocalista dos U2, Bono Vox, um conhecido cristão de confissão católica que reflete na sua vida e arte esta perspetiva. Diz Bono Vox numa série de entrevistas de Michka  Assayas, editadas pela editora Ulisseia, em 2005: “Repara [que] no centro de todas as religiões há a ideia de Karma. Vê bem, aquilo que fazes volta para ti: olho por olho, dente por dente, ou, na física – nas leis físicas – a cada ação equivale uma igual ou oposta. É claro para mim que o karma está no centro do Universo. Tenho a certeza absoluta. E ainda assim, aparece igualmente este conceito de Graça para dar a volta a tudo isto. «Como colhes, assim terás de semear». A Graça desafia a razão e a lógica. O amor interrompe, se quiseres, as consequências das tuas ações, o que no meu caso é, na verdade, muito bom, porque eu fiz muitas coisas estúpidas.” (p. 227)

Ontem, como hoje, o grande combate do cristianismo é em relação à tentação de tudo reduzir a um destino inexorável perante o qual nada há a fazer. Veja-se como a ele sucumbem todos os determinismos (os que dizem que tínhamos de ser assim porque o determina a genética, ou o ambiente, ou a cultura, ou as pulsões ou… ou…). E onde fica a liberdade?

Só a Graça a pode garantir.

Apresentar-se Deus, ao mundo, através do Cristianismo, como Amor (não apenas como Aquele que ‘tem’ amor, mas como Aquele que ‘é’ Amor) é a sua grande novidade e, também, uma das maiores dívidas que o mundo deve reconhecer nunca ter devidamente saldado. 

É curioso constatar como a tentação de regressar à escravidão (à ditadura do destino), pela via da manipulação do futuro (pelas necromancias, quiromancias, magias, astrologias ou outras técnicas), é sedutora e regressa, vez após vez, como se as moiras recebessem renovados convites dos humanos para habitarem na sua casa e desde a primeira hora a estes convites esteve atento o cristianismo. 

É que o mundo não é, para a religião cristã, mero cenário onde se representa história previamente traçada e a cumprir: é o real lugar do encontro das liberdades – as humanas e a divina. 

Liberdades, sim, e não enredos já definidos e traçados. 



quinta-feira, março 23, 2023

Caminhada da luz - JMJ Salreu | 21 de março de 2023 | Reflexões

 

Caminho com os símbolos da JMJ 2023

 (Reflexões escritas para a caminhada da luz, realizada na paróquia de Salreu, Estarreja, a pedido de um bom amigo.)

 

Primeira etapa da caminhada – Capela

Um símbolo reúne e agrega

 

Estamos a iniciar um caminho com os símbolos da JMJ.

Caminho… Símbolo… Jornadas Mundiais da Juventude…

Caminhamos não como quem erra, sem rumo, mas com um norte no horizonte. Esse norte expressa-se no poder dos símbolos.

Um símbolo é sempre algo que agrega, reúne, junta o que anda disperso. Em torno destes símbolos, quantas histórias, quantas esperanças, quantas lágrimas e alegrias!... Nisso está a sua força simbólica. São mais do que objetos: são sinais de vida!

As Jornadas Mundiais da Juventude são um encontro, uma reunião, um ponto de confluência, mas também um momento de partida, marcada pela renovação interior que se faz de uma alegria que se expressa no exterior.

E estas Jornadas são marcadas por um lema que vincula e projeta, recolhida do evangelista Lucas, o evangelista da misericórdia: «Maria levantou-se e partiu apressadamente»

Maria tem, agora, o nome de cada um de nós.

José, Miguel, Francisca, Marta, Joaquim… O nome de cada um de nós antecede esta mensagem: ‘Eu’ levantei-me e parti apressadamente.’

Não já como um eu solitário, mas como um ‘nós’.

Nós levantámo-nos e partimos, apressadamente.

Levantemo-nos…

Partamos…

Há pressa no ar!

 

 

Segunda etapa da caminhada –

 

Maria levantou-se…

Levantar-se é atitude nobre, digna, de quem não se acomoda.

Levantar-se significa não se aquietar e sossegar, diante dos desafios e das interpelações. Maria deixou-se incomodar.

Os nossos tempos estão marcados por tanta indiferença, insensibilidade, acomodação. Pedem-nos que nos levantemos, tomemos em mãos os sinais densos da esperança e os levemos diante de uma humanidade tantas vezes voltada para o chão, curvada e sem esperança.

Maria é modelo de uma mulher real, concreta, que, mesmo na sua fragilidade de grávida, não se centra em si, mas transcende os limites com que se confronta.

Levanta-se, impelida por uma força que a faz desassossegar-se. A força que, como um vento que agita, se faz fogo ardente no seu coração, desafiando-a a ir mais longe. É por isso que não apenas se levanta. Ela levanta-se e parte…

 

 

Terceira etapa da caminhada –

 

Maria partiu…

Não como quem anda sem rumo, mas certa de que alguém a esperava. Maria não parte para lugar nenhum. Parte para a montanha, esse lugar onde Deus tantas vezes escolheu revelar-se. O lugar que é, nesta hora, o sinal da fragilidade que precisa de cuidado, pois é o lugar onde está Isabel, a sua prima, que precisa de ajuda, por estar, também ela, grávida e em fim de tempo. Partir porque se está em fim de tempo. Maria parte porque sabe que o tempo é escasso e todo o cuidado é necessário e pouco. Maria parte porque não basta levantar-se, erguer-se de tudo o que prende os pés. É preciso andar, avançar, peregrinar, sair… partir!

E como é poderosa, hoje, a simbologia do peregrinar. O peregrino não anda errante; sabe que tem uma meta, um rumo, um horizonte. E sabe, também, que para poder fazer o caminho, só o essencial é importante.

Ah, como seria urgente redescobrirmos que a vida é uma peregrinação para nos voltarmos a centrar no que é importante, no que é fundamental, no que é essencial.

Tanta futilidade nos prende os pés e nos impede de partir! Tanta ambiguidade nos afasta da verdade! Tanto egoísmo nos centra no ‘eu’, ‘eu’, ‘eu’. Um ‘eu’ que não parte para lado nenhum pois está convencido de ser o ponto de chegada.

Mas Maria parte, pois ela sabe que o sentido da vida está em partirmos em direção aos outros e ao Outro que é Deus. E isso dá-nos a consciência de que partir não pode ficar para amanhã… É uma pressa. Partir deve acontecer apressadamente…

 

Quarta etapa da caminhada –

Maria partiu apressadamente.

A pressa de Maria não é a de um acelera. Um acelera deleita-se com o prazer da velocidade, mas esta não o leva para lado nenhum. Acelera porque quer sentir gozo.

A pressa de Maria não é esta.

A pressa de Maria não é a que vemos nos nossos tempos, em que os nossos encontros são encontrões; em que andamos, acelerados, pelas ruas, como corpos sem alma. A pressa de Maria é a de quem tem o fogo no coração, um fogo que se chama ‘amor’, o amor com que Deus se lhe apresenta, o amor que é um descentrar-se de si e um voltar-se, atento e cuidadoso, para o outro.

A pressa de Maria é a de quem tem muito para ouvir e muito para contar porque tem a alma cheia de amor. A pressa de Maria é a daquela que sabe que a vida é gratidão, porque recebida como dom. E é porque é gratidão que sempre a história cristã lhe deu o nome da ‘cheia de graça’, cheia de dons que a tornam grata, agradecida ao Senhor da vida.

A pressa de Maria é a do encontro entre a eternidade e o tempo. Não a de quem já não tem tempo nenhum, mas a de quem passou a ter todo o tempo do mundo para se dedicar aos outros.

 

Quinta etapa da caminhada –

Com Maria, rumamos às jornadas mundiais da juventude de Lisboa…

O convite está lançado. Todos estaremos em Lisboa, em Agosto de 2023. Uns estaremos de corpo e alma; outros estaremos de coração. Mas Lisboa será o ponto de congregação de todos os que sabem que os tempos que vivemos pedem que nos levantemos, partamos e o façamos sem demora.

Será um levantar-se, partir e apressar-se que renovará a realidade onde vivemos, em cada dia.

É que Maria era uma mulher real, concreta, que realizou este levantar-se, partir e apressar-se na Palestina de há 2000 anos, cuidando e acolhendo ali, na vida real e concreta em que Deus e humanidade se uniram de modo definitivo.

As JMJ são oportunidade única para renovar o coração de cada um e as comunidades que construímos.

Nestes tempos sem tempo para nada, em que tudo parece fútil e descartável, em que a dignidade humana parece ter-se feito lama, num chão de que teima em não erguer-se, o modelo de Maria faz-nos levantar (erguer, de novo, a dignidade que nos habita), partir (e não andar errante, sem meta nem rumo), apressadamente (e não de modo acelerado, mas com a ousadia de quem sabe para onde vai, porque uma Voz do alto chama no coração).

Há pressa no ar… Vê se já a sentes no teu interior ou se ainda dorme o coração que te preenche o peito.

domingo, março 19, 2023

18 de março, o país caminha pela vida | Caminhar por aqueles a quem a vida não corre

(Artigo originalmente publicado na Agência Ecclesia)

Não se faz um seguro para os dias em que tudo corre bem. Esperamos que nos proteja, quando algo (ou, mesmo, tudo) corre mal. De que serviria, afinal, se, na hora em que mais dele precisamos, nos deixasse a suprir, pelas nossas próprias forças, os limites que a ele incumbia proteger?

Este não é um texto de apologia ou elogio a seguradoras ou entidades similares, mas um manifesto de inquietação perante a desblindagem daquele que é o maior seguro de vida e a mais relevante apólice da nossa carteira coletiva: o reconhecimento da inviolabilidade da vida humana.

Sustentar que a vida humana é inviolável de pouco nos servirá se tal significar que só não se lhe pode tocar quando tudo corre bem. Decisivo será permanecer fiel ao princípio quando ‘nem tudo corre’, pois é para essa hora que, afinal, celebrámos, coletivamente, o contrato firmado em apólice com o nome de Constituição.

Com este pressuposto, tenho defendido, desde o referendo de 2007, que, se bem vistas as coisas, após a liberalização do abortamento voluntário até às dez semanas, todos os nascidos posteriormente a essa data são, efetivamente, sobreviventes. Sobreviventes de uma lei que deixou à decisão das vontades individuais a determinação de se uma vida é ou não inviolável.

Sê-lo-emos (continuamos a acreditar que o tempo verbal certo será ‘sê-lo-íamos’), também, se for (fosse) legalizada a eutanásia… Todos os que vierem (viessem) a morrer de morte natural serão (seriam) sobreviventes a uma tal lei.

Não se inverteu, portanto, o paradigma de referência ao deixar de considerar que é perante a vida que devem acomodar-se as vontades (por ela ser inviolável), para se entender, pelo contrário, que é esta que deve acomodar-se às vontades?

É que, com efeito, as vontades são volúveis, variam, mudam, alteram-se, podem desejar e deixar de desejar, enquanto a vida não tem ondulações nem gradações: está ou não está! E é por a sua rejeição ser irreversível que a sua inviolabilidade deve ser – lá está! – mesmo inviolável.

E é especialmente quando a vida é mais frágil, quando a vida não corre, que a sua apólice de seguro deve ser acionada, para que as vontades não a façam sucumbir à sua força.

A história do reconhecimento da inviolabilidade da vida mostra que o percurso foi lento, de cerca de 2000 anos, mas sustentado. Nas últimas décadas, porém, por um processo que faz lembrar o retrato descrito por George Orwell, no ‘triunfo dos porcos’ e em ‘1984’, em que as verdades da primeira hora vão sendo alteradas e moldadas de modo a já pouco significarem do inicialmente defendido, temos vindo a assistir a um desblindar dessa apólice de seguro de vida. Temos vindo a ser arrastados por um processo de insensibilização paulatina, encaminhando-nos num sentido que não é de progresso, contrariamente ao que pretendem dizer-nos, mas de evidente retrocesso, com a agravante de se pretender acantonar, na trincheira dos radicais, quem ousa dizer que o rei vai nu. Consciente dessa estratégia, o Papa Francisco recordou, logo na exortação apostólica ‘Evangelii Gaudium’ que “muitas vezes, para ridicularizar jocosamente a defesa que a Igreja faz da vida dos nascituros, procura-se apresentar a sua posição como ideológica, obscurantista e conservadora; e no entanto esta defesa da vida nascente está intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano.” (EG 213), acrescentando, mais adiante: “A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações».” (EG 214)

É por isso que o país vem, pouco a pouco, despertando para esta evidência de que a vida é anterior às vontades que a devem, sim, acolher. Despertando deste torpor que a todos pretende insensibilizar, os portugueses têm-se mobilizado, dando respostas, organizando-se, acolhendo, cuidando e, também, caminhando… caminhando por aqueles (e, afinal, por todos nós, algum dia…) a quem a vida não corre.

Neste ano, em 18 de março, dez cidades do país realizarão caminhadas por aqueles (por todos nós…) a quem a vida ‘não corre’, caminhadas pela vida. A sua causa é a mais decisiva de todas; nasce do reconhecimento de que a vida antecede as vontades, pede para ser acolhida, pois se tal não acontece, nada é o que lhe sobra, o futuro acaba ali. A sua é a voz daqueles a quem nunca a concederam ou pretendem vir a tirar. Como não ver isto? Como permanecer-lhe indiferente?

segunda-feira, janeiro 02, 2023

Três ideias que devo a Bento XVI… e mais uma a que chegámos em tempos diferentes!


Tenho, desde há muito, a convicção de que a história guardará marca indelével de Bento XVI, muito para além da que resulta das suas decisões, seja enquanto Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (1981-2005), seja enquanto Papa (2005-2013).

Estou, mesmo, convicto de que a história da Igreja o revisitará, vez após vez, sem esgotar a profundidade e perenidade do seu pensamento e o reconhecerá, enquanto ‘sapientíssimo’, como um dos Mestres para as gerações vindouras, atribuindo-lhe o título de Doutor da Igreja, na companhia de São Tomás, Santo Agostinho, Santo Anselmo, Santa Teresa de Ávila, Santa Catarina de Sena, entre outros que hoje completam esse restrito areópago de encontro entre o tempo e o eterno.

A fecundidade do seu pensamento exige humildade na abordagem que me proponho fazer… Guardar da sua extensa leitura dos sinais dos tempos uma reserva de três ideias preenche, aqui, apenas o objetivo de aliciar os leitores à descoberta do muito que Bento XVI tem para nos dar de entre o seu tesouro intelectual.

Bem certo que aos leitores mais atentos logo ocorrerá a ideia da crítica ao relativismo que perdeu a referência à verdade. Deixo essa linha evidente e vou em busca de outras, menos recordadas.

 

O cristianismo é um advento…

A primeira de entre as ideias que guardo e revisito encontrei num opúsculo editado em 2009, pela Princípia, e que li em março de 2010. Nele, recolhem-se três homilias proferidas por Joseph Ratzinger, entre 13 e 15 de dezembro de 1964, sob o título de ‘Do sentido do ser cristão’. Afirma, ali, que o cristianismo é um advento, ideia que desloca a fé de uma lógica passadista, de uma lógica de divisão do mundo entre bons e maus, projetando-a para diante, sabendo da sua condição de provisoriedade e de estar a caminho. Uma ideia verdadeiramente revolucionária e transformadora…

 

A ‘Razão’ iluminista é a-histórica…

A segunda ideia encontrei-a no livro ‘A Europa de Bento: na crise das culturas’, editado pela Alêtheia, em 2005. Li-o em agosto de 2009, tendo-o anotado com diversos ‘muito interessante’. Assim era a minha leitura das obras deste insigne pensador…

Entre esses ‘muito interessante’, guardei a descoberta de que um dos problemas da modernidade não está na ‘Razão’, pois ela é fonte de iluminação, se sustentada na genuína busca da verdade. O problema está naquilo em que a Razão moderna a transformou: tornou-a ‘a-histórica’, como se o sujeito humano pudesse existir sem ser numa circunstância concreta.

Como é fecunda esta segunda ideia! Nela podemos, por exemplo, descobrir uma das maiores falhas das perspetivas sobre a liberdade que a concebem como se fosse a-histórica, sem ser situada, sem ser a de humanos concretos, como se eles pudessem ser ‘deus’, o que significa e redunda numa negação do próprio ser humano. Como afirma o próprio Bento XVI, ‘a separação radical da filosofia iluminista em relação às suas raízes [históricas] torna-se, em última análise, um prescindir do homem”. Recorda, um pouco adiante, que [em nome de uma razão a-histórica, negadora das raízes históricas, situadas] “no fundo, o homem não tem liberdade nenhuma – dizem os porta-vozes das ciências naturais, em total contradição com o ponto de partida de toda a questão. Ele não deve acreditar que é diferente de todos os outros seres vivos, e portanto deveria ser tratado como eles – dizem-nos até os porta-vozes mais avançados de uma filosofia claramente afastada das raízes da memória histórica da humanidade.” (p. 33)

Não estamos a viver, hoje, as réplicas destas ideias profeticamente denunciadas por Bento XVI?

 

 

O amor é muito mais do que um sentimento…

Por fim, devo-lhe uma terceira ideia: a de que o amor é muito mais do que sentimento…

Para se chegar a esta ideia, é necessário ter arrumada a antropologia, isto é, a visão sobre quem é o ser humano. E Bento XVI tinha uma ideia esclarecida: o ser humano envolve, no seu agir, não apenas as emoções, mas também a vontade e a inteligência, numa unidade indissolúvel de alma-corpo, matéria enfrentada, sem receios nem ambiguidades, na sua ‘introdução ao cristianismo’, que foi reeditada, em português, em 2005, pela Princípia.

A ideia de que o amor é muito mais do que sentimento encontramo-la na sua primeira encíclica, ‘Deus caritas est’, no seu número 17. Ali, afirma que “o reconhecimento do Deus vivo é um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade à dele une intelecto, vontade e sentimento no ato globalizante do amor.” Esta ideia será revisitada uma e outra vez, sendo condição para se perceber o alcance da afirmação de que “sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo.” (Caritas in veritate, 3) Só a meditação, sustentada e disponível, na densidade desta ideia pode evitar os erros de quem, em nome de uma ideia incompleta do amor, se dispõe a traí-lo, supondo, por exemplo, que possa ser ato amoroso o ato de matar. O ato designado como de amor não mais será, aqui, do que expressão de um sentimento não iluminado pela verdade que deveria levar ao respeito integral pelo outro, mas que se basta em descansar as emoções, sem ver o que nelas possa ser desafio de busca da verdade do outro.

Deixar-se tomar pela lonjura e alcance desta ideia permite olhar com uma atitude crítica tantas das decisões que, hoje, diante de nós, são apresentadas como atos de amor, disfarçando, antes, insuficiências do amor ou, mesmo, egoísmos mascarados…

 

Etsi Deus daretur…

Somo a estas três ideias uma quarta.

Neste caso, não se trata de uma dívida, mas de uma feliz coincidência.

Em 2006, escrevi sobre uma hipótese que me ocorrera, por ocasião da leitura de uma análise do pensamento de Dietrich Bonhoeffer. Este teólogo alemão, pertencente à igreja confessante e que morrera às mãos dos nazis, defendera que, nestes tempos, deveríamos viver ‘etsi Deus non daretur’, ‘como se Deus não existisse’.

Pareceu-me ser uma ideia sincera, mas senti que fazia perder a força da fé, diluindo-a em nome de um respeito que não me parecia fazer justiça nem à fé nem aos descrentes.

Na altura, ocorreu-me que poderia ser interessante inverter a afirmação e pensar que seria de propor ao mundo que ousasse refletir e agir ‘etsi Deus daretur’, isto é, que pensasse e agisse ‘como se Deus existisse’. Colocar o desafio sob uma condição serviria a causa da fé e serviria a causa do respeito pelos não crentes. Recolheria o melhor da fé sem impor aos não crentes a própria fé. Deus seria pensada ‘como se’ existisse. Para os crentes, o ‘como se’ seria substituído por ‘porque’, mas, para os não crentes, permaneceria como possibilidade, ‘como se existisse’…

Entusiasmei-me com a hipótese e escrevi sobre ela…

Para meu espanto, encontrei, alguns tempos depois, a mesma ideia em Joseph Ratzinger, sem que eu o tivesse lido. Senti um misto de alegria e de desilusão para comigo por me ver ultrapassado pelo meu desconhecimento. Mas saber-me acompanhado por tão ilustre companhia reconfortou-me… E, principalmente, dá-me a certeza de que a verdade pode, de facto, unir quem se deixa mover e atrair por ela.

Ao Sapientíssimo Papa emérito Bento XVI deixo o pedido de que interceda para que eu seja sempre fiel buscador da verdade, à luz da qual sirva o amor, certo de que não há verdadeira caridade senão a que se realiza na verdade.


quarta-feira, dezembro 14, 2022

Natal | Uma graça de Deus

 Habituámo-nos à ideia de que o que respeita à teologia é da ordem do ‘dever ser’. Aliás, um dos conceitos que a filosofia mais associa à ideia de Deus é a de ‘necessidade’ compreendida como o que ‘é e não pode não ser’.

O Natal tem, perante esta ideia de Deus, uma novidade que nunca se esgota. (Como, aliás, acontece com o que a sabedoria cristã sempre designa como mistério: tocamos nele, mas muito nos escapa, tamanha é a sua densidade.)

E essa novidade designamos como ‘uma graça de Deus’.

Poucas línguas permitem o subentendido que nos reserva este aforismo: ‘uma graça de Deus’.

Prontamente, lemos ‘um dom que Deus nos oferece, sem que o mereçamos’. E é-o, de facto. Mas considerar o Natal ‘uma graça de Deus’ tem, na língua portuguesa, uma outra linha semântica que nos passa, por vezes, despercebida. O Natal é ‘um gracejo de Deus’, uma ‘graça’, como quem nos desconcerta. Um momento de ‘humor’ que nos ilumina um beco sem saída. Tal como o humor, aliás!

Sim, o Natal é também um sinal do ‘humor’ de Deus.

O humor com que tantas vezes se nos propõe que enfrentemos a realidade dura e sombria. O humor com que, perante a teimosia de Jonas, Deus transforma o mar num cenário de uma comédia de ‘escapo e apanhas-me!’. O humor daquela anedota judaica que me chegou pela mão de Tomas Halík, no seu mais recente ‘a tarde do cristianismo’.

“[…] uma mulher reclama por Deus durante anos não ter respondido às suas petições para ganhar a lotaria. Diz-lhe o rabino: «Mas Deus já te respondeu! A Sua resposta foi ‘não’.” (T. Halík, A Tarde do cristianismo, Paulinas Editora, p. 249). Deus quer que aceitemos o seu Humor, mas nós temos mau humor e só queremos que Ele faça como exigimos…

Não procuro, aqui, fazer um jogo fácil de palavras, concluindo que Deus seja, não apenas, Amor, mas também Humor.

Sê-lo-á, certamente, não porque deva reduzir-se o mundo a uma grande anedota, mas guardando, antes, do humor o que ele tem de mais essencial e crucial: o humor é sempre o desconcertante, o que desperta a alegria, o que faz disponibilizar, para o inesperado, o coração empedernido.

O humor com que Deus desbrava a escuridão da noite do mundo, para se fazer nascer, frágil e despojado, numa manjedoura, não é apenas um ‘é assim porque tinha de ser’. É, antes, uma surpresa, uma desbragada gargalhada perante os fortes do tempo e do mundo, convencidos de que tudo teria de permanecer como sempre fora até então.

O Natal de Belém, o verdadeiro Natal, é um acontecer da surpresa, porque o que é ‘graça’ é ‘de graça’. Pois, como dirá, pouco mais tarde, S. Paulo, ‘onde abundou o pecado superabundou a graça’. Deus dá gratuitamente… e sorri, porque sabe que as sombras e o abismo não vencerão.

O humor do Natal é, por provir de Deus que é Criador, uma afirmação da condição do mundo criado. O dinamismo do mundo faz-se do gerar coisas novas onde há surpresa. O novo emerge como um momento de humor, de desconcerto.

Veja-se o eclodir da vida. Cada novo rebento é um sinal de júbilo, um desconcerto de vitória sobre a morte.

Na linha de um grande pensador e teólogo do século XX, Teilhard de Chardin, poderíamos afirmar que toda a evolução, que se encaminha para a Cristogénese, só é possível se houver este acontecer de momentos de novo, de desconcerto que surpreende e em que a novidade pode eclodir. Até a física contemporânea evidencia, com as teorias do caos, - que, na aparência se afiguravam a negação do lugar do transcendente, - abre caminho a um outro olhar sobre a realidade que é, afinal, um estado de permanente milagre.

O mundo espanta… O mundo surpreende… O mundo desconcerta… E emerge o novo!

A criatura participa da realidade de Deus que é novidade constante e que, no tempo, e num tempo concreto, desconcertou, rebaixando-se à condição da criatura para lhe revelar Quem era e quem ela própria era, afinal.

E será fácil, então, percebermos que Deus também seja humor porque o Amor que Ele é (não apenas ‘tem’) gera sempre coisas novas, porque o amor é fecundo em si mesmo.

O emergir de coisas novas é ‘graça’ que faz inundar de riso o mundo e o tempo.

E o mal, a escuridão e o abismo já não terão a última palavra nem voz.

Porque Alguém, antes de todos os outros, ‘achou graça’ e deixou-se encher da Graça!

sábado, novembro 19, 2022

A defesa da vida humana | O que ouve quem nos ouve?

Imagine-se a seguinte afirmação: ‘os que legalizaram o aborto até às dez semanas queriam era levar à prisão todas as mulheres que o praticam fora desse prazo’. Ou a seguinte: ‘quem defende o fim da pena de morte quer é ver na rua todos os que praticam crimes’. Ou, ainda, esta: ‘quem defende que deve haver faltas nas escolas quer chumbar todos os alunos que faltam’. 

São frases absurdas?

Pois bem. São-no tanto como a que diz que quem é contra a legalização do aborto quer ver na prisão as mulheres que o praticam.

Mas o que é certo é que esta última tem feito caminho, tem sido repetida até à náusea, com consequências muito nefastas. Basta que se pense que, com ela, muito se tem contribuído para ridicularizar a ação dos que defendem que o aborto é um erro. Tal ridicularização tem feito com que só os mais corajosos continuem a ousar dizer, publicamente, quão errada é esta prática, ainda que sabendo que a ousadia de o dizerem os cobrirá de vergonha e com um manto de suspeita de que serão radicais, fundamentalistas e incompassivos. Sublinhe-se que a lei tem uma função pedagógica. Ao relativizar uma prática que é ofensiva da dignidade e violenta, está a transmitir uma mensagem à sociedade: a de que é uma prática tolerável. É isto que está em causa na legalização do aborto: legalizar diz que é aceitável. 

É por isto que não posso concordar com o que li, há dias, no mais recente livro de Tomas Halík, um autor que sigo e cujos méritos permanecem intocáveis, apesar da crítica que me valem as suas palavras sobre os movimentos de defesa da vida. 

Diz Halík: ‘Também eu tenho um respeito sagrado pela vida do nascituro, mas não posso participar nas marchas daqueles que se fixaram obsessivamente nesse assunto e transformaram o Cristianismo numa cruzada militante para criminalizar o aborto e proibir a contraceção. Fizeram dessa agenda o principal – e muitas vezes o único – critério para aferir o grau de «Cristianismo» dos políticos e o seu sentido de voto nas eleições, tornando-se presa barata para astutos demagogos.’ (T. Halík, A tarde do cristianismo, Ed. Paulinas, p. 114)

Não posso concordar porque não tenho o direito a julgar os motivos que levam os participantes nestas marchas que Halík aqui ridiculariza. Já participei e organizei muitas dessas marchas e encontrei múltiplas razões entre os participantes. Alguns, inclusive, porque tinham vivido, de perto, a dor da perda, por aborto espontâneo, de um filho, e sabiam o que tal significava de perda de esperança e futuro. 

Mais, ainda… É uma ‘obsessão’ como tantas outras em que participei. Também participei e organizei iniciativas contra a pena de morte; contra a tortura, contra a eutanásia… OU, melhor. A favor do respeito pela dignidade humana. E isso não me parece uma obsessão, mas um dever. 

Sendo que, a ‘obsessão’ contra a legalização do aborto, da eutanásia, da pena de morte, tem o condão de estar marcada pela urgência. Cada atraso (de um dia, de uma hora, de um minuto…) pode significar a perda efetiva de vidas. Cada atraso na legalização do aborto, num país, pode significar garantir a sobrevivência de milhares de crianças e mães. Sim, de crianças e mães.

É que, em cada aborto, morre uma criança (obviamente!), mas também uma mãe, pois só se é mãe porque se tem um filho. Sobrevive, eventualmente, a mulher (em Portugal, já morreram mulheres na sequência do aborto legal. Sim. Posso demonstrar o que acabo de afirmar!), mas morre a mãe. 

Acho injusto considerar esta ‘obsessão’ um aspeto marginal da fé cristã. Os movimentos de defesa da vida têm feito, nas últimas três décadas, mais pelas mulheres do que os movimentos ditos feministas, que deixam a mulher abandonada numa rede de supostos direitos, mas solitária e cada vez mais deprimida num mundo solipsista. Os movimentos de defesa da vida arregaçaram mangas e criaram respostas. Nenhuma mulher que pede ajuda fica sozinha. Tem, imediatamente, uma rede de ajuda que a apoia e ajuda a salvar-se das situações confusas com que a vida a confronta.

É injusta acusação... 

Tenho encontrado, entre as pessoas dos movimentos de defesa da vida, uma fé viva, feita de amor. Um amor que ama mesmo aquele a quem ainda não vimos o rosto ou o sorriso. Um amor que ama sem condições. Um amor que acolhe, seja bonito ou feio, ‘perfeitinho’ ou marcado pela deficiência.

É tão injusto, Tomas Halík! Mas bem sabemos que tem sido contra esta injustiça com que o mundo nos vem lendo que continuaremos a lutar, porque há pobres entre os pobres, a quem nem o direito a nascer se quer garantir, que merecem que gritemos por eles, para que um dia, possam gritar que alguém por eles gritou, quando ainda não podiam.

Se o abortado for um filho, um de nós, ainda sem nome nem rosto, mas a quem ousamos dar o rosto de um humano, então a causa da defesa dos não nascidos pode ser uma legítima e justa obsessão. Porque amamos todos: a mãe, o filho, o pai (esse ausente a quem a legalização do aborto excluiu) e todos os que seriam afetados pela perda de um deles… Não amamos um contra os outros. Estamos do lado de todos: a mãe, o filho, o pai. Sempre, sempre, sempre. Mesmo quando nos dizem que o fazemos por não ter fé. Mas porque sabemos que, mesmo que a mãe abandone o seu filho, Deus nunca nos abandonará. 

Queremos ser sinal dessa certeza de um amor incondicional, num tempo que parece tudo reduzir a direitos e a lutas de uns contra outros. Estamos do lado de todos!


terça-feira, novembro 01, 2022

Um outro paradigma para e na educação: não, já, dos ‘direitos aos deveres’, mas sim dos ‘deveres aos direitos’

 

Em matérias que dizem respeito ao ser humano, exige-se sempre alguma prudência na adoção de visões que absolutizam uma só causa, uma só linha de análise, uma só… um só…

Na educação, este princípio é, por maioria de razão, dado mexer com o âmbito do ‘fazer-se humano, válido e de atender, sem qualquer ambiguidade.

É habitual assistir-se ao conflito aberto entre quem defende que educar é, principalmente, instruir, transmitir saberes que são adquiridos como algo exterior ao sujeito, opondo-se-lhe uma outra visão em que tudo está já presente no sujeito e só cabe aos educadores favorecerem a ambiência para que emirjam os saberes já previamente existentes no indivíduo.

Uma e outra visão esquecem o carácter dinâmico da existência humana que é, sempre, o resultado do encontro entre natureza e cultura, entre sujeito e objeto, entre nato e inato, etc…

O erro está em entender que a razão humana possa entender-se fora de uma realidade concreta, historicamente situada e culturalmente definida. Sem estes pressupostos, tudo parece desvanecer-se como fumo dissipado por uma rajada mais forte de vento.

Este quase maniqueísmo educacional é notório nas políticas educativas portuguesas que pendem de uma visão objetivista que concebe a educação como transmissão pura e dura de conhecimentos, fazendo tábua rasa das idiossincrasias dos sujeitos, para uma outra, de sinal oposto, em que o sujeito é, à maneira platónica, um sujeito omnisciente que já possui em si os saberes que cabe apenas fazer emergir, em resultado da criação de contextos favoráveis a tal.

O pessimismo antropológico da primeira visão parece viver do otimismo da segunda, excluindo-se mutuamente, num erro em que o verdadeiro perdedor é a educação.

Nada, na educação, é apenas objetivo ou apenas subjetivo. Na educação, como em tudo o que é humano, a subjetividade e a objetividade interpenetram-se e regeneram-se reciprocamente.

Tendo em conta estes pressupostos, orientemos a nossa visão para um vetor em que nos parece particularmente notório este maniqueísmo destrutivo: o que respeita à relação entre direitos e deveres.

 

O movimento pendular dos paradigmas

Um certo paradigma, mais prevalecente em épocas ou regimes de matriz autoritária, colocava o acento da educação no dever. O sujeito era sumido na consciência coletiva, parecendo inexistente.

Em reação a tal visão, o paradigma substituto veio centrar a educação na consciência dos direitos, pressupondo que um sujeito consciente dos seus direitos é alguém que, mais cedo ou mais tarde, vem a reconhecer ter deveres.

Esta visão, constituída em paradigma maioritário nas sociedades ocidentais do bem-estar, parece-nos assentar numa visão fundamentalmente individualista do sujeito humano.

Se virmos com atenção, partir dos direitos, sem mais, e contar com uma espontânea emergência da consciência do dever, tem muito de otimista e pouco realista.

Um sujeito que vai sentindo que os seus direitos se vão somando, dificilmente sairá desta espiral de conquistas para assumir – a que título? – uma consciência do dever.

 

 

Um outro paradigma: dos ‘deveres aos direitos’

No nosso entendimento, seria importante problematizar um terceiro paradigma, um paradigma de equilíbrio.

Já não um paradigma que sumisse o sujeito numa consciência coletiva, nem, por oposição (na linha do paradigma vigente), um paradigma que partisse dos direitos para vir a fazer emergir o sentido do dever, mas sim um outro em que o sujeito se encaminha para os direitos a partir dos deveres.

Repare-se como este aparente jogo de palavras (não já ‘partir dos direitos para chegar à consciência dos deveres’, mas sim ‘partir dos deveres para chegar à consciência dos direitos’) encerra em si visões muitos distintas. Por um lado, como acima dizíamos, no paradigma que parte dos direitos para chegar aos deveres, está implícita uma visão fundamentalmente individualista. O centro é cada um; não a sua relação com os demais.

No paradigma que estamos a propor, pelo contrário, o sujeito centra-se no outro, para com quem reconhece ter deveres e, a partir desse reconhecimento, constata que também os demais têm deveres que dimanam dos direitos que ele descobre em si mesmo. O regresso a si é feito no encontro com o outro. Aliás, este entendimento vem na linha do que vimos defendendo, desde há muito, ao afirmar que o verdadeiro erro de Descartes não é ele ter-se esquecido das emoções e dos sentimentos, mas sim em ter-nos convencido de que o primeiro facto de que temos consciência seja de que pensamos, de que o ‘eu’ existe. Pelo contrário, o que nos evidencia a realidade é que o primeiro sujeito de que temos consciência é da nossa mãe, é do outro, do ‘tu’, diante do qual nos constituímos como ‘eu’.

Na educação escolar, esta mudança de paradigma seria uma autêntica revolução suave ou, para evocar a ocorrida na antiga Checoslováquia, uma revolução ‘de veludo’.

 

Os sinais que exigem a mudança paradigmática

Na realidade, vale a pena perguntarmo-nos que trabalho educativo temos vindo a fazer quando, chegada a hora de assumirmos deveres, os sinais são de que recuamos e não o fazemos. Vejam-se a título ilustrativo, as notícias de que os concursos para funções militares, policiais, etc. ficam com muitas vagas por preencher, num país em que continuam elevadas as taxas de desemprego. Ou vejam-se os números muito preocupantes das taxas de nupcialidade, ou as baixíssimas taxas de natalidade. Bem certo que, para cada um destes indicadores, há que procurar muitos fatores (cada realidade tem, certamente, os seus, muito específicos), mas, globalmente, evidenciam uma crise de compromisso, uma crise do sentido do dever. Os filhos, a título ilustrativo, são fonte de realização pessoal, bem certo, mas também são um dever para com as gerações futuras e para com a comunidade. (Espero que esta afirmação seja devidamente entendida pelos leitores… Não pretendo dizer que geramos por obrigação, mas há, certamente, algum sentido de dever que acompanha o acolhimento de um filho que, por exemplo, nasceu sem ‘agendamento prévio’ ou com alguma fragilidade especial ou, mesmo, porque todo o filho comporta reajustamento da vida. Nunca mais se fica igual…)

Pode contribuir para esta progressiva mudança de paradigma a tomada de consciência de quanto investe toda a comunidade (compreendida como ‘Estado’), em cada ano, para que cada aluno possa frequentar, gratuitamente, o ensino público. Em 13 de setembro de 2021, o então ministro da educação recordava que cada aluno custa, por ano, ao erário público, 6200 euros (Ver jornal Público[1]). Se, em vez de pensarmos o Estado como uma entidade abstrata que não é ‘ninguém’, o tomássemos como um ‘tio rico’ que decidiu investir na nossa educação, como lhe estaríamos, certamente, gratos pelo que fez por nós! Sendo o Estado a organização da comunidade dos portugueses, será importante que cada aluno, cada família, reconheça o enorme dever que comporta beneficiar da ajuda de todos para que possa abrir, de par em par, o futuro, que é, afinal, a missão da educação escolar.

Propomos, por isso, um novo paradigma: não o que está assente na ideia de dever entendido como fim fechado em si mesmo; não, também, um paradigma que parte dos direitos para vir a chegar (quando?) à consciência dos deveres. Antes, um paradigma em que se parte dos deveres para se chegar à consciência dos direitos. Um tal paradigma centra-se na consciência de que, enquanto pessoas, somos seres em relação, cuja consciência de si mesmo depende dos outros e é devedora da missão que eles têm de fazer emergir em nós a consciência própria.

São muito oportunas, neste contexto, as palavras dirigidas ao povo americano por John F. Kennedy, em 20 de janeiro de 1961, no discurso de tomada de posse após ter sido eleito presidente dos Estados Unidos:

‘Não perguntem o que pode o vosso país fazer por vós. Perguntem, antes, o que podem fazer pelo vosso país.’ (In Simon, Sebag Montefiore, Discursos que mudaram o mundo, Lisboa, Difel, 2006, p. 221)

 



[1] https://www.publico.pt/2021/09/13/sociedade/noticia/aluno-custa-6200-euros-ano-aumento-30-desde-2015-ministro-1977237

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...