terça-feira, abril 11, 2023

Regresso a Ítaca no sonho do Éden | A Graça ou o destino?

 Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)

Prossigamos a nossa viagem…

Regresso a Ítaca. O sonho está no Éden.

Este já longo percurso tem-nos levado a refletir sobre duas fontes estruturantes da nossa cultura ocidental: a cultura clássica, principalmente a grega, e a matriz cristã. Neste caminho, temos encontrado pontos de convergência e distinção.

Hoje, o nosso olhar deter-se-á numa das que considero ser uma das maiores dívidas do mundo ao cristianismo: a liberdade!

Para muitos, soará a paradoxal esta enunciação, pois um muito consolidado preconceito tem vincado a ideia de que liberdade e cristianismo são termos que não conjugam. 

Mas é difícil estar mais longe da verdade do que quando se defende esta preconceituosa ideia.

Na verdade, o olhar atento e honesto sobre o que nos legou e continua a legar o cristianismo não pode senão levar-nos a concluir que a liberdade é conquista definitivamente proporcionada pelo cristianismo. E percebamos, então, porquê.

Já em anteriores etapas da nossa reflexão recordei que as histórias de Édipo, de Antígona, de Cassandra, de Sísifo, etc., são marcadas por uma dimensão trágica resultante de uma visão que faz depender estas personagens de um destino que ninguém consegue contrariar.

Somo a estas constatações a ideia de que os gregos tinham a convicção de que o poder das moiras, as deusas do destino, chegava a ser superior aos próprios deuses, tudo submetendo sem apelo nem agravo. 

A visão cristã, que, infelizmente, tantas vezes, continua impura mesmo entre os cristãos, fruto de forte ambiência cultural envolvente, apresenta uma perspetiva diametralmente oposta. 

A ideia que concentra esta nova visão sobre o mundo e sobre o homem e a sua história, condensa-se na ideia de Graça. Graça deverá ser – como tantas vezes tenho recordado aos meus alunos – não tanto como um ‘substantivo’, mas como um adjetivo que qualifica a ação de Deus para com a Sua criação. Graça define essa ação como sendo ‘gratuita’, generosa, entregue sem ser devida. Puramente dada e, por isso, também puramente e gratuitamente recebida.

Recordo, para ilustrar o alcance desta visão especificamente cristã, o que afirmava, há uns anos, o vocalista dos U2, Bono Vox, um conhecido cristão de confissão católica que reflete na sua vida e arte esta perspetiva. Diz Bono Vox numa série de entrevistas de Michka  Assayas, editadas pela editora Ulisseia, em 2005: “Repara [que] no centro de todas as religiões há a ideia de Karma. Vê bem, aquilo que fazes volta para ti: olho por olho, dente por dente, ou, na física – nas leis físicas – a cada ação equivale uma igual ou oposta. É claro para mim que o karma está no centro do Universo. Tenho a certeza absoluta. E ainda assim, aparece igualmente este conceito de Graça para dar a volta a tudo isto. «Como colhes, assim terás de semear». A Graça desafia a razão e a lógica. O amor interrompe, se quiseres, as consequências das tuas ações, o que no meu caso é, na verdade, muito bom, porque eu fiz muitas coisas estúpidas.” (p. 227)

Ontem, como hoje, o grande combate do cristianismo é em relação à tentação de tudo reduzir a um destino inexorável perante o qual nada há a fazer. Veja-se como a ele sucumbem todos os determinismos (os que dizem que tínhamos de ser assim porque o determina a genética, ou o ambiente, ou a cultura, ou as pulsões ou… ou…). E onde fica a liberdade?

Só a Graça a pode garantir.

Apresentar-se Deus, ao mundo, através do Cristianismo, como Amor (não apenas como Aquele que ‘tem’ amor, mas como Aquele que ‘é’ Amor) é a sua grande novidade e, também, uma das maiores dívidas que o mundo deve reconhecer nunca ter devidamente saldado. 

É curioso constatar como a tentação de regressar à escravidão (à ditadura do destino), pela via da manipulação do futuro (pelas necromancias, quiromancias, magias, astrologias ou outras técnicas), é sedutora e regressa, vez após vez, como se as moiras recebessem renovados convites dos humanos para habitarem na sua casa e desde a primeira hora a estes convites esteve atento o cristianismo. 

É que o mundo não é, para a religião cristã, mero cenário onde se representa história previamente traçada e a cumprir: é o real lugar do encontro das liberdades – as humanas e a divina. 

Liberdades, sim, e não enredos já definidos e traçados. 



quinta-feira, março 23, 2023

Caminhada da luz - JMJ Salreu | 21 de março de 2023 | Reflexões

 

Caminho com os símbolos da JMJ 2023

 (Reflexões escritas para a caminhada da luz, realizada na paróquia de Salreu, Estarreja, a pedido de um bom amigo.)

 

Primeira etapa da caminhada – Capela

Um símbolo reúne e agrega

 

Estamos a iniciar um caminho com os símbolos da JMJ.

Caminho… Símbolo… Jornadas Mundiais da Juventude…

Caminhamos não como quem erra, sem rumo, mas com um norte no horizonte. Esse norte expressa-se no poder dos símbolos.

Um símbolo é sempre algo que agrega, reúne, junta o que anda disperso. Em torno destes símbolos, quantas histórias, quantas esperanças, quantas lágrimas e alegrias!... Nisso está a sua força simbólica. São mais do que objetos: são sinais de vida!

As Jornadas Mundiais da Juventude são um encontro, uma reunião, um ponto de confluência, mas também um momento de partida, marcada pela renovação interior que se faz de uma alegria que se expressa no exterior.

E estas Jornadas são marcadas por um lema que vincula e projeta, recolhida do evangelista Lucas, o evangelista da misericórdia: «Maria levantou-se e partiu apressadamente»

Maria tem, agora, o nome de cada um de nós.

José, Miguel, Francisca, Marta, Joaquim… O nome de cada um de nós antecede esta mensagem: ‘Eu’ levantei-me e parti apressadamente.’

Não já como um eu solitário, mas como um ‘nós’.

Nós levantámo-nos e partimos, apressadamente.

Levantemo-nos…

Partamos…

Há pressa no ar!

 

 

Segunda etapa da caminhada –

 

Maria levantou-se…

Levantar-se é atitude nobre, digna, de quem não se acomoda.

Levantar-se significa não se aquietar e sossegar, diante dos desafios e das interpelações. Maria deixou-se incomodar.

Os nossos tempos estão marcados por tanta indiferença, insensibilidade, acomodação. Pedem-nos que nos levantemos, tomemos em mãos os sinais densos da esperança e os levemos diante de uma humanidade tantas vezes voltada para o chão, curvada e sem esperança.

Maria é modelo de uma mulher real, concreta, que, mesmo na sua fragilidade de grávida, não se centra em si, mas transcende os limites com que se confronta.

Levanta-se, impelida por uma força que a faz desassossegar-se. A força que, como um vento que agita, se faz fogo ardente no seu coração, desafiando-a a ir mais longe. É por isso que não apenas se levanta. Ela levanta-se e parte…

 

 

Terceira etapa da caminhada –

 

Maria partiu…

Não como quem anda sem rumo, mas certa de que alguém a esperava. Maria não parte para lugar nenhum. Parte para a montanha, esse lugar onde Deus tantas vezes escolheu revelar-se. O lugar que é, nesta hora, o sinal da fragilidade que precisa de cuidado, pois é o lugar onde está Isabel, a sua prima, que precisa de ajuda, por estar, também ela, grávida e em fim de tempo. Partir porque se está em fim de tempo. Maria parte porque sabe que o tempo é escasso e todo o cuidado é necessário e pouco. Maria parte porque não basta levantar-se, erguer-se de tudo o que prende os pés. É preciso andar, avançar, peregrinar, sair… partir!

E como é poderosa, hoje, a simbologia do peregrinar. O peregrino não anda errante; sabe que tem uma meta, um rumo, um horizonte. E sabe, também, que para poder fazer o caminho, só o essencial é importante.

Ah, como seria urgente redescobrirmos que a vida é uma peregrinação para nos voltarmos a centrar no que é importante, no que é fundamental, no que é essencial.

Tanta futilidade nos prende os pés e nos impede de partir! Tanta ambiguidade nos afasta da verdade! Tanto egoísmo nos centra no ‘eu’, ‘eu’, ‘eu’. Um ‘eu’ que não parte para lado nenhum pois está convencido de ser o ponto de chegada.

Mas Maria parte, pois ela sabe que o sentido da vida está em partirmos em direção aos outros e ao Outro que é Deus. E isso dá-nos a consciência de que partir não pode ficar para amanhã… É uma pressa. Partir deve acontecer apressadamente…

 

Quarta etapa da caminhada –

Maria partiu apressadamente.

A pressa de Maria não é a de um acelera. Um acelera deleita-se com o prazer da velocidade, mas esta não o leva para lado nenhum. Acelera porque quer sentir gozo.

A pressa de Maria não é esta.

A pressa de Maria não é a que vemos nos nossos tempos, em que os nossos encontros são encontrões; em que andamos, acelerados, pelas ruas, como corpos sem alma. A pressa de Maria é a de quem tem o fogo no coração, um fogo que se chama ‘amor’, o amor com que Deus se lhe apresenta, o amor que é um descentrar-se de si e um voltar-se, atento e cuidadoso, para o outro.

A pressa de Maria é a de quem tem muito para ouvir e muito para contar porque tem a alma cheia de amor. A pressa de Maria é a daquela que sabe que a vida é gratidão, porque recebida como dom. E é porque é gratidão que sempre a história cristã lhe deu o nome da ‘cheia de graça’, cheia de dons que a tornam grata, agradecida ao Senhor da vida.

A pressa de Maria é a do encontro entre a eternidade e o tempo. Não a de quem já não tem tempo nenhum, mas a de quem passou a ter todo o tempo do mundo para se dedicar aos outros.

 

Quinta etapa da caminhada –

Com Maria, rumamos às jornadas mundiais da juventude de Lisboa…

O convite está lançado. Todos estaremos em Lisboa, em Agosto de 2023. Uns estaremos de corpo e alma; outros estaremos de coração. Mas Lisboa será o ponto de congregação de todos os que sabem que os tempos que vivemos pedem que nos levantemos, partamos e o façamos sem demora.

Será um levantar-se, partir e apressar-se que renovará a realidade onde vivemos, em cada dia.

É que Maria era uma mulher real, concreta, que realizou este levantar-se, partir e apressar-se na Palestina de há 2000 anos, cuidando e acolhendo ali, na vida real e concreta em que Deus e humanidade se uniram de modo definitivo.

As JMJ são oportunidade única para renovar o coração de cada um e as comunidades que construímos.

Nestes tempos sem tempo para nada, em que tudo parece fútil e descartável, em que a dignidade humana parece ter-se feito lama, num chão de que teima em não erguer-se, o modelo de Maria faz-nos levantar (erguer, de novo, a dignidade que nos habita), partir (e não andar errante, sem meta nem rumo), apressadamente (e não de modo acelerado, mas com a ousadia de quem sabe para onde vai, porque uma Voz do alto chama no coração).

Há pressa no ar… Vê se já a sentes no teu interior ou se ainda dorme o coração que te preenche o peito.

domingo, março 19, 2023

18 de março, o país caminha pela vida | Caminhar por aqueles a quem a vida não corre

(Artigo originalmente publicado na Agência Ecclesia)

Não se faz um seguro para os dias em que tudo corre bem. Esperamos que nos proteja, quando algo (ou, mesmo, tudo) corre mal. De que serviria, afinal, se, na hora em que mais dele precisamos, nos deixasse a suprir, pelas nossas próprias forças, os limites que a ele incumbia proteger?

Este não é um texto de apologia ou elogio a seguradoras ou entidades similares, mas um manifesto de inquietação perante a desblindagem daquele que é o maior seguro de vida e a mais relevante apólice da nossa carteira coletiva: o reconhecimento da inviolabilidade da vida humana.

Sustentar que a vida humana é inviolável de pouco nos servirá se tal significar que só não se lhe pode tocar quando tudo corre bem. Decisivo será permanecer fiel ao princípio quando ‘nem tudo corre’, pois é para essa hora que, afinal, celebrámos, coletivamente, o contrato firmado em apólice com o nome de Constituição.

Com este pressuposto, tenho defendido, desde o referendo de 2007, que, se bem vistas as coisas, após a liberalização do abortamento voluntário até às dez semanas, todos os nascidos posteriormente a essa data são, efetivamente, sobreviventes. Sobreviventes de uma lei que deixou à decisão das vontades individuais a determinação de se uma vida é ou não inviolável.

Sê-lo-emos (continuamos a acreditar que o tempo verbal certo será ‘sê-lo-íamos’), também, se for (fosse) legalizada a eutanásia… Todos os que vierem (viessem) a morrer de morte natural serão (seriam) sobreviventes a uma tal lei.

Não se inverteu, portanto, o paradigma de referência ao deixar de considerar que é perante a vida que devem acomodar-se as vontades (por ela ser inviolável), para se entender, pelo contrário, que é esta que deve acomodar-se às vontades?

É que, com efeito, as vontades são volúveis, variam, mudam, alteram-se, podem desejar e deixar de desejar, enquanto a vida não tem ondulações nem gradações: está ou não está! E é por a sua rejeição ser irreversível que a sua inviolabilidade deve ser – lá está! – mesmo inviolável.

E é especialmente quando a vida é mais frágil, quando a vida não corre, que a sua apólice de seguro deve ser acionada, para que as vontades não a façam sucumbir à sua força.

A história do reconhecimento da inviolabilidade da vida mostra que o percurso foi lento, de cerca de 2000 anos, mas sustentado. Nas últimas décadas, porém, por um processo que faz lembrar o retrato descrito por George Orwell, no ‘triunfo dos porcos’ e em ‘1984’, em que as verdades da primeira hora vão sendo alteradas e moldadas de modo a já pouco significarem do inicialmente defendido, temos vindo a assistir a um desblindar dessa apólice de seguro de vida. Temos vindo a ser arrastados por um processo de insensibilização paulatina, encaminhando-nos num sentido que não é de progresso, contrariamente ao que pretendem dizer-nos, mas de evidente retrocesso, com a agravante de se pretender acantonar, na trincheira dos radicais, quem ousa dizer que o rei vai nu. Consciente dessa estratégia, o Papa Francisco recordou, logo na exortação apostólica ‘Evangelii Gaudium’ que “muitas vezes, para ridicularizar jocosamente a defesa que a Igreja faz da vida dos nascituros, procura-se apresentar a sua posição como ideológica, obscurantista e conservadora; e no entanto esta defesa da vida nascente está intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano.” (EG 213), acrescentando, mais adiante: “A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações».” (EG 214)

É por isso que o país vem, pouco a pouco, despertando para esta evidência de que a vida é anterior às vontades que a devem, sim, acolher. Despertando deste torpor que a todos pretende insensibilizar, os portugueses têm-se mobilizado, dando respostas, organizando-se, acolhendo, cuidando e, também, caminhando… caminhando por aqueles (e, afinal, por todos nós, algum dia…) a quem a vida não corre.

Neste ano, em 18 de março, dez cidades do país realizarão caminhadas por aqueles (por todos nós…) a quem a vida ‘não corre’, caminhadas pela vida. A sua causa é a mais decisiva de todas; nasce do reconhecimento de que a vida antecede as vontades, pede para ser acolhida, pois se tal não acontece, nada é o que lhe sobra, o futuro acaba ali. A sua é a voz daqueles a quem nunca a concederam ou pretendem vir a tirar. Como não ver isto? Como permanecer-lhe indiferente?

segunda-feira, janeiro 02, 2023

Três ideias que devo a Bento XVI… e mais uma a que chegámos em tempos diferentes!


Tenho, desde há muito, a convicção de que a história guardará marca indelével de Bento XVI, muito para além da que resulta das suas decisões, seja enquanto Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (1981-2005), seja enquanto Papa (2005-2013).

Estou, mesmo, convicto de que a história da Igreja o revisitará, vez após vez, sem esgotar a profundidade e perenidade do seu pensamento e o reconhecerá, enquanto ‘sapientíssimo’, como um dos Mestres para as gerações vindouras, atribuindo-lhe o título de Doutor da Igreja, na companhia de São Tomás, Santo Agostinho, Santo Anselmo, Santa Teresa de Ávila, Santa Catarina de Sena, entre outros que hoje completam esse restrito areópago de encontro entre o tempo e o eterno.

A fecundidade do seu pensamento exige humildade na abordagem que me proponho fazer… Guardar da sua extensa leitura dos sinais dos tempos uma reserva de três ideias preenche, aqui, apenas o objetivo de aliciar os leitores à descoberta do muito que Bento XVI tem para nos dar de entre o seu tesouro intelectual.

Bem certo que aos leitores mais atentos logo ocorrerá a ideia da crítica ao relativismo que perdeu a referência à verdade. Deixo essa linha evidente e vou em busca de outras, menos recordadas.

 

O cristianismo é um advento…

A primeira de entre as ideias que guardo e revisito encontrei num opúsculo editado em 2009, pela Princípia, e que li em março de 2010. Nele, recolhem-se três homilias proferidas por Joseph Ratzinger, entre 13 e 15 de dezembro de 1964, sob o título de ‘Do sentido do ser cristão’. Afirma, ali, que o cristianismo é um advento, ideia que desloca a fé de uma lógica passadista, de uma lógica de divisão do mundo entre bons e maus, projetando-a para diante, sabendo da sua condição de provisoriedade e de estar a caminho. Uma ideia verdadeiramente revolucionária e transformadora…

 

A ‘Razão’ iluminista é a-histórica…

A segunda ideia encontrei-a no livro ‘A Europa de Bento: na crise das culturas’, editado pela Alêtheia, em 2005. Li-o em agosto de 2009, tendo-o anotado com diversos ‘muito interessante’. Assim era a minha leitura das obras deste insigne pensador…

Entre esses ‘muito interessante’, guardei a descoberta de que um dos problemas da modernidade não está na ‘Razão’, pois ela é fonte de iluminação, se sustentada na genuína busca da verdade. O problema está naquilo em que a Razão moderna a transformou: tornou-a ‘a-histórica’, como se o sujeito humano pudesse existir sem ser numa circunstância concreta.

Como é fecunda esta segunda ideia! Nela podemos, por exemplo, descobrir uma das maiores falhas das perspetivas sobre a liberdade que a concebem como se fosse a-histórica, sem ser situada, sem ser a de humanos concretos, como se eles pudessem ser ‘deus’, o que significa e redunda numa negação do próprio ser humano. Como afirma o próprio Bento XVI, ‘a separação radical da filosofia iluminista em relação às suas raízes [históricas] torna-se, em última análise, um prescindir do homem”. Recorda, um pouco adiante, que [em nome de uma razão a-histórica, negadora das raízes históricas, situadas] “no fundo, o homem não tem liberdade nenhuma – dizem os porta-vozes das ciências naturais, em total contradição com o ponto de partida de toda a questão. Ele não deve acreditar que é diferente de todos os outros seres vivos, e portanto deveria ser tratado como eles – dizem-nos até os porta-vozes mais avançados de uma filosofia claramente afastada das raízes da memória histórica da humanidade.” (p. 33)

Não estamos a viver, hoje, as réplicas destas ideias profeticamente denunciadas por Bento XVI?

 

 

O amor é muito mais do que um sentimento…

Por fim, devo-lhe uma terceira ideia: a de que o amor é muito mais do que sentimento…

Para se chegar a esta ideia, é necessário ter arrumada a antropologia, isto é, a visão sobre quem é o ser humano. E Bento XVI tinha uma ideia esclarecida: o ser humano envolve, no seu agir, não apenas as emoções, mas também a vontade e a inteligência, numa unidade indissolúvel de alma-corpo, matéria enfrentada, sem receios nem ambiguidades, na sua ‘introdução ao cristianismo’, que foi reeditada, em português, em 2005, pela Princípia.

A ideia de que o amor é muito mais do que sentimento encontramo-la na sua primeira encíclica, ‘Deus caritas est’, no seu número 17. Ali, afirma que “o reconhecimento do Deus vivo é um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade à dele une intelecto, vontade e sentimento no ato globalizante do amor.” Esta ideia será revisitada uma e outra vez, sendo condição para se perceber o alcance da afirmação de que “sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo.” (Caritas in veritate, 3) Só a meditação, sustentada e disponível, na densidade desta ideia pode evitar os erros de quem, em nome de uma ideia incompleta do amor, se dispõe a traí-lo, supondo, por exemplo, que possa ser ato amoroso o ato de matar. O ato designado como de amor não mais será, aqui, do que expressão de um sentimento não iluminado pela verdade que deveria levar ao respeito integral pelo outro, mas que se basta em descansar as emoções, sem ver o que nelas possa ser desafio de busca da verdade do outro.

Deixar-se tomar pela lonjura e alcance desta ideia permite olhar com uma atitude crítica tantas das decisões que, hoje, diante de nós, são apresentadas como atos de amor, disfarçando, antes, insuficiências do amor ou, mesmo, egoísmos mascarados…

 

Etsi Deus daretur…

Somo a estas três ideias uma quarta.

Neste caso, não se trata de uma dívida, mas de uma feliz coincidência.

Em 2006, escrevi sobre uma hipótese que me ocorrera, por ocasião da leitura de uma análise do pensamento de Dietrich Bonhoeffer. Este teólogo alemão, pertencente à igreja confessante e que morrera às mãos dos nazis, defendera que, nestes tempos, deveríamos viver ‘etsi Deus non daretur’, ‘como se Deus não existisse’.

Pareceu-me ser uma ideia sincera, mas senti que fazia perder a força da fé, diluindo-a em nome de um respeito que não me parecia fazer justiça nem à fé nem aos descrentes.

Na altura, ocorreu-me que poderia ser interessante inverter a afirmação e pensar que seria de propor ao mundo que ousasse refletir e agir ‘etsi Deus daretur’, isto é, que pensasse e agisse ‘como se Deus existisse’. Colocar o desafio sob uma condição serviria a causa da fé e serviria a causa do respeito pelos não crentes. Recolheria o melhor da fé sem impor aos não crentes a própria fé. Deus seria pensada ‘como se’ existisse. Para os crentes, o ‘como se’ seria substituído por ‘porque’, mas, para os não crentes, permaneceria como possibilidade, ‘como se existisse’…

Entusiasmei-me com a hipótese e escrevi sobre ela…

Para meu espanto, encontrei, alguns tempos depois, a mesma ideia em Joseph Ratzinger, sem que eu o tivesse lido. Senti um misto de alegria e de desilusão para comigo por me ver ultrapassado pelo meu desconhecimento. Mas saber-me acompanhado por tão ilustre companhia reconfortou-me… E, principalmente, dá-me a certeza de que a verdade pode, de facto, unir quem se deixa mover e atrair por ela.

Ao Sapientíssimo Papa emérito Bento XVI deixo o pedido de que interceda para que eu seja sempre fiel buscador da verdade, à luz da qual sirva o amor, certo de que não há verdadeira caridade senão a que se realiza na verdade.


quarta-feira, dezembro 14, 2022

Natal | Uma graça de Deus

 Habituámo-nos à ideia de que o que respeita à teologia é da ordem do ‘dever ser’. Aliás, um dos conceitos que a filosofia mais associa à ideia de Deus é a de ‘necessidade’ compreendida como o que ‘é e não pode não ser’.

O Natal tem, perante esta ideia de Deus, uma novidade que nunca se esgota. (Como, aliás, acontece com o que a sabedoria cristã sempre designa como mistério: tocamos nele, mas muito nos escapa, tamanha é a sua densidade.)

E essa novidade designamos como ‘uma graça de Deus’.

Poucas línguas permitem o subentendido que nos reserva este aforismo: ‘uma graça de Deus’.

Prontamente, lemos ‘um dom que Deus nos oferece, sem que o mereçamos’. E é-o, de facto. Mas considerar o Natal ‘uma graça de Deus’ tem, na língua portuguesa, uma outra linha semântica que nos passa, por vezes, despercebida. O Natal é ‘um gracejo de Deus’, uma ‘graça’, como quem nos desconcerta. Um momento de ‘humor’ que nos ilumina um beco sem saída. Tal como o humor, aliás!

Sim, o Natal é também um sinal do ‘humor’ de Deus.

O humor com que tantas vezes se nos propõe que enfrentemos a realidade dura e sombria. O humor com que, perante a teimosia de Jonas, Deus transforma o mar num cenário de uma comédia de ‘escapo e apanhas-me!’. O humor daquela anedota judaica que me chegou pela mão de Tomas Halík, no seu mais recente ‘a tarde do cristianismo’.

“[…] uma mulher reclama por Deus durante anos não ter respondido às suas petições para ganhar a lotaria. Diz-lhe o rabino: «Mas Deus já te respondeu! A Sua resposta foi ‘não’.” (T. Halík, A Tarde do cristianismo, Paulinas Editora, p. 249). Deus quer que aceitemos o seu Humor, mas nós temos mau humor e só queremos que Ele faça como exigimos…

Não procuro, aqui, fazer um jogo fácil de palavras, concluindo que Deus seja, não apenas, Amor, mas também Humor.

Sê-lo-á, certamente, não porque deva reduzir-se o mundo a uma grande anedota, mas guardando, antes, do humor o que ele tem de mais essencial e crucial: o humor é sempre o desconcertante, o que desperta a alegria, o que faz disponibilizar, para o inesperado, o coração empedernido.

O humor com que Deus desbrava a escuridão da noite do mundo, para se fazer nascer, frágil e despojado, numa manjedoura, não é apenas um ‘é assim porque tinha de ser’. É, antes, uma surpresa, uma desbragada gargalhada perante os fortes do tempo e do mundo, convencidos de que tudo teria de permanecer como sempre fora até então.

O Natal de Belém, o verdadeiro Natal, é um acontecer da surpresa, porque o que é ‘graça’ é ‘de graça’. Pois, como dirá, pouco mais tarde, S. Paulo, ‘onde abundou o pecado superabundou a graça’. Deus dá gratuitamente… e sorri, porque sabe que as sombras e o abismo não vencerão.

O humor do Natal é, por provir de Deus que é Criador, uma afirmação da condição do mundo criado. O dinamismo do mundo faz-se do gerar coisas novas onde há surpresa. O novo emerge como um momento de humor, de desconcerto.

Veja-se o eclodir da vida. Cada novo rebento é um sinal de júbilo, um desconcerto de vitória sobre a morte.

Na linha de um grande pensador e teólogo do século XX, Teilhard de Chardin, poderíamos afirmar que toda a evolução, que se encaminha para a Cristogénese, só é possível se houver este acontecer de momentos de novo, de desconcerto que surpreende e em que a novidade pode eclodir. Até a física contemporânea evidencia, com as teorias do caos, - que, na aparência se afiguravam a negação do lugar do transcendente, - abre caminho a um outro olhar sobre a realidade que é, afinal, um estado de permanente milagre.

O mundo espanta… O mundo surpreende… O mundo desconcerta… E emerge o novo!

A criatura participa da realidade de Deus que é novidade constante e que, no tempo, e num tempo concreto, desconcertou, rebaixando-se à condição da criatura para lhe revelar Quem era e quem ela própria era, afinal.

E será fácil, então, percebermos que Deus também seja humor porque o Amor que Ele é (não apenas ‘tem’) gera sempre coisas novas, porque o amor é fecundo em si mesmo.

O emergir de coisas novas é ‘graça’ que faz inundar de riso o mundo e o tempo.

E o mal, a escuridão e o abismo já não terão a última palavra nem voz.

Porque Alguém, antes de todos os outros, ‘achou graça’ e deixou-se encher da Graça!

sábado, novembro 19, 2022

A defesa da vida humana | O que ouve quem nos ouve?

Imagine-se a seguinte afirmação: ‘os que legalizaram o aborto até às dez semanas queriam era levar à prisão todas as mulheres que o praticam fora desse prazo’. Ou a seguinte: ‘quem defende o fim da pena de morte quer é ver na rua todos os que praticam crimes’. Ou, ainda, esta: ‘quem defende que deve haver faltas nas escolas quer chumbar todos os alunos que faltam’. 

São frases absurdas?

Pois bem. São-no tanto como a que diz que quem é contra a legalização do aborto quer ver na prisão as mulheres que o praticam.

Mas o que é certo é que esta última tem feito caminho, tem sido repetida até à náusea, com consequências muito nefastas. Basta que se pense que, com ela, muito se tem contribuído para ridicularizar a ação dos que defendem que o aborto é um erro. Tal ridicularização tem feito com que só os mais corajosos continuem a ousar dizer, publicamente, quão errada é esta prática, ainda que sabendo que a ousadia de o dizerem os cobrirá de vergonha e com um manto de suspeita de que serão radicais, fundamentalistas e incompassivos. Sublinhe-se que a lei tem uma função pedagógica. Ao relativizar uma prática que é ofensiva da dignidade e violenta, está a transmitir uma mensagem à sociedade: a de que é uma prática tolerável. É isto que está em causa na legalização do aborto: legalizar diz que é aceitável. 

É por isto que não posso concordar com o que li, há dias, no mais recente livro de Tomas Halík, um autor que sigo e cujos méritos permanecem intocáveis, apesar da crítica que me valem as suas palavras sobre os movimentos de defesa da vida. 

Diz Halík: ‘Também eu tenho um respeito sagrado pela vida do nascituro, mas não posso participar nas marchas daqueles que se fixaram obsessivamente nesse assunto e transformaram o Cristianismo numa cruzada militante para criminalizar o aborto e proibir a contraceção. Fizeram dessa agenda o principal – e muitas vezes o único – critério para aferir o grau de «Cristianismo» dos políticos e o seu sentido de voto nas eleições, tornando-se presa barata para astutos demagogos.’ (T. Halík, A tarde do cristianismo, Ed. Paulinas, p. 114)

Não posso concordar porque não tenho o direito a julgar os motivos que levam os participantes nestas marchas que Halík aqui ridiculariza. Já participei e organizei muitas dessas marchas e encontrei múltiplas razões entre os participantes. Alguns, inclusive, porque tinham vivido, de perto, a dor da perda, por aborto espontâneo, de um filho, e sabiam o que tal significava de perda de esperança e futuro. 

Mais, ainda… É uma ‘obsessão’ como tantas outras em que participei. Também participei e organizei iniciativas contra a pena de morte; contra a tortura, contra a eutanásia… OU, melhor. A favor do respeito pela dignidade humana. E isso não me parece uma obsessão, mas um dever. 

Sendo que, a ‘obsessão’ contra a legalização do aborto, da eutanásia, da pena de morte, tem o condão de estar marcada pela urgência. Cada atraso (de um dia, de uma hora, de um minuto…) pode significar a perda efetiva de vidas. Cada atraso na legalização do aborto, num país, pode significar garantir a sobrevivência de milhares de crianças e mães. Sim, de crianças e mães.

É que, em cada aborto, morre uma criança (obviamente!), mas também uma mãe, pois só se é mãe porque se tem um filho. Sobrevive, eventualmente, a mulher (em Portugal, já morreram mulheres na sequência do aborto legal. Sim. Posso demonstrar o que acabo de afirmar!), mas morre a mãe. 

Acho injusto considerar esta ‘obsessão’ um aspeto marginal da fé cristã. Os movimentos de defesa da vida têm feito, nas últimas três décadas, mais pelas mulheres do que os movimentos ditos feministas, que deixam a mulher abandonada numa rede de supostos direitos, mas solitária e cada vez mais deprimida num mundo solipsista. Os movimentos de defesa da vida arregaçaram mangas e criaram respostas. Nenhuma mulher que pede ajuda fica sozinha. Tem, imediatamente, uma rede de ajuda que a apoia e ajuda a salvar-se das situações confusas com que a vida a confronta.

É injusta acusação... 

Tenho encontrado, entre as pessoas dos movimentos de defesa da vida, uma fé viva, feita de amor. Um amor que ama mesmo aquele a quem ainda não vimos o rosto ou o sorriso. Um amor que ama sem condições. Um amor que acolhe, seja bonito ou feio, ‘perfeitinho’ ou marcado pela deficiência.

É tão injusto, Tomas Halík! Mas bem sabemos que tem sido contra esta injustiça com que o mundo nos vem lendo que continuaremos a lutar, porque há pobres entre os pobres, a quem nem o direito a nascer se quer garantir, que merecem que gritemos por eles, para que um dia, possam gritar que alguém por eles gritou, quando ainda não podiam.

Se o abortado for um filho, um de nós, ainda sem nome nem rosto, mas a quem ousamos dar o rosto de um humano, então a causa da defesa dos não nascidos pode ser uma legítima e justa obsessão. Porque amamos todos: a mãe, o filho, o pai (esse ausente a quem a legalização do aborto excluiu) e todos os que seriam afetados pela perda de um deles… Não amamos um contra os outros. Estamos do lado de todos: a mãe, o filho, o pai. Sempre, sempre, sempre. Mesmo quando nos dizem que o fazemos por não ter fé. Mas porque sabemos que, mesmo que a mãe abandone o seu filho, Deus nunca nos abandonará. 

Queremos ser sinal dessa certeza de um amor incondicional, num tempo que parece tudo reduzir a direitos e a lutas de uns contra outros. Estamos do lado de todos!


terça-feira, novembro 01, 2022

Um outro paradigma para e na educação: não, já, dos ‘direitos aos deveres’, mas sim dos ‘deveres aos direitos’

 

Em matérias que dizem respeito ao ser humano, exige-se sempre alguma prudência na adoção de visões que absolutizam uma só causa, uma só linha de análise, uma só… um só…

Na educação, este princípio é, por maioria de razão, dado mexer com o âmbito do ‘fazer-se humano, válido e de atender, sem qualquer ambiguidade.

É habitual assistir-se ao conflito aberto entre quem defende que educar é, principalmente, instruir, transmitir saberes que são adquiridos como algo exterior ao sujeito, opondo-se-lhe uma outra visão em que tudo está já presente no sujeito e só cabe aos educadores favorecerem a ambiência para que emirjam os saberes já previamente existentes no indivíduo.

Uma e outra visão esquecem o carácter dinâmico da existência humana que é, sempre, o resultado do encontro entre natureza e cultura, entre sujeito e objeto, entre nato e inato, etc…

O erro está em entender que a razão humana possa entender-se fora de uma realidade concreta, historicamente situada e culturalmente definida. Sem estes pressupostos, tudo parece desvanecer-se como fumo dissipado por uma rajada mais forte de vento.

Este quase maniqueísmo educacional é notório nas políticas educativas portuguesas que pendem de uma visão objetivista que concebe a educação como transmissão pura e dura de conhecimentos, fazendo tábua rasa das idiossincrasias dos sujeitos, para uma outra, de sinal oposto, em que o sujeito é, à maneira platónica, um sujeito omnisciente que já possui em si os saberes que cabe apenas fazer emergir, em resultado da criação de contextos favoráveis a tal.

O pessimismo antropológico da primeira visão parece viver do otimismo da segunda, excluindo-se mutuamente, num erro em que o verdadeiro perdedor é a educação.

Nada, na educação, é apenas objetivo ou apenas subjetivo. Na educação, como em tudo o que é humano, a subjetividade e a objetividade interpenetram-se e regeneram-se reciprocamente.

Tendo em conta estes pressupostos, orientemos a nossa visão para um vetor em que nos parece particularmente notório este maniqueísmo destrutivo: o que respeita à relação entre direitos e deveres.

 

O movimento pendular dos paradigmas

Um certo paradigma, mais prevalecente em épocas ou regimes de matriz autoritária, colocava o acento da educação no dever. O sujeito era sumido na consciência coletiva, parecendo inexistente.

Em reação a tal visão, o paradigma substituto veio centrar a educação na consciência dos direitos, pressupondo que um sujeito consciente dos seus direitos é alguém que, mais cedo ou mais tarde, vem a reconhecer ter deveres.

Esta visão, constituída em paradigma maioritário nas sociedades ocidentais do bem-estar, parece-nos assentar numa visão fundamentalmente individualista do sujeito humano.

Se virmos com atenção, partir dos direitos, sem mais, e contar com uma espontânea emergência da consciência do dever, tem muito de otimista e pouco realista.

Um sujeito que vai sentindo que os seus direitos se vão somando, dificilmente sairá desta espiral de conquistas para assumir – a que título? – uma consciência do dever.

 

 

Um outro paradigma: dos ‘deveres aos direitos’

No nosso entendimento, seria importante problematizar um terceiro paradigma, um paradigma de equilíbrio.

Já não um paradigma que sumisse o sujeito numa consciência coletiva, nem, por oposição (na linha do paradigma vigente), um paradigma que partisse dos direitos para vir a fazer emergir o sentido do dever, mas sim um outro em que o sujeito se encaminha para os direitos a partir dos deveres.

Repare-se como este aparente jogo de palavras (não já ‘partir dos direitos para chegar à consciência dos deveres’, mas sim ‘partir dos deveres para chegar à consciência dos direitos’) encerra em si visões muitos distintas. Por um lado, como acima dizíamos, no paradigma que parte dos direitos para chegar aos deveres, está implícita uma visão fundamentalmente individualista. O centro é cada um; não a sua relação com os demais.

No paradigma que estamos a propor, pelo contrário, o sujeito centra-se no outro, para com quem reconhece ter deveres e, a partir desse reconhecimento, constata que também os demais têm deveres que dimanam dos direitos que ele descobre em si mesmo. O regresso a si é feito no encontro com o outro. Aliás, este entendimento vem na linha do que vimos defendendo, desde há muito, ao afirmar que o verdadeiro erro de Descartes não é ele ter-se esquecido das emoções e dos sentimentos, mas sim em ter-nos convencido de que o primeiro facto de que temos consciência seja de que pensamos, de que o ‘eu’ existe. Pelo contrário, o que nos evidencia a realidade é que o primeiro sujeito de que temos consciência é da nossa mãe, é do outro, do ‘tu’, diante do qual nos constituímos como ‘eu’.

Na educação escolar, esta mudança de paradigma seria uma autêntica revolução suave ou, para evocar a ocorrida na antiga Checoslováquia, uma revolução ‘de veludo’.

 

Os sinais que exigem a mudança paradigmática

Na realidade, vale a pena perguntarmo-nos que trabalho educativo temos vindo a fazer quando, chegada a hora de assumirmos deveres, os sinais são de que recuamos e não o fazemos. Vejam-se a título ilustrativo, as notícias de que os concursos para funções militares, policiais, etc. ficam com muitas vagas por preencher, num país em que continuam elevadas as taxas de desemprego. Ou vejam-se os números muito preocupantes das taxas de nupcialidade, ou as baixíssimas taxas de natalidade. Bem certo que, para cada um destes indicadores, há que procurar muitos fatores (cada realidade tem, certamente, os seus, muito específicos), mas, globalmente, evidenciam uma crise de compromisso, uma crise do sentido do dever. Os filhos, a título ilustrativo, são fonte de realização pessoal, bem certo, mas também são um dever para com as gerações futuras e para com a comunidade. (Espero que esta afirmação seja devidamente entendida pelos leitores… Não pretendo dizer que geramos por obrigação, mas há, certamente, algum sentido de dever que acompanha o acolhimento de um filho que, por exemplo, nasceu sem ‘agendamento prévio’ ou com alguma fragilidade especial ou, mesmo, porque todo o filho comporta reajustamento da vida. Nunca mais se fica igual…)

Pode contribuir para esta progressiva mudança de paradigma a tomada de consciência de quanto investe toda a comunidade (compreendida como ‘Estado’), em cada ano, para que cada aluno possa frequentar, gratuitamente, o ensino público. Em 13 de setembro de 2021, o então ministro da educação recordava que cada aluno custa, por ano, ao erário público, 6200 euros (Ver jornal Público[1]). Se, em vez de pensarmos o Estado como uma entidade abstrata que não é ‘ninguém’, o tomássemos como um ‘tio rico’ que decidiu investir na nossa educação, como lhe estaríamos, certamente, gratos pelo que fez por nós! Sendo o Estado a organização da comunidade dos portugueses, será importante que cada aluno, cada família, reconheça o enorme dever que comporta beneficiar da ajuda de todos para que possa abrir, de par em par, o futuro, que é, afinal, a missão da educação escolar.

Propomos, por isso, um novo paradigma: não o que está assente na ideia de dever entendido como fim fechado em si mesmo; não, também, um paradigma que parte dos direitos para vir a chegar (quando?) à consciência dos deveres. Antes, um paradigma em que se parte dos deveres para se chegar à consciência dos direitos. Um tal paradigma centra-se na consciência de que, enquanto pessoas, somos seres em relação, cuja consciência de si mesmo depende dos outros e é devedora da missão que eles têm de fazer emergir em nós a consciência própria.

São muito oportunas, neste contexto, as palavras dirigidas ao povo americano por John F. Kennedy, em 20 de janeiro de 1961, no discurso de tomada de posse após ter sido eleito presidente dos Estados Unidos:

‘Não perguntem o que pode o vosso país fazer por vós. Perguntem, antes, o que podem fazer pelo vosso país.’ (In Simon, Sebag Montefiore, Discursos que mudaram o mundo, Lisboa, Difel, 2006, p. 221)

 



[1] https://www.publico.pt/2021/09/13/sociedade/noticia/aluno-custa-6200-euros-ano-aumento-30-desde-2015-ministro-1977237

quinta-feira, agosto 18, 2022

Na Igreja, todos têm lugar, mas nem tudo tem lugar

 

Estarmos em crise, em tensão, em busca, define-nos, enquanto humanos e, de modo particularmente denso, enquanto cristãos. Mas os tempos parecem ser de particular perplexidade e, segundo alguns, de caos.

Onde fica o cristianismo, perante a vertigem que parece tomar conta de tudo? Deverá reconhecer que nada mais tem a dizer de novo e aceitar como legítimo todo o comportamento apresentado como sinal de progresso e revolução? Deverá, porém, bastar-se em adotar uma atitude de fixação e fixidez, ‘porque sempre assim se pensou’?

Comecemos por denunciar o registo que as nossas interrogações permitem evidenciar: será muito redutor se tudo se confinar a um dualismo que se basta em rotular como sendo ‘progresso’ ou ‘tradição’, ‘progressismo’ ou ‘conservadorismo’, como se o avanço ou a conservação fossem, por si mesmos, necessariamente bondosos. Caberá sempre perguntar sobre ‘para onde progredimos’ e sobre ‘o que conservamos’. De outro modo, estaremos em simples movimentos (para diante ou para trás) que nada significam.

Esvaziemos, por isso, o dualismo e tomemos como referência outro critério: o da busca sincera da verdade. Essa, sim, coloca-nos numa tensão - o homem é um ser tensional, encaminha-se para algum lugar, encaminha-se para um horizonte… se não for assim, vive, apenas, seduzido pelo ‘aroma de um tempo flutuante’, como pertinentemente diagnostica Byung-Chul Han -, tensão que nos faz caminhar de algum lugar para outro lugar, num dinamismo digno de um verdadeiro peregrino, metáfora que considero ser das mais pertinentes para definir a condição humana, mas que a pós-modernidade vai esvaziando, subsumindo o homem na mera soma de agoras...

Ora, regressemos à ideia da busca da verdade…

Muitos são os que, hoje, defendem que o cristianismo tem de ser fiel a Jesus Cristo (e tem! Tem, mesmo!), mas tomam de Jesus Cristo o que Ele tem de agradável, ‘aromático’ (para evocar Han), mas não o tomam no todo.

Jesus Cristo revolucionou, bem certo, mas não foi um revolucionário político, como tantos pretendem. A sua revolução é a da verdadeira conversão de coração e de corações. E essa revolução ainda está a operar-se. Ninguém é proprietário dela, pelo que se impõe grande humildade (espero tê-la, ao longo desta reflexão…).

Tomemos, então, como critério a ação de Jesus Cristo.

Em matérias que respeitam ao comportamento humano, à moralidade e à relação entre o agir concreto e a normatividade, é particularmente significativa a ação de Jesus Cristo perante a mulher apanhada em adultério, como nos é contada pelo evangelista João (8,1-11).

É, com efeito, a ação de Jesus, tal como se no-la apresenta o evangelista, que mais tem suscitado discussão e dificuldades de encontro, nestes tempos em que matérias de moral (em particular de moral sexual) são descritas como sendo daquelas em que o cristianismo mais dificuldade tem evidenciado (dizem-nos) em corresponder ao que Jesus Cristo pretende dele.

Olhemos a narrativa apresentada por João que proponho que seja lida com atenção, para que seja notória a surpresa em relação ao excerto escolhido (sigo aqui a edição disponibilizada em http://www.paroquias.org/

“1*Jesus foi para o Monte das Oliveiras. 2De madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele. Jesus sentou-se e pôs-se a ensinar. 3Então, os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio 4e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. 5Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?» 6Faziam-lhe esta pergunta para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra. 7Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!»  8E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra. 9Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles. 10Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» 11Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno.” […]

Muitos são os que terminam a sua análise aqui.

Se, de facto, o evangelho terminasse aqui, caberia defender um cristianismo que, em nome do acolhimento de todos, deveria acolher tudo, sem restrições.

Há, porém, que recordar, com honestidade, que o evangelho termina com a afirmação “Vai e de agora em diante não tornes a pecar.” (Jo 8,11b)

E este é o ‘detalhe’ que os tempos relativistas parecem pretender esquecer. É bom, aliás, recordar que Jesus, nesta perícope, está a ser confrontado pelos especialistas na Lei, pelo que sabia que não podia colocar em causa a lei, sem que tal comportasse para Ele custos elevados. A sua abordagem é, aliás, inteligentíssima: responde, apresenta o novo, sem, porém, colocar em causa o que lhe é transmitido pela tradição, sabedoria que a pós-modernidade parece ter perdido: responde, apresenta o novo, mas não sabe recolher o que recebe da tradição. Como recorda Lipovetsky, no seu livro ‘o império do efémero’, a categoria fundamental deste tempo é a forma ‘moda’, entendida como a busca permanente do ‘novo’, num frenesim infinito…

Não é essa, porém, a atitude de Jesus Cristo, nesta cena tão humanamente profunda: uma é a pessoa; outra bem distinta é a sua ação.

E esta é a novidade que o cristianismo tem para apresentar, neste contexto. E é isto que é difícil de entender.

Nas discussões em que se problematiza a ação do cristianismo deveria explicitar-se de que se está a falar: de leis morais? Se sim, a lei moral, no prisma cristão é clara: há atos bons e atos maus; há atos ordenados e atos desordenados; há atos humanizadores e atos desumanizadores; há atos bondosos e atos maldosos; há pecado e virtude. Se estamos no plano da discussão sobre a lei, então, o cristianismo tem a apresentar que todo o ato humano é moralmente interpretável, pois não há atos neutros e inócuos.

E, enfim, se estamos a falar das leis do Estado, então, elas devem ser abstratas, abeirar-se, tanto quanto possível, da bondade moral e, por isso, a atitude cristã deve ser clara: a lei deve ser justa, sob pena de redundar num sentimentalismo que pode gerar injustiça.

Se, porém, estamos a falar sobre a pessoa concreta que os realiza, a atitude de Jesus Cristo é a do acolhimento daquele que apresenta um coração verdadeiramente disponível para a conversão. [Mas, antes de progredirmos na reflexão, sublinhemos este detalhe: o da disponibilidade para a conversão. Na verdade, em muitas das discussões sobre matérias de natureza moral (sejam elas do âmbito da moral social - a atitude perante a pobreza, a injustiça, a desigualdade, etc. – sejam do âmbito da moral pessoal – sobre o adultério, a violência sexual, as diversas orientações, etc.), a pergunta sobre o que tem o cristianismo a dizer deveria sempre pressupor a disponibilidade para a conversão, sem a qual o cristianismo fica reduzido a um moralismo e a uma descrição normativa, por um lado, aparentando ser arrogante a atitude dos que parecem pretender ter a norma final sobre como deverá pensar-se o próprio cristianismo. A tentação é, hoje, vulgar: em lugar de acolher o desafio que Jesus Cristo faz à conversão dos comportamentos arrisca-se legitimar os comportamentos pressupondo que Jesus Cristo os legitimaria. Não o fez, em relação ao adultério; não nos parece que o fizesse em relação a outros mais modernos… Quem é acolhida é a mulher, a pessoa; não o seu ‘pecado’.]

À luz desta análise, há que concluir que o cristianismo tem a apresentar uma proposta que é, efetivamente, única, singular. É única e singular porque encontra o adequado equilíbrio entre dois extremos hoje tão radicalizados: nem, em nome da permanência da lei, se define como legalista, moralista ou indiferente à pessoa; nem, em nome do acolhimento da pessoa, redunda num relativismo.

É este, como recordava Karl Barth, o ‘terrível’ «e» católico: firmes nos princípios «e» acolhedores para com as pessoas. Nem a firmeza da lei sem o acolhimento da pessoa; nem o acolhimento sem a firmeza da lei.

Face a isto, caberá concluir que, nas comunidades cristãs, todos têm lugar, mas nem tudo tem lugar, pois há comportamentos que realizam a pessoa, na sua integralidade, na sua abertura ao outro e ao Outro, e há comportamentos que não a realizam e denunciam por si mesmos o fechamento em si próprio ou se bastam na busca do igual a si mesmo, como se o outro não nos merecesse um amor integral, mas fosse reduzido a uma condição de alter-ego.

Acolher o outro não significa, neste registo, aceitar a bondade das suas ações. Pode significar, mesmo, o dever de, em nome da correção fraterna (tão presente nas primeiras comunidades e, ainda hoje, nas ordens religiosas: porque não nas demais comunidades cristãs?), lhe evidenciar que a sua ação não é bondosa ou humanamente plena, mas que a pessoa que ele é, e sempre disponível à conversão, é acolhida por Deus, acolhimento que se expressa, de forma concreta, na comunidade.

Daqui dimana um desafio duplo: para a sociedade, aceitando este repto feito pelo cristianismo de acolher todos, ainda que problematizando os comportamentos; para as comunidades cristãs, sabendo distinguir entre o dever de evidenciar a verdade da integralidade do agir moral, sem, porém, deixar de acolher cada um que nelas procura refúgio e cuidado.

É a atitude do Bom pastor, tão belamente retratado na igreja de Santa Madalena, em Vezelay, numa das colunas onde Jesus Cristo é apresentado como carregando aos ombros o traidor e suicida Judas Iscariotes. Tomá-lo em ombros não significa legitimar a traição e o suicídio, mas permitir o ‘gotejar’ da esperança numa boca sequiosa…

quarta-feira, julho 13, 2022

O absurdo ‘direito’ a abortar

 (Neste artigo, seguirei uma linha de raciocínio puramente formal, lógica. Peço ao leitor que o leia sem filtros, sem preconceitos.)

Comecemos por uma constatação.

Um filho é fruto da ação, direta ou mediada (evoco, aqui, as formas de conceção natural ou medicamente assistida), de dois: um pai e uma mãe.

O facto ‘filho’ expressa, por si só, uma omnipresença de dois: os seus progenitores.

Em cada filho está, inerentemente, a ação de duas pessoas de quem emerge um novo ser.

A esta luz, o filho que nasce une, para sempre e desde o seu início, as vidas de dois indivíduos: os seus pais.

Estes factos parecem-me irrefutáveis…

O aborto interrompe esta história de união da ação de dois indivíduos, os progenitores, numa nova vida.

Ora, perante o aborto, o direito depara-se com uma dificuldade: como agir?

A decisão dos legisladores tem sido uma de duas:

- ou permanecer fiel ao entendimento de que as leis transmitem mensagens aos cidadãos e, por isso, manter a afirmação de que abortar, por consistir na eliminação de uma vida humana em desenvolvimento, é um erro punível (esta punição recai sobre todos os envolvidos no aborto e não apenas na mulher: são suscetíveis de punição os incentivadores, os praticantes do aborto, os companheiros ou familiares que forçam, etc.);

- ou, alegando motivos diversos, despenalizar o ato, a pretexto de conflito de direitos ou outros motivos.

Observa-se, porém, uma nova linha que pretende defender, já não a mera despenalização do ato, mas o seu reconhecimento como direito.

Para a análise desta via, regressemos ao início da nossa reflexão.

Constatámos (sem grande esforço) que o filho é fruto da ação de dois: os progenitores, um pai e uma mãe.

Pretender reconhecer a um dos dois o direito exclusivo a abortar introduz aqui uma novidade altamente problemática.

Senão, vejamos. Socorramo-nos de uma metáfora que, como todas as metáforas, deve ser apenas uma ajuda ao entendimento sem que nos devamos prender nos aspetos específicos desta…

Imagine-se uma sociedade empresarial em que existem dois sócios com 50% de participação cada um.

A certa altura, um dos sócios propõe a aquisição da participação do outro sócio, ficando, assim, com 100% das quotas, comportando a posse do exclusivo de direitos e, por isso, também, de deveres.

Não é difícil imaginar que, se as coisas correrem bem, o novo sócio (absoluto) recolherá todos os dividendos, mas, também, que, se as coisas correrem mal, será este a arcar com a totalidade das despesas e dos problemas. Só por generosidade e bondade da parte do sócio que cedeu a sua parte é que poderá haver a assunção de responsabilidades, face às novas condições do contrato. Sublinhe-se: só por iniciativa do segundo sócio é que haveria assunção de responsabilidades por parte deste, dado que o novo contrato atribuíra totais direitos ao primeiro.

Ora, salvaguardadas as devidas diferenças (um filho não é um mero contrato ou negócio, bem certo!), o reconhecimento de que haja um ‘direito’ da mulher a abortar é tão válido como legitimar que o primeiro sócio, que ficou com o exclusivo da sociedade, possa vir reivindicar deveres ao que deixara de ter quotas na sociedade.

Dito de outro modo.

O filho gerado é fruto de dois. Reconhecer que houvesse um direito a abortar por parte da mulher suspenderia qualquer ‘direito’ do pai’, durante o tempo de exercício desse ‘direito a abortar’, restituindo-se ao pai os seus ‘direitos’ apenas depois do tempo de exercício absoluto da mãe.

Se se reconhecer que as mulheres que pretendem abortar o fazem porque a isso têm direito, daqui decorrerá, logicamente, que as mulheres que pretendem ser mães (ter filhos!) ficarão desprotegidas, porque nenhum pai estará obrigado a assumir responsabilidades quando, em todo o processo foi, afinal, excluído. Neste quadro, seria por pura arbitrariedade que se exigiria ao pai que assumisse responsabilidades em caso de não aborto, pois, afinal, ele tinha estado privado de quaisquer direitos, no período entre a conceção e o tempo legalmente previsto para a mulher exercer o seu ‘direito’. Como podem exigir-se deveres a quem não teve quaisquer direitos?

Pois é…

O problema é que toda esta visão que entende que haja um ‘direito ao aborto’ parte de pressupostos desajustados, o primeiro dos quais o de que um filho se constitua como um direito dos pais: os pais devem cuidar; os pais devem acolher; o filho não é um direito, mas, antes, alguém protegido pelo Direito!

Posta assim a questão, é fácil entender que toda esta discussão está virada do avesso.

Não deveria estar a discutir-se o possível (e denunciado como ‘absurdo’) direito a abortar, mas sim como comprometer, cada vez mais, o pai com o filho em gestação. O filho é gerado por dois, pelo que deve ser responsabilidade dos dois e, nunca, direito de um contra outro ou, sequer, contra todos.

Dado que o filho é gerado por dois, o filho terá de ser protegido pelos dois e, como sociedade que somos, protegido contra o mal que os dois possam pretender fazer-lhe.

Esta devia ser a linha a seguir.

E só assim se poderia compreender, com espanto e compaixão, que não podemos continuar cúmplices dos mais de 22 milhões de abortos que se realizaram, só no primeiro semestre deste ano, em todo o mundo. Os números deveriam despertar-nos para o que estamos a fazer.

O aborto é a falência de uma sociedade. Reconhecê-lo como um ‘direito’ soma absurdo a esta falência.

 

sábado, maio 21, 2022

É preciso salvar a liberdade…


Pensar é uma autêntica gravidez. Não fosse o conceito do âmbito da ‘conceção’. Pensar é, efetivamente, ‘conceber’ algo.

Há, porém, ideias fecundas e ideias perfeitamente estéreis e que esterilizam tudo em seu redor.

A ideia de liberdade é uma dessas ideias que, pela sua centralidade no contexto da modernidade, corre o risco de, sendo extremamente fecunda, se converter no fator de ‘esterilização’ dos demais conceitos que implica e com que se implica.

Entendamos porquê.

A ideia de ‘liberdade’ é, provavelmente, a mais generosamente referida nos contextos e discussões atuais. É, por isso, fundamental que nos entendamos, em primeiro lugar, sobre o que pretendemos dizer ao evocá-la e, em segundo lugar, que tenhamos a consciência de que, por se tratar de um conceito, é preciso saber quem são os seus ‘pai’ e ‘mãe’ para percebermos a genética do conceito que utilizamos, a fim de entendermos se nos reconhecemos no ‘filho’. Esta síntese implica, ainda, que tenhamos a consciência de que todos os conceitos são conceitos, isto é, não são factos, são formulações que dependem de determinados pressupostos e comportam consequências.

Com estes dados, partamos à descoberta do que estamos a dizer ao evocar a liberdade.

 

Liberdade: ‘fazer o que se quer’?

Espontaneamente, ‘liberdade’ costuma evocar a ideia de se fazer o que se quer. Liberdade máxima parecerá ser, com esta conceção aparentemente espontânea, a inexistência de constrangimentos a fazer o que se quer.

Precisamos de perceber o alcance desta visão para, eventualmente, a podermos criticar e, no limite, superar.

Para a analisar, é preciso compreender a fenomenologia da ação humana, isto é, é preciso perceber como emergem, nos sujeitos humanos, os atos que são, verdadeiramente, humanos e como se distinguem dos que não são humanos.

Para o entender, é preciso consciencializar que todo o ato verdadeiramente humano envolve o homem todo, não apenas parte de si.

Acrescente-se que todo o ato humano envolve as três dimensões do homem: a inteligência, que se manifesta no saber, no conhecer, na busca da verdade (no intelligo, na penetração do olhar ao interior das coisas…); o afeto, que se manifesta nas emoções, no sentir (é o que os clássicos definiam como o modo de acesso às coisas, o deixar-se ‘afetar’ por elas, tornando-nos ‘vulneráveis’ ao outro, aos outros…), e, por fim, a vontade, que se manifesta como ‘querer’.

Não será difícil, após este muito rudimentar esboço da fenomenologia da ação humana identificar, desde já, que a conceção de liberdade que a identifica como possibilidade de fazer o que se quer enferma de um limite anteriormente denunciado: o de se confinar a uma só das três dimensões: neste caso, à vontade (ao querer). Antecipamos, aqui, que esta redução da liberdade à vontade parece ter dois responsáveis: Schopenhauer e Nietzsche que, por vias diferentes, idolatraram a vontade de poder presente no Homem, tudo confinando e conformando a esta, com custos que iremos apreciar, ao longo deste texto.

 

‘A minha liberdade termina onde começa a do outro’?

Ora, uma tal redução, pela natureza própria do que é um conceito, implica tremendas consequências. É como se alguém entrasse numa autoestrada pelo acesso errado. Pode comportar quilómetros de erro e, no limite, uma viagem totalmente desviada do pretendido…

E uma das consequências está na própria escolha dos nossos ilustres autores novecentistas: a opção pela vontade. Esta define-se como ilimitado e de objeto indeterminado. Enquanto a inteligência tem um objeto específico e identificável – a verdade, o que é verdadeiro -, a vontade é, por natureza, imprevisível, só compreensível pelo próprio e insuscetível de antecipar pelos demais. A liberdade, confinada à condição de exercício de vontade, torna-se, assim, um conceito intrinsecamente individualista e solipsista.

Sim, neste contexto e nesta conceção, a liberdade (isto é, as vontades) estorvam-se umas às outras.

Sim, neste modo de entender, tem de se aceitar que ‘a liberdade de cada um acaba onde começa a do outro’, como terá definido Herbert Spencer, pelo que a liberdade de cada um só pode aumentar quando a do outro for limitada ou, no extremo final, quando a do outro desaparecer. Os outros são, então, como reconhecia Sartre, o ‘inferno’.

Um tal entendimento nasce do pressuposto de que a liberdade é exercício de vontade.

Mas, sê-lo-á, de facto?

Reparemos que a redução da liberdade à vontade comporta uma contradição insofismável: o seu exercício que deveria ser humano pode voltar-se contra aquilo que define, verdadeiramente, o que é o humano, isto é, a sua racionalidade. O que nos distingue dos demais seres é a racionalidade. Mas, se a liberdade – tão central e nuclear – é um exercício de vontade, pode prescindir e, no limite, opor-se à racionalidade. Será, ainda, humana uma liberdade assim?

 

Os factos demonstram a pertinência do conceito

Tornam notória esta denúncia os factos, apurados numa leitura fenomenológica.

Veja-se o seguinte exemplo.

Um toxicodependente quer muito, muitíssimo, o estupefaciente que o sossegue. É capaz, inclusive, de roubar; no limite, de matar!

Mas, - perguntemos com verdade – o seu ato de vontade (ato voluntário) é um ato livre? É voluntário, certamente (ele quer! Quer muito!), mas será livre?

A nossa conclusão parece pura retórica. Não o é, de facto.

E porquê?

Por aquilo que acabámos de constatar: o ato é voluntário, mas falta-lhe a iluminação racional para ser, de facto, ato livre.

Um ato livre não é o ato submisso à irracionalidade, à vontade, ao instinto (contrariamente ao que presumiam Nietzsche e Schopenhauer), mas antes o ato que mobiliza os afetos e a vontade ao que a razão lhe aponta como a melhor escolha.

E, com o desabamento da identificação de liberdade com vontade implode, também, o solipsismo de que o conceito aqui denunciado presumia.

Vejamos porquê…

A liberdade é uma condição (podemos vir a realizar atos livres porque somos intrinsecamente indeterminados previamente), é uma possibilidade (podemos ser livres ou não o ser em cada ato), mas é, também, uma realidade, isto é, um ato (se, como vimos, os nossos atos se conformam ao que a razão indica como sendo a melhor escolha. Não podemos deixar de recordar que a palavra liberdade nascerá do termo latino ‘libra’, que se refere à balança de dois braços que devem estar em equilíbrio…).

Seja como condição, seja como possibilidade, a liberdade implica sempre os outros, pois não nascemos de nós e não nos tornamos conscientes de nós por mérito nosso. Tomamos consciência de nós mesmos porque os outros humanos suscitaram em nós o despertar dessa consciência que estava em nós como uma potência que carecia dos outros para se tornar um ato.

 

‘Penso, logo existo’?

Digamo-lo de forma simples.

Contrariamente à presunção de Descartes, não é porque ‘penso que existo’; é, antes, porque os outros existem e se relacionam comigo que eu sei que existo. É porque existes e porque me fazes pensar que eu tomo consciência de que existo e posso, por isso, pensar.

O outro é condição de possibilidade de nós, do eu.

A psicologia, que o seja honestamente, evidencia-o.

Uma criança que fosse abandonada na selva, por volta dos três, quatro anos, poderia sobreviver, biologicamente falando, mas nunca teria consciência de si mesma. São os outros que despertam o eu que está em potência no interior de cada um.

Neste registo, as liberdades não se limitam umas às outras, mas antes projetam-se, promovem-se e só o são, enquanto atos, se despertam e potenciam as outras liberdades.

Não, não é verdade que a minha liberdade acabe onde começa a do outro (talvez, sim, as vontades se estorvem, mas já vimos que isso não é ‘a’ liberdade…); a minha liberdade só o é, de facto, se levar com ela a liberdade dos outros e as fizer serem cada vez mais liberdade.

Lembre-se, a título de ilustração, o que ocorre no mundo da economia.

Recorde-se o que aconteceu, após a II Guerra Mundial: a Europa ficou em cacos… Os Estados Unidos, apesar de serem preconizadores de um liberalismo tantas vezes solipsista, perceberam que não o poderiam ser, após a II Guerra. Se a Europa permanecesse destruída, a economia americana nunca seria pujante. Foi preciso, através do Plano Marshall, potenciar a economia europeia para que, com ela, se projetasse a economia americana.

Num outro âmbito, o da educação, podemos recordar como um pai ou uma mãe não o são mais se ‘esmagarem’ o crescimento do filho. Um pai ou uma mãe são-no na medida em que promovem o desenvolvimento do seu filho. Se não o fizerem, também eles, enquanto pai e mãe, se amarfanham.

É, por isso, fundamental, sair deste conceito solipsista, individualista e voluntarista de liberdade, responsável por um caminho que nos conduzirá a uma sociedade que não será mais do que, como afirma Manuel Braga da Cruz, ‘uma soma de indivíduos sobre um território’.

Há muito que vimos dizendo que se terá de passar de uma lógica de ‘indivíduos’ (que é um conceito quantitativo; somos ‘um’, ‘dois’, ‘três’ indivíduos, sem que tal nos defina, qualitativamente…) para uma lógica de ‘pessoas’, conceito que implica, intrinsecamente, a ideia de relação.

O mundo humano não é feito, primeiramente, de indivíduos, pensados em si mesmos, qual mónadas fechadas. O mundo humano é, primeira, relação, inter-relação, encontros.

Liberdade não é, pois, fazer o que se quer. É a possibilidade, a condição de possibilidade que nos permite escolher o que é melhor. Envolve-nos, totalmente, sob a iluminação da razão, da inteligência. Liberdade é algo intrinsecamente humano. É, aliás, um conceito que, pela natureza da definição aqui encontrada, implicada, essencialmente, a ideia de responsabilidade: responder e responder diante de alguém. Reduzi-la a um exercício da vontade é entregá-la ao sub-humano animal de que nos deveríamos levantar, mas a que muitos parecem querer fazer-nos regressar… É curioso constatar, aliás, que nunca se evocou tanto a liberdade, mas nunca, também, se pretendeu tanto reduzir os atos do indivíduos a causas que ele diz não controlar: a genética, a história pessoal, a sociedade, as circunstâncias, etc… Evoca-se a liberdade, mas num registo de desresponsabilização, o que, mais uma vez, denuncia a contradição do conceito. Ser livre é, intrinsecamente, responsabilizar-se e, por isso, compromete e exige estar em atitude de constante discernimento e não de volubilidade e anomia. Ser livre é, por isso, matéria de humanos integralmente entendidos, é uma conquista nunca terminada.

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...