quarta-feira, julho 12, 2023

Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ | Um Deus assim alimenta a esperança e o sonho

   

Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)

Pela mão de Ulisses, no regresso a casa depois da guerra de Troia, temo-nos mantido movidos pelo sonho do Éden. Desde o início, temos feito as pontes entre as duas mais profundas matrizes do ocidente: a influência greco-romana e a raiz judaico-cristã. Como diz George Steiner, no seu incontornável ensaio ‘A ideia de Europa’, na ‘nossa descendência dupla de Atenas e Jerusalém’ está um dos cinco axiomas para definir a Europa (p. 44 – edição de 2007 de Gradiva). Atenas e Jerusalém são, aqui, cidades-símbolo desta dupla fonte.

Fiéis a este nosso lento caminhar, olhemos, agora, em espelho, de que nos falam a ‘teologia’ de Atenas e Jerusalém.

A ‘teologia’ grega (é muito impreciso falar-se de uma teologia, neste contexto. Utilizo, aqui, o termo no sentido da visão sobre ‘o mundo divino’ e não considerando-a como uma detida e argumentativa reflexão…) não poderá alhear-se do seu multitudinário panteão, encimado pela trilogia de Zeus, Hera e Atena – replicados no Júpiter, Juno e Minerva romanos. Todos os deuses clássicos têm nascimento e fragilidades, revelam-se ciumentos e agressivos nas seus reações, ao ponto de Evémero, um siciliano dos séculos IV e III a.C. ter sustentado, como nos recorda Pierre Grimal, no seu dicionário da mitologia grega e romana (sigo, aqui, a edição da editora Antígona, edição de 2020), ‘que os deuses [gregos] são simplesmente homens a quem, pelos seus méritos, pelos serviços que prestaram aos seus semelhantes, foram prestadas honras divinas.’ (introdução, p. XLII)

E uma leitura atenta dos mitos gregos tornará fácil a adesão a uma tal abordagem, que a história consagrou como ‘evemerismo’, decorrendo do nome do seu proponente.

Zeus, o ‘mais importante deus do Panteão helénico’ (p. 468), é filho do titã Crono e de Reia. Sem me alongar na descrição dos mitos que se conservam sobre o deus maior da mitologia grega, sublinho um elemento que passará despercebido ao olhar distraído. Crono, o pai de Zeus, é o titã do tempo. Como nos recordam as mitologias a ele associadas, devora os seus filhos (tenho-o recordado, repetidamente: os gregos lembravam que o tempo (cronos) devora os seus filhos. Nisto, havia muita profundidade de leitura: o tempo devora-nos, de facto!). Para sobreviver, Zeus tem de ser escondido do pai, para que não o devore.

Tudo é trágico e muito comezinho. Tudo é humano, demasiado humano, para aludir a expressão de Nietzsche, esse pensador que nos pretendeu apresentar o cristianismo como decadente e a mitologia grega como o modelo.

Mas onde ficaria o sonho, onde ficaria a fonte da esperança se dos deuses nada mais poderia esperar-se do que encontramos, já, entre os humanos?

Jamais, de facto, poderia encontrar-se entre estes deuses uma qualquer sombra sequer de que o perdão pudesse ser a verdadeira fonte de novas relações entre os homens.

Terá de se esperar, de facto, pelo cristianismo, para se ousar afirmar que o amor não só possa vir a possuir-se como, afinal, que ele é, efetivamente, a origem última de tudo.

Quão longe está destas invejas e fúrias divinas a afirmação joanina de que Deus possa não só ‘ter’ amor, mas ‘ser’, Ele mesmo, Amor!

Tudo, na teologia judaico-cristã aponta para redenção. Tudo parece apontar, na mitologia greco-romana, para a tragédia.

Bem certo que a dimensão trágica nos desperta de toda a tentação de ilusão, mas teria de redundar numa insuperável desilusão?

Tal é a distância entre o desejo humano e a resposta de que nos fala o cristianismo que dificilmente se lhe poderá atribuir a condição de projeção, como pretenderam alguns descrentes do século XIX, com Feuerbach à cabeça.

Uma projeção entregaria o poder aos fortes.

A afirmação do lugar do amor e do perdão partilha o poder entre todos, tornando-nos credores e devedores uns dos outros, simultânea e incessantemente.

O evemerismo é insustentável quando aplicado ao cristianismo, por muito que o pretendam os Feuerbach de outrora e de hoje.

Bem recorda Berdiáiev, no seu ‘contra a indignidade dos cristãos’, que a verdadeira crítica às insuficiências dos cristãos não tem de procurar-se fora do próprio cristianismo, pois nele estão os critérios mais do que necessários para um exigente juízo. Como ele recorda, ‘a rejeição do cristianismo baseado na imperfeição e nos defeitos dos cristãos é, em essência, uma ignorância e uma incompreensão do pecado original. Para os que são conscientes da queda, está claro que a indignidade dos cristãos não desmente a dignidade do cristianismo, mas antes a confirma. O cristianismo é a religião da redenção e da salvação; anuncia que o mundo vive no mal e que o homem é pecador. Outras doutrinas pensam que se pode alcançar a vida perfeita sem ter vencido o mal de forma efetiva. Mas o cristianismo não pensa assim, antes exige uma vitória real, espiritual sobre o mal, um renascimento espiritual.’ (p. 155-156. Edição de 2019, das ediciones Sígueme)

Como poderia esperar-se a redenção se em Deus se n’Ele se projetassem os comportamentos humanos? Donde nos viria a esperança de deuses em tudo iguais aos humanos, igualmente egoístas e irascíveis?

Ah, quão oportunas são, nestes tempos cinzentos e nebulosos, as palavras de Berdiáiev que interpelam a que se regresse à fonte de que pode esperar-se a renovação, em tempos lamacentos e em que a indignidade dos que se dizem cristãos parece projetar-se sobre a própria dignidade do cristianismo!

O nosso sonho é o do Éden, não como um passado a que queremos regressar, mas como um horizonte para que queremos caminhar: o da correspondência ao Amor que Deus é!

terça-feira, julho 11, 2023

Cristianismo e mudança - O elogio da permanência

 


(Este ensaio é um ponto de partida, mais do que um ponto de chegada. Peço, a quem o ler, que tenha a delicadeza de o sorver como quem se deixa levar pela mão, sem prejuízos nem preconceitos… Apenas indo, indo…)

 

Tenho mudado. Muito! Basta-me a constatação de que, hoje, tenho 50 anos que não foram a minha idade de sempre (pois!) para me dar conta de que mudar é uma inevitabilidade, enquanto formos presença na História.

Sim, de facto, mudar é inevitável.

Restará, por isso, diante deste facto incontornável e observável, concluir que o humano é o mudar até se consumir, em definitivo?

Heráclito[1] de Éfeso parecia responder que ‘sim’ a tal interrogação que, não a tendo feito, se supõe nas sentenças que dele nos chegaram, em particular, pela mão de Diógenes Laércio, mas também em comentários de Platão e Aristóteles: ‘tudo muda’. (Copleston aventa a hipótese de esta sentença não lhe pertencer, mas a história guardou-a como da sua autoria.)

Arrisco dizer que, na resposta a tal interrogação, se encontrará o segredo para superar o paradigma prevalecente neste tempo definido como ‘pós-moderno’ (Lyotard), hipermoderno (Lipovetsky), ‘líquido’ ou ‘pontilhista’ (Zigmunt Bauman), ‘agorista’ e ‘apressado’ (Stephen Bertman), e entregue à ‘tirania do momento’ (Thomas Hylland Eriksen). Todas estas tipificações confluem para a ideia de que vivemos tempos massacrados pelo complexo da impermanência, pelo desejo ansioso e descontrolado de mudar, mudar, mudar, na certeza, enfim, de que se não mudarmos, não seremos!

Há algo de incontrolado neste sentimento profundo, coletivamente absorvido e entranhado, criando uma vertigem perante a qual o sujeito, individualmente considerado, se sente impotente, se é que ousa pensar que sente.

Soma-se a este entranhado sentimento, uma convicção inquestionada: não se fez, afinal, a história da humanidade, de grandes mudanças? Não estará, por isso, a escapar-me a mudança em que poderia sulcar o meu nome como protagonista?

E a vertigem avoluma-se.

Perante ela, a pergunta que parece impor-se é aparentemente óbvia: o que cabe mudar a seguir?

Um olhar atento e sereno à história da humanidade verificará, porém, um outro retrato, como se de um palimpsesto se tratasse[2]. A verdadeira história da humanidade é a que se faz e se fez da capacidade de conservar o que, até aí, era efémero. Veja-se como os grandes saltos da humanidade se deram quando se passou a ‘conservar’ na pedra o que não passava de imagens na cabeça (as gravuras rupestres); ou quando se passou a conservar, através da escrita, o que não passava de oralidade; quando se passou a poder conservar em papiro, em pergaminho, em papel, em qualquer outro suporte, o que era, por definição, efémero. Veja-se como se deram os maiores saltos quando se pôde conservar a energia, quando se pôde conservar os alimentos, quando se pôde conservar o que víamos e ouvíamos… Conservar foi a causa dos grandes saltos da humanidade. Pois mudar era o evidente.

Irene Vallejo, num livro sublime de título ‘o infinito num junco’, constata algo que cabe aqui somar ao que acabo de dizer: o que demora a estabilizar-se e fixar-se é mais durável do que o que chega e prontamente se instala. Diante desta constatação, ela conclui que é mais provável haver livros, dentro de cem anos, do que telemóveis. Porque o livro levou o tempo da ‘demora’ a permanecer… Não sei se o vaticínio de Vallejo se confirmará, pois o meu tempo de permanência foi mais veloz do que o do livro e não permanecerei, por isso, tempo suficiente para o verificar, mas antecipo verdade na sua conclusão.

Diante disto, ouso regressar a Heráclito e dizer-lhe que o humano não se define pela mudança. As rochas mudam, as plantas mudam, os animais também mudam. O ser humano, enquanto ‘cadáver adiado’, no dizer de Pessoa, também muda. O que define o humano não é isso. Antes, é a capacidade de se interrogar e responder à pergunta decisiva: o que importa guardar, conservar, perante a inevitabilidade da mudança?

Devia ser a pergunta do cristianismo, hoje, perante os desafios da mudança. Desafios da mudança que são, afinal, os de sempre, porque mudar opera-se sem necessidade da ação humana. Mudar é o facto; o que guardar é que cabe ao humano perceber. O que deve permanecer perante a inevitabilidade da mudança? Do resto se sabe que se sumirá no efémero…



[1] Sigo a grafia de Copleston, na sua única e insuperável História da Filosofia, vol. I.

[2] Um palimpsesto é um registo que se desconhecia existir sob um escrito visível feito num pergaminho. Dada a necessidade de reutilizar os pergaminhos, era frequente, na Idade Média, raspar-se um texto original e escrever por cima…

quinta-feira, julho 06, 2023

Ah, quanto se espera do cristianismo! | A encarnação diante dos novos gnosticismos

 (Artigo publicado na Agência Ecclesia - 3 de julho de 2023)

Nas décadas que antecederam o Concílio do Vaticano II, foi-se consolidando uma convicção (que tivera no movimento litúrgico já notória expressão) de que o encontro fecundo entre a Igreja e a sociedade (e o mundo) não poderia fazer-se sem um retorno às fontes. É, aliás, nesse dinamismo que é criada, pela mão de Daniélou, Lubac e Mondésert, em Lyon, em 1943, a célebre coleção ‘Sources Chrétiennes’.

Este modus cogitandi (modo de pensar), dada a sua fecundidade, deve ser retomado, vez após vez, em particular, em tempos de maior dificuldade em discernir onde se encontra o equilíbrio entre a fidelidade ao que deve propor o cristianismo e a fidelidade ao Homem a quem se dirige. Pela sua natureza tensional, este método comporta um equilíbrio entre dois pontos que asseguram que a tensão não é perdida, sendo que a retirada de um dos pontos quebra a mesma tensão, com custos, seja para a fidelidade ao Homem, seja para a fidelidade ao cristianismo.

Vivemos um desses tempos…

Exige-se, por isso, o regresso às fontes, não para nelas permanecer (perder-se-ia a tensão com prejuízo para a fidelidade ao Homem e ao seu tempo, com consequente infidelidade ao próprio cristianismo que se define como religião de salvação da Humanidade…), mas para que o cristianismo seja significativo, permanecendo fiel a si e sendo-o, também, ao Humano para quem é anúncio de salvação.

Regressemos, por isso, às fontes…

Os nossos tempos trazem desafios ‘generosos’ ao cristianismo, perante os quais a tentação da desistência se agiganta. O regresso às fontes permite, porém, constatar que, feitas as devidas adequações, os desafios recuperam encontros já havidos, no tempo das fontes.

Veja-se que o primeiro desafio do próprio cristianismo foi o do confronto entre a sua emergência localizada, precisamente situada na quase incógnita Palestina, e o cosmopolitismo do helenismo com que se encontra, de forma particularmente exigente, São Paulo. Logo nesse encontro se define com precisão a necessidade do estabelecimento de critérios de fidelidade: distinguir o essencial do acidental é um desses critérios estruturantes. Eram acidentais os rituais herdados do judaísmo; era fundamental a afirmação da encarnação. E veja-se como este elemento fundamental (a encarnação) não se afigurava como marca de fácil conformação ao pensamento vigente. Pelo contrário.

Se estudarmos, com detenção, esses primeiros tempos, percebemos que o primeiro grande embate do cristianismo que – defendo-o desde há muito – se retoma, hoje, no transumanismo e na ideologia de género, é, precisamente, o que resulta dessa afirmação: Deus encarnou!

O helenismo trazia consigo um modo de pensar de influência platónica que veio a seduzir as primeiras comunidades cristãs, num amplo movimento designado como gnosticismo. No dizer de Roque Frangiotti, no seu livro ‘história das heresias’, “os gnósticos […] caracterizam-se pelo menosprezo da matéria, da carne e superestimam a alma-espírito. Para eles, a matéria é má em si mesma, incapaz e desnecessária para a salvação. Mais ainda: a matéria é radicalmente oposta ao espírito. São realidades contraditórias. Por isso, Deus, o espírito perfeitíssimo, transcendente, imutável e impassível, não pode, por nenhuma razão, assumir qualquer parcela de matéria.” (Roque Frangiotti, p. 27)

Não será difícil constatar que com esta mentalidade se confrontou o próprio S. João que, nas suas cartas, escritas em finais do primeiro século ou início do segundo, alerta para a centralidade da encarnação.

Afirma, em 1jo 1,1 (sigo a recente tradução que vem sendo disponibilizada pela Conferência Episcopal): “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram, no que respeita à Palavra da vida: é isso que vos anunciamos. Pois a vida manifestou-se, nós vimo-la e disso damos testemunho: anunciamos-vos a vida eterna, que estava junto do Pai e que se manifestou a nós.”

Assim também em 1jo 4,1-31: “Amados meus, não acrediteis em todos os espíritos, mas examinai-os para ver se são de Deus, porque no mundo surgiram muitos falsos profetas. É nisto que reconhecereis o Espírito de Deus: todo o espírito que confessa Jesus Cristo, que veio na carne, é de Deus; e todo o espírito que não confessa Jesus não é de Deus. Esse é o espírito do anticristo, aquele que ouvistes dizer que estava para vir; pois bem, agora já está no mundo.

E, ainda, em 2jo7: “É que surgiram no mundo muitos impostores, que não confessam que Jesus Cristo veio na carne. É esse o impostor e o anticristo!”

A uma leitura menos fina, poderá parecer que o gnosticismo estará longe do que hoje são os desafios do cristianismo. Na minha perspetiva, esta conclusão será precipitada, pois uma das consequências evidentes do gnosticismo foi a relativização da corporeidade, dispensando, por isso, o corpo da sua natureza de entidade intrinsecamente moralizável. O corpo, para o gnosticismo, não é parte da condição humana, escapa-se-lhe e é, por isso, exterior à própria economia salvífica. Só o espiritual se salvará. E, logo, o corpo escapa à moral e à ética, podendo-se fazer ‘com’ e ‘nele’ o que bem se entende. O Homem que somos, na mentalidade de matriz gnóstica, nada tem a ver com o corpo, que lhe é exterior e alheio.

Veja-se como não estamos longe de uma matriz vigente que exclui o corpo do ser que somos, transumanizando-o e reduzindo o Homem ao pensamento que nele apenas ‘reside’. (Como se não pensássemos tudo o que vivemos, isto é, como se não fosse o nosso pensamento a repercussão do que vivemos enquanto corpo que somos!... Pelo contrário, o que pensamos é, na linha de Merleau-Ponty, “corpo vivido”….).

E como respondeu, no tempo das fontes, o cristianismo?

Reconheceu, com Santo Ireneu, no seu Adversus Hereses (livro IV, 11,2) que ‘Deus faz, o homem é feito’, sublinhando a progressividade e carácter desenvolvimental do ser humano, condição inerente à natureza de ser corpóreo, sublinhando que “a glória de Deus é o homem vivente” (Livro IV, 20,7 – sigo tradução não editada do saudoso Pe. Doutor Franclim Pacheco). Não, parte do Homem, mas, sim, a totalidade do Homem.

Uma análise detida das implicações desta ideologia diante da qual se espera o anúncio da encarnação, por parte do cristianismo, permitir-nos-á verificar que, sem a afirmação de que o corpo faz transparecer a pessoa que somos, estaremos diante de uma antropologia solipsista, em que o que aparece, diante dos outros, é opaco e indecifrável. É, por isso, necessário retomar a centralidade do princípio ‘encarnação’ e reafirmar, aos nossos tempos, que quem somos se vislumbra, ainda que provisoriamente e sempre como mistério a descobrir, mais e mais, no corpo que somos.

O regresso às fontes permite-nos recuperar a esperança de que estes não são os últimos tempos e de que muito se espera do cristianismo: que salve o Homem de se fechar em si mesmo, tentação tão densamente descrita no relato do paraíso. O Adão que quer fechar-se e ser autossuficiente continua, dia após dia, a ouvir os passos, no jardim, e a esconder-se por vergonha… Ou talvez já nem vergonha tenha, mas continuará, certamente, a sentir o som dos passos. E é preciso não ter medo de percorrer o caminho do Éden e dar a ouvir os passos que nos dizem que estamos nus.

quinta-feira, junho 01, 2023

Regresso a Ítaca no sonho do Éden | Do ‘meio-homem, meio-peixe ou meio-pássaro’ ao ‘verdadeiramente Homem, verdadeiramente Deus’! (Ou de como o nosso ‘regresso’ nos leva do Furadouro a Calcedónia…)

   Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)

 

O medo e o perigo acompanham as mais longínquas e enraizadas histórias míticas de seres que eram ‘meio-homem, meio-animal’ (seja pássaro, seja peixe…). As trevas e o abismo devorador estão enlaçados com a descrição de seres que, por serem metade humanos, metade animais, se caracterizavam, paradoxalmente, por possuírem um poder sedutor. E o que terão tais narrativas míticas a ver com este ‘regresso a Ítaca no sonho do Éden’? Onde se encontram ou divergem, aqui, a cultura clássica e o cristianismo?

Antes de nos lançarmos a estabelecer essa ‘ponte’, partilho uma confidência. A matéria que dará corpo a este texto nasceu de forma muito improvável: uma visita à casa-museu Júlio Dinis, em Ovar, ocasião em que soube da existência de um conto do autor de ‘as pupilas do senhor reitor’, para mim, até então desconhecido. Aliás, desconhecido, ainda hoje, de significativa parte do grande público, e só descoberto por estudo feito pelo médico Egas Moniz, em 1924. O título: ‘o canto da sereia’. Segundo nos é dito na apresentação deste conto, Egas Moniz encontrou numa lenda de Pardilhó (Estarreja) a base que terá servido de mote para o conto criado por Júlio Dinis, no período em que esteve enfermiço em casa de uma tia, na então vila piscatória de Ovar (de maio a setembro de 1863).

Ao ler este conto[1], enquadrável no género dos contos fantásticos, dei-me conta de quão enraizadas estão as histórias de sereias, esses seres dotados de um poder sedutor a que dificilmente os sujeitos humanos se conseguem opor.

Recordei, ao ler a história contada pelo Ti’ Cabaça, passada em terras do Furadouro, e que tem em Pedro do Ramires o protagonista, a difícil viagem de Ulisses no seu regresso a Ítaca, ao passar pela ilha das sereias. Na epopeia de Homero, estas são mulheres-pássaro que, pelo seu canto, atraem para a morte, tendo a Circe recomendado a Ulisses que selasse com cera os ouvidos dos seus companheiros e que se prendesse ao mastro da nau.

Dois traços retêm a atenção de quem lê estas histórias: por um lado, estes seres, metade humanos, metade animais, são sedutores, mas atraem para o abismo; por outro, estão associados ao mar, que na cultura antiga, era sinal abissal e associado ao mal. Dali, nada de bom poderá vir, exceto perigos e perdição. (Não será difícil reconhecermos nestes traços as ‘tintas’ com que se pintavam os mitos que tomavam conta da cabeça dos nossos primeiros navegadores e tão poeticamente descritos por Camões, n’Os Lusíadas.)

Em síntese, recolhamos, para o nosso ‘regresso’, estas duas notas: a sedução para a perdição por parte de seres que são quimeras (meio-humano, meio-animal) e o perigo do mar.

E que ponte poderá estabelecer-se com o cristianismo? Que ‘redenção’ poderá esperar-se deste para estes tão radicais medos?

O mar parece ser abissal, no texto bíblico, e, com ele, as próprias águas. Mas essa seria uma conclusão precipitada se excluirmos a dimensão redentora com que as diversas narrativas bíblicas se acercam do elemento ‘mar’.

Bem certo que as águas destroem, pelo dilúvio, separam da salvação, antes de se abrirem fazendo barreira à direita e à esquerda, distanciam e afastam da salvação que se espera, em Nínive, etc. Mas essa é apenas parte de cada narrativa bíblica, pois só há salvação do que precisa de ser salvo. E a salvação é a resposta bíblica.

Essa mensagem é particularmente visível na narrativa de Mateus 14, 22-33.

É noite! (Mais um símbolo do abismo…) Jesus, após ter despedido as multidões, pede que o levem para a outra margem do mar da Galileia, para rezar. Sem grandes elementos intermédios, percebemos que o barco regressa ao mar, ficando Jesus no monte. O mar está encapelado, enchendo-se os discípulos de medo. O medo! Sempre o medo e o que ele significa de perigo e sedução do abismo.

Sem que percebam que é Jesus, este acerca-se deles, caminhando sobre as águas (que já não têm poder sobre Jesus… Ele é superior ao abismo que o mar representava.) Neste passo, Mateus revela-nos que – ao contrário do que acontece nas narrativas gregas – a palavra dita, proferida, não seduz para levar para o abismo (como acontecia com as sereias), mas antes é libertadora. Jesus não diz palavras para seduzir para o abismo. Antes, assegura que o abismo já não vence: ‘Tranquilizai-vos! Sou eu! Não temais!’ Termina a perícope afirmando que, perante o amainar do mar, ‘os que se encontravam no barco prostraram-se diante de Jesus, dizendo: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!»’ O abismo já não tem poder de seduzir para destruir. Antes, está definitivamente vencido, na linha do que se afirma no credo dos apóstolos que profere que Jesus ‘desceu ao reino dos mortos’, não porque este tivesse o poder de o levar, mas sim para que atue o poder redentor daquele que diz ‘Eu Sou!’.

Fixemo-nos, agora, no outro elemento da nossa síntese inicial: os seres ‘quimera’ (meio-humano, meio-animal)…

Ao afirmar ‘Eu Sou’, expressão recordada por este evangelista que terá escrito para judeus, Jesus está a afirmar a sua divindade. Com efeito, ‘Eu Sou’ é expressão muitas vezes associadas a um ‘cair por terra’ da parte dos que a ouvem, pois ela evoca a própria teofania de Deus, no Sinai, quando Se apresenta como ‘Eu Sou Aquele que sou’ (Yahweh).

Curiosamente, porém, Jesus não é ‘metade Homem, metade Deus’. Ele não é uma quimera. Às quimeras associamos, como anteriormente descrito, o perigo e a ambiguidade que seduz para o abismo. Vejamos o que consagrou o concílio de Calcedónia, em pleno século V, contexto de acesas polémicas sobre a identidade e a presença das duas naturezas na pessoa única de Jesus Cristo.

Diz o Concílio de Calcedónia (451), quarto concílio ecuménico, na quinta sessão (22 de outubro de 451), onde formula o ‘credo de Calcedónia’, acerca das duas naturezas em Cristo: “Seguindo, pois, os Santos Padres, ensinamos unanimemente que há que confessar um só e mesmo Filho e Senhor nosso Jesus Cristo: perfeito na divindade, e perfeito na humanidade; verdadeiramente Deus, e verdadeiramente homem <composto> de alma racional e corpo; consubstancial ao Pai segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado; gerado do Pai antes dos séculos segundo a divindade, e nos últimos dias, por nós e pela nossa salvação, gerado de Maria Virgem, a mãe de Deus, segundo a humanidade.” (Tradução nossa, a partir da edição de Heinrich Denzinger e Peter Hünermann, El magistério de la Iglesia: Enchiridion symbolorum definitionum et declarationum de rebus fidei et morum, Barcelona, Herder, 1999, n. 301

Jesus Cristo não tem as características de uma quimera, em que cada uma das naturezas tem de ceder espaço à outra para poder existir. As duas naturezas estão presentes, plenamente, numa afirmação clara de que Deus não anula o homem nem a plenificação deste significa a anulação de Deus. Ele é ‘verdadeiramente Deus e verdadeiramente Homem’. Uma tal verificação contraria, aliás, as presunções da história, em particular do século XIX, onde algumas correntes ateias pretenderam denunciar que a fé religiosa significaria a anulação do ser humano. A afirmação de Calcedónia rejeita tal conclusão. Jesus não é, à maneira das sedutoras sereias, voz que atrai para o abismo, supondo que uma natureza limite a outra: pelo contrário, na Pessoa de Jesus Cristo, explicita-se que a realização máxima do Homem não significa o recuo de Deus, assim como a plena expressão de Deus, na História, não comporta o esvaziamento da humanidade.

A voz que atraiu Pedro do Ramires para o abismo era a de uma quimera, assim como a que obrigara Ulisses a prender-se ao mastro. A Palavra, que é o Verbo encarnado, atrai, mas já não para o abismo; antes eleva e redime os limites que se simbolizavam no mar, enquanto metáfora do abismo. E só é possível porque, n’Ele, as duas naturezas estão completas, sem se limitarem uma à outra.



[1] Li a edição de 2021, da Oro, apoiada pela Câmara Municipal de Ovar e pelo Museu Júlio Dinis, e coordenada por José Licínio Pimenta e António França.

terça-feira, maio 16, 2023

Confissão sentida de um rapaz que foi, por muito tempo, ‘uma’ criança…

 [Este texto é um mero exercício de ironia. Escrevi-o (hoje, convém assegurá-lo…), mas o que nele se defende não corresponde ao que defendo.]

 

Não fosse o marxismo cultural e, com ele, a novilíngua, e nunca me teria descoberto alienado. Mas assim sou, de facto.

Vivi todos estes anos certo de me pertencer, mas descubro que, afinal, vivi uma alienação de que o marxismo cultural me anuncia libertação para breve. Conto com isso, pelo menos.

Senão, vejamos…

Hoje, o marxismo cultural tomou em mãos libertar-nos de uma linguagem que pensávamos plataforma de entendimentos convencionados, mas que percebemos ser, afinal, lugar de opressões de que urge (já peca por tardia essa libertação, garantem-nos!) libertarmo-nos… Onde víamos, até agora, meras convenções que nos facilitavam entendermo-nos, encontramos, agora, com um arregalar de olhos, marcas de escravatura e de machismos reprimidos e opressores.

Libertemo-nos, por isso!

É nessa onda que, após a minha mais entranhada surpresa, decidi empapar esse processo de libertação dos elementos da minha causa.

Descobri que vivi sob uma identidade que me impingiram através da linguagem, identidade desfocada e desajustada daquilo que sou, pelo que me somo aos que pedem que adequemos os termos aos sujeitos a que se refere.

Vejamos, então, o que descobri e constatemos como é urgente que outros somem vozes aos que pedem acabar com os machismos ou as marcas de colonização e outros sinais opressores e desrespeitadores de todas as identidades.

Eu tenho a minha causa a associar a essas vozes.

Pois bem. Cá vai.

Nasci rapaz, mas – vejo, agora, de forma opressora – passaram o tempo a dizer que eu era ‘uma criança’ (Como assim? Que desrespeito para com a minha masculinidade designarem-me como 'a' criança. Constato, agora, por mérito do marxismo cultural, que tal me terá traumatizado, sem que de tal tomara consciência até hoje...).

Não satisfeitos, cresci e passei da infância (eu era um rapaz!) à adolescência (confusão total!) e, desta, à juventude (Irra! Tanto feminino para dizer a vida de ‘um’ rapaz já é abuso!).

E, como se não bastasse, elogiavam-me o que recebiam de mim: a minha voz!

Certamente, nesse desajuste de identidades, procurei refúgio no interior. E o que encontrava, dentro de mim?

Uma alma!

Uma alma? Mas, eu era um rapaz!

Cresci…

Esperei (tomo agora consciência disso, graças ao marxismo cultural que me veio libertar desta opressão de que eu nunca tivera consciência…) pelo avançar da idade (mais uma vez… ‘A’ Idade!) e no que me tornei?

Numa pessoa adulta!

- Bolas! Mas quando é que eu sou quem sou, se afinal a linguagem só me diz no feminino?

E se me dizem que eu sou ‘um homem’, logo me atalham que isso é ‘a minha identidade’…

(Não me livro da opressão feminina que se me impõe…)

A minha descoberta desta dimensão opressora da linguagem que devo ao marxismo cultural gera, porém, uma perplexidade que não consigo superar.

Estranho porque não se entusiasmam os rapazes com ‘a escola’ (talvez por esta ser de provecta idade…). Mas sempre poderiam apaixonar-se pelas ‘disciplinas’, pelas ‘cadeiras’ e, então, se as tratarem pelo nome, o entusiasmo redundará em paixão: ‘a’ Matemática, ‘a’ literatura, ‘as’ ciências (que promiscuidade!), ‘a’ geografia…

Bem, a causa de tal perplexidade ainda está o marxismo cultural por perceber, mas lá chegará a hora em que vislumbrará que libertação nos merecerá nova batalha…

Ah, que felicidade ter descoberto este marxismo cultural que me permitiu descobrir quem sou e que, teimosamente, a linguagem oprimia em redes de escravaturas de liames ocultos!

Ou será sufoco o que me toma a voz que oculta a identidade marcada pela idade de pessoa nascida de uma criança feliz?...

 


segunda-feira, maio 15, 2023

A síndroma do ultrapassado e a religião como antídoto contra os fundamentalismos

Onde há medo, não há liberdade.

Com este pressuposto, tenhamos em conta que nos apavora sermos ultrapassados pela última onda de novidade. Como poderemos sobreviver ao facto de não nos vermos a ‘surfar’ a última onda de mudanças? Vivemos como que oprimidos e amarrados a uma síndroma que nos impede de decidir com tranquilidade: a síndroma do ultrapassado.

Não é de hoje (enraíza-se nos já longínquos tiques setecentistas e oitocentistas do tempo dos estrangeirados em que temíamos que nos escapasse o lugar singular na história…), mas a volatilidade dos tempos, a voracidade das mudanças e a universalização do ‘clique que muda a história’ na ponta da espada digital, tornaram esta síndroma particularmente incapacitante.

Vislumbro nesta vertigem sedutora uma manifestação de um novo absolutismo de tipo ‘crónico’ (de ‘crónos’ - ‘tempo’), constatação que me leva a recuperar uma ideia que tem germinado em mim, desde há muito, e que passo a explicar.

Contrariando uma difundida tese de que o fundamentalismo tem origem religiosa (defendo que os fundamentalismos nascem do medo e de um desejo de poder que é anterior à própria religião, o qual a instrumentaliza), sustento que o verdadeiro ‘antídoto’ contra o ‘veneno’ das verdades absolutas, na história, está, precisamente, nas religiões e que, sem elas, ficaríamos privados das únicas que podem superar, sem cair no relativismo, os perigos de todos os absolutismos.

Explico-me melhor…

A absolutização das verdades, na História, pressupõe que a alternativa a esta absolutização seja o relativismo; do mesmo modo mas em sentido contrário, os relativistas parecem pressupor que são a única alternativa possível à ideia de verdades absolutas e inamovíveis.

Uma e outra convicção são insuficientes e esquecem a alternativa em que as religiões não panteístas são a resposta abstratamente a considerar.

Para entendermos o alcance desta afirmação, tenhamos em conta que as religiões não panteístas (as que distinguem Deus do mundo, não fundindo uma e outra realidade) pressupõem, de forma implícita (mas também explícita), duas condições fundamentais para se problematizar a questão da verdade: que o Absoluto está para além da história e que esta (a História) está em tensão para esse absoluto.

Estas duas condições, reunidas e mantidas unidas, constituem o quadro para a terceira via entre o absolutismo e o relativismo gnosiológico e epistémico.

Por um lado, ao pressuporem que o Absoluto está para além da História, as religiões sublinham que a ninguém deve caber a veleidade de entrincheirar a verdade e impô-la aos outros como sendo definitiva e sem desenvolvimento (mesmo no caso dos dogmas católicos esta consciência está presente, ao falar, na senda do que preconizou o cardeal John Newman [1801-1890], da história do desenvolvimento dos dogmas[1]). Wolfhart Pannenberg [1928-2014], considerado ‘o mais católico dos teólogos protestantes’ sublinhou esta ideia da ‘conquista’ sempre heurística e nunca definitiva da verdade ao afirmar o carácter proléptico da realidade, na qual se antecipa o ‘definitivo’ da História em acontecimentos densamente simbólicos, nos quais se densifica a tensão para o definitivo, no relativo da finitude histórica. Em eventos particularmente teofânicos, antecipa-se o sentido definitivo da história, mas esses momentos prolépticos escapam ao ‘aprisionamento’ no finito. A prolepticidade não é pretexto para uma ideia de ‘absoluto’ conquistado, mas antes sublinha a tensão entre o relativo e o absoluto, evidenciando que o que é particularmente simbólico, na história, deve a sua natureza, não à possibilidade de se absolutizar o agora, mas à abertura do agora e do finito ao infinito, para o qual tende. O absoluto nunca é conquistado e ‘aprisionado’, mas deixa-se vislumbrar, prolepticamente, no finito[2].

Esta condição da realidade faz dela, no dizer de Leonardo Boff[3], transparente: nela ‘transparece’ o transcendente, que não se confunde com ela. O relativo permanece relativo; o absoluto permanece absoluto, mas aquele tende para este.

É esta tensão que se perde numa visão absolutista ou numa visão relativista. Na primeira, a tensão perde-se por fundir no absoluto o relativo; na segunda, por se perder a noção de se encaminhar para o absoluto.

Só as religiões não panteístas podem assegurar essa tensão. Consciência que, bem certo, em muitos momentos da história, elas próprias esqueceram, mas que, como bem recorda Nicolai Berdiaiev no seu ‘contra a indignidade dos cristãos’[4], está nas próprias religiões (em particular, no cristianismo) o antídoto contra os seus próprios limites.

Como pertinentemente observa o não crente Alain de Botton, no seu ‘religião para ateus’[5], jamais a humanidade conseguiu elevar as diversas dimensões e áreas do saber humano para além do que foi conseguido pelas religiões. Contrariamente, porém, a Alain de Botton, não acho que seja por uma insuficiência do saber secular e profano, mas por mérito da religião.

Saberão as religiões permanecer fiéis à sua natureza, nestes tempos radicalizados e extremados entre absolutismos e relativismos?



[1] Cardeal Newman, Apologia, S/L, Verbo, 1974.

[2] Cfr. estas e outras ideias sobre o pensamento de Pannenberg em Luís Manuel Pereira da Silva, Teologia, ciência e verdade. Fundamentos para uma definição do estatuto científico da teologia segundo W. Pannenberg, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2004.

[3] Cfr. Leonardo Boff, Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos, Petrópolis, Vozes, 1993.

[4] Nicolái Berdiáiev, Contra la indignidad de los cristianos. Por un cristianismo de creación y libertad, Salamanca, Ediciones Sígueme, 2019.

[5] Alain de Botton, Religião para ateus. Um guia para não crentes sobre as utilizações da religião, Alfragide, Publicações Dom Quixote, 2012.

quarta-feira, maio 10, 2023

Um diálogo em condições...

 

Os nossos tempos têm medo… Medo de tudo, mas, particularmente, do outro, do diferente de si próprio. Temos medo daquele que vem de outro lugar, do que pensa de outro modo, do que crê de forma diferente… Por paradoxal que pareça, porém, muitos tomariam estas primeiras afirmações como defesa de um pronto acolhimento das agendas ditas ‘da diferença’. Há, contudo, que reconhecer que uma das maiores promotoras deste medo do outro, do diferente, é, entre outras, precisamente, a ideologia de género (e outras agendas agregadas) que promove um individualismo que fecha cada um em si mesmo, como que revisitando a régua de Protágoras e dando-lhe um novo sujeito: ‘o indivíduo é a medida de todas as coisas’…

Impõe-se, por isso, superar os medos, superar os individualismos enclausurantes, e partir em direção ao outro, ao tu, diante de quem nos definimos como ‘eu’.

A etimologia da palavra ‘diálogo’ ajuda a perceber o alcance desta minha última afirmação.

Uma etimologia fina do que nos diz a palavra ‘diálogo’ permite-nos concluir que ela afirma que a ‘palavra percorre um caminho que vai de um a outro sujeito’. Poderíamos traduzir a palavra ‘diálogo’ como ‘a palavra ao longo de, através de’, como que afirmando que existe uma ‘tensão’ natural, fundamental, que é condição para que a palavra se sinta atraída a sair de um e dirigir-se a outro.

À luz desta etimologia, percebe-se que, para haver diálogo, é necessário assegurar duas condições. Condições que, quando inexistentes, criam o cenário em que se representam os extremismos de direita ou de esquerda.

São essas condições as seguintes:

- Por um lado, diferença;

- Por outro lado, abertura.

Os tempos em que vivemos, radicalizados, polarizados, esquecem uma ou outra condição.

Ora afirmam que, em nome do ‘diálogo’ se fundam as identidades, se omitam as identidades, se neutralizem as identidades, como se tal assegurasse as boas condições para o diálogo. Nada mais errado. A ocultação das identidades impede o diálogo, funde as vozes num monólogo, redundando, por fim, na gritaria dos que elevam mais alto a voz.

Contra esta visão, deve afirmar-se a importância das identidades, da história, da memória, na linha, aliás, do que sustenta a nossa Constituição, quando se refere à natureza da relação entre Estado e Igrejas, e onde se evita uma ideia de laicidade compreendida como silenciamento das religiões ou neutralidade opaca do Estado. A nossa Constituição, ao evitar os termos ‘laico’ e ‘laicidade’ para definir a relação da III República com as religiões, foi sábia, pois compreendeu as lições da História e definiu que a República se relaciona com as religiões como parceiras e como cooperantes na construção da sociedade. A nossa Constituição defende a separação entre Estado e Igrejas, não em nome de uma indiferença e fusão de identidades (neutralizando-as), mas sim em nome da liberdade e identidade religiosa. Evita, com sabedoria, os erros da Constituição francesa que utiliza o termo ‘laica’, criando um problema com as religiões que, felizmente, Portugal não tem.

É esta sabedoria que deveria ter-se sempre que a matéria é diálogo e encontro de culturas. O diálogo não supõe, a esta luz, uma fusão, uma neutralidade das identidades, mas, antes, supõe-nas. Sem identidades, a palavra não percorre um caminho; antes, pára, estagna, não circula…

Este é o risco dos radicalismos de esquerda.

A outra condição é a abertura. Abertura que tem a consciência de que ninguém nasce de si, ninguém se gera a si mesmo, ninguém pode constituir-se como ‘eu’ sem ser diante de um ‘tu’.

O medo do outro, enclausurado numa máscara que faz dele sempre alguém sem virtudes, aprisiona e contradiz o axioma de que sem os outros nunca teríamos consciência de nós mesmos. É diante do outro que nos definimos e não sem o outro. O outro não deveria, por isso, suscitar-nos medo, mas gratidão. O outro é como que a nossa condição de possibilidade, pois, como tenho vindo a afirmar, repetidamente, a nossa liberdade não termina onde começa a do outro (como defendeu Herbert Spencer, preconizador do liberalismo clássico), como se o outro nos limitasse, nos oprimisse e fosse o impedimento para o nosso desenvolvimento, mas antes, a nossa liberdade só é efetiva se crescer com a do outro, se promover a do outro e só germina com a do outro.

O esquecimento disto é o erro dos extremismos de direita.

Radicalismos de esquerda, que fundem as identidades e as neutralizam, ou de direita, que isolam e fecham em si mesmos, esquecem uma das duas condições, absolutizando apenas uma delas.

Ao afirmarem essa condição, que pretendem proteger, parecem seduzir e atrair, mas é sempre bom lembrar aos que, entre os católicos, se identificam com o radicalismo de esquerda ou com o radicalismo de direita que o segredo da catolicidade está em não tomar apenas uma parte, como tantas vezes fizeram as ‘heresias’ (‘heresia’ quer, precisamente, dizer ‘escolha’, ‘opção’, ‘parte’). A verdadeira sabedoria católica está em não ficar com uma parte: é preciso tomar o todo.

E assim haverá um diálogo em condições… Todas!

terça-feira, abril 11, 2023

Regresso a Ítaca no sonho do Éden | A Graça ou o destino?

 Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)

Prossigamos a nossa viagem…

Regresso a Ítaca. O sonho está no Éden.

Este já longo percurso tem-nos levado a refletir sobre duas fontes estruturantes da nossa cultura ocidental: a cultura clássica, principalmente a grega, e a matriz cristã. Neste caminho, temos encontrado pontos de convergência e distinção.

Hoje, o nosso olhar deter-se-á numa das que considero ser uma das maiores dívidas do mundo ao cristianismo: a liberdade!

Para muitos, soará a paradoxal esta enunciação, pois um muito consolidado preconceito tem vincado a ideia de que liberdade e cristianismo são termos que não conjugam. 

Mas é difícil estar mais longe da verdade do que quando se defende esta preconceituosa ideia.

Na verdade, o olhar atento e honesto sobre o que nos legou e continua a legar o cristianismo não pode senão levar-nos a concluir que a liberdade é conquista definitivamente proporcionada pelo cristianismo. E percebamos, então, porquê.

Já em anteriores etapas da nossa reflexão recordei que as histórias de Édipo, de Antígona, de Cassandra, de Sísifo, etc., são marcadas por uma dimensão trágica resultante de uma visão que faz depender estas personagens de um destino que ninguém consegue contrariar.

Somo a estas constatações a ideia de que os gregos tinham a convicção de que o poder das moiras, as deusas do destino, chegava a ser superior aos próprios deuses, tudo submetendo sem apelo nem agravo. 

A visão cristã, que, infelizmente, tantas vezes, continua impura mesmo entre os cristãos, fruto de forte ambiência cultural envolvente, apresenta uma perspetiva diametralmente oposta. 

A ideia que concentra esta nova visão sobre o mundo e sobre o homem e a sua história, condensa-se na ideia de Graça. Graça deverá ser – como tantas vezes tenho recordado aos meus alunos – não tanto como um ‘substantivo’, mas como um adjetivo que qualifica a ação de Deus para com a Sua criação. Graça define essa ação como sendo ‘gratuita’, generosa, entregue sem ser devida. Puramente dada e, por isso, também puramente e gratuitamente recebida.

Recordo, para ilustrar o alcance desta visão especificamente cristã, o que afirmava, há uns anos, o vocalista dos U2, Bono Vox, um conhecido cristão de confissão católica que reflete na sua vida e arte esta perspetiva. Diz Bono Vox numa série de entrevistas de Michka  Assayas, editadas pela editora Ulisseia, em 2005: “Repara [que] no centro de todas as religiões há a ideia de Karma. Vê bem, aquilo que fazes volta para ti: olho por olho, dente por dente, ou, na física – nas leis físicas – a cada ação equivale uma igual ou oposta. É claro para mim que o karma está no centro do Universo. Tenho a certeza absoluta. E ainda assim, aparece igualmente este conceito de Graça para dar a volta a tudo isto. «Como colhes, assim terás de semear». A Graça desafia a razão e a lógica. O amor interrompe, se quiseres, as consequências das tuas ações, o que no meu caso é, na verdade, muito bom, porque eu fiz muitas coisas estúpidas.” (p. 227)

Ontem, como hoje, o grande combate do cristianismo é em relação à tentação de tudo reduzir a um destino inexorável perante o qual nada há a fazer. Veja-se como a ele sucumbem todos os determinismos (os que dizem que tínhamos de ser assim porque o determina a genética, ou o ambiente, ou a cultura, ou as pulsões ou… ou…). E onde fica a liberdade?

Só a Graça a pode garantir.

Apresentar-se Deus, ao mundo, através do Cristianismo, como Amor (não apenas como Aquele que ‘tem’ amor, mas como Aquele que ‘é’ Amor) é a sua grande novidade e, também, uma das maiores dívidas que o mundo deve reconhecer nunca ter devidamente saldado. 

É curioso constatar como a tentação de regressar à escravidão (à ditadura do destino), pela via da manipulação do futuro (pelas necromancias, quiromancias, magias, astrologias ou outras técnicas), é sedutora e regressa, vez após vez, como se as moiras recebessem renovados convites dos humanos para habitarem na sua casa e desde a primeira hora a estes convites esteve atento o cristianismo. 

É que o mundo não é, para a religião cristã, mero cenário onde se representa história previamente traçada e a cumprir: é o real lugar do encontro das liberdades – as humanas e a divina. 

Liberdades, sim, e não enredos já definidos e traçados. 



quinta-feira, março 23, 2023

Caminhada da luz - JMJ Salreu | 21 de março de 2023 | Reflexões

 

Caminho com os símbolos da JMJ 2023

 (Reflexões escritas para a caminhada da luz, realizada na paróquia de Salreu, Estarreja, a pedido de um bom amigo.)

 

Primeira etapa da caminhada – Capela

Um símbolo reúne e agrega

 

Estamos a iniciar um caminho com os símbolos da JMJ.

Caminho… Símbolo… Jornadas Mundiais da Juventude…

Caminhamos não como quem erra, sem rumo, mas com um norte no horizonte. Esse norte expressa-se no poder dos símbolos.

Um símbolo é sempre algo que agrega, reúne, junta o que anda disperso. Em torno destes símbolos, quantas histórias, quantas esperanças, quantas lágrimas e alegrias!... Nisso está a sua força simbólica. São mais do que objetos: são sinais de vida!

As Jornadas Mundiais da Juventude são um encontro, uma reunião, um ponto de confluência, mas também um momento de partida, marcada pela renovação interior que se faz de uma alegria que se expressa no exterior.

E estas Jornadas são marcadas por um lema que vincula e projeta, recolhida do evangelista Lucas, o evangelista da misericórdia: «Maria levantou-se e partiu apressadamente»

Maria tem, agora, o nome de cada um de nós.

José, Miguel, Francisca, Marta, Joaquim… O nome de cada um de nós antecede esta mensagem: ‘Eu’ levantei-me e parti apressadamente.’

Não já como um eu solitário, mas como um ‘nós’.

Nós levantámo-nos e partimos, apressadamente.

Levantemo-nos…

Partamos…

Há pressa no ar!

 

 

Segunda etapa da caminhada –

 

Maria levantou-se…

Levantar-se é atitude nobre, digna, de quem não se acomoda.

Levantar-se significa não se aquietar e sossegar, diante dos desafios e das interpelações. Maria deixou-se incomodar.

Os nossos tempos estão marcados por tanta indiferença, insensibilidade, acomodação. Pedem-nos que nos levantemos, tomemos em mãos os sinais densos da esperança e os levemos diante de uma humanidade tantas vezes voltada para o chão, curvada e sem esperança.

Maria é modelo de uma mulher real, concreta, que, mesmo na sua fragilidade de grávida, não se centra em si, mas transcende os limites com que se confronta.

Levanta-se, impelida por uma força que a faz desassossegar-se. A força que, como um vento que agita, se faz fogo ardente no seu coração, desafiando-a a ir mais longe. É por isso que não apenas se levanta. Ela levanta-se e parte…

 

 

Terceira etapa da caminhada –

 

Maria partiu…

Não como quem anda sem rumo, mas certa de que alguém a esperava. Maria não parte para lugar nenhum. Parte para a montanha, esse lugar onde Deus tantas vezes escolheu revelar-se. O lugar que é, nesta hora, o sinal da fragilidade que precisa de cuidado, pois é o lugar onde está Isabel, a sua prima, que precisa de ajuda, por estar, também ela, grávida e em fim de tempo. Partir porque se está em fim de tempo. Maria parte porque sabe que o tempo é escasso e todo o cuidado é necessário e pouco. Maria parte porque não basta levantar-se, erguer-se de tudo o que prende os pés. É preciso andar, avançar, peregrinar, sair… partir!

E como é poderosa, hoje, a simbologia do peregrinar. O peregrino não anda errante; sabe que tem uma meta, um rumo, um horizonte. E sabe, também, que para poder fazer o caminho, só o essencial é importante.

Ah, como seria urgente redescobrirmos que a vida é uma peregrinação para nos voltarmos a centrar no que é importante, no que é fundamental, no que é essencial.

Tanta futilidade nos prende os pés e nos impede de partir! Tanta ambiguidade nos afasta da verdade! Tanto egoísmo nos centra no ‘eu’, ‘eu’, ‘eu’. Um ‘eu’ que não parte para lado nenhum pois está convencido de ser o ponto de chegada.

Mas Maria parte, pois ela sabe que o sentido da vida está em partirmos em direção aos outros e ao Outro que é Deus. E isso dá-nos a consciência de que partir não pode ficar para amanhã… É uma pressa. Partir deve acontecer apressadamente…

 

Quarta etapa da caminhada –

Maria partiu apressadamente.

A pressa de Maria não é a de um acelera. Um acelera deleita-se com o prazer da velocidade, mas esta não o leva para lado nenhum. Acelera porque quer sentir gozo.

A pressa de Maria não é esta.

A pressa de Maria não é a que vemos nos nossos tempos, em que os nossos encontros são encontrões; em que andamos, acelerados, pelas ruas, como corpos sem alma. A pressa de Maria é a de quem tem o fogo no coração, um fogo que se chama ‘amor’, o amor com que Deus se lhe apresenta, o amor que é um descentrar-se de si e um voltar-se, atento e cuidadoso, para o outro.

A pressa de Maria é a de quem tem muito para ouvir e muito para contar porque tem a alma cheia de amor. A pressa de Maria é a daquela que sabe que a vida é gratidão, porque recebida como dom. E é porque é gratidão que sempre a história cristã lhe deu o nome da ‘cheia de graça’, cheia de dons que a tornam grata, agradecida ao Senhor da vida.

A pressa de Maria é a do encontro entre a eternidade e o tempo. Não a de quem já não tem tempo nenhum, mas a de quem passou a ter todo o tempo do mundo para se dedicar aos outros.

 

Quinta etapa da caminhada –

Com Maria, rumamos às jornadas mundiais da juventude de Lisboa…

O convite está lançado. Todos estaremos em Lisboa, em Agosto de 2023. Uns estaremos de corpo e alma; outros estaremos de coração. Mas Lisboa será o ponto de congregação de todos os que sabem que os tempos que vivemos pedem que nos levantemos, partamos e o façamos sem demora.

Será um levantar-se, partir e apressar-se que renovará a realidade onde vivemos, em cada dia.

É que Maria era uma mulher real, concreta, que realizou este levantar-se, partir e apressar-se na Palestina de há 2000 anos, cuidando e acolhendo ali, na vida real e concreta em que Deus e humanidade se uniram de modo definitivo.

As JMJ são oportunidade única para renovar o coração de cada um e as comunidades que construímos.

Nestes tempos sem tempo para nada, em que tudo parece fútil e descartável, em que a dignidade humana parece ter-se feito lama, num chão de que teima em não erguer-se, o modelo de Maria faz-nos levantar (erguer, de novo, a dignidade que nos habita), partir (e não andar errante, sem meta nem rumo), apressadamente (e não de modo acelerado, mas com a ousadia de quem sabe para onde vai, porque uma Voz do alto chama no coração).

Há pressa no ar… Vê se já a sentes no teu interior ou se ainda dorme o coração que te preenche o peito.

domingo, março 19, 2023

18 de março, o país caminha pela vida | Caminhar por aqueles a quem a vida não corre

(Artigo originalmente publicado na Agência Ecclesia)

Não se faz um seguro para os dias em que tudo corre bem. Esperamos que nos proteja, quando algo (ou, mesmo, tudo) corre mal. De que serviria, afinal, se, na hora em que mais dele precisamos, nos deixasse a suprir, pelas nossas próprias forças, os limites que a ele incumbia proteger?

Este não é um texto de apologia ou elogio a seguradoras ou entidades similares, mas um manifesto de inquietação perante a desblindagem daquele que é o maior seguro de vida e a mais relevante apólice da nossa carteira coletiva: o reconhecimento da inviolabilidade da vida humana.

Sustentar que a vida humana é inviolável de pouco nos servirá se tal significar que só não se lhe pode tocar quando tudo corre bem. Decisivo será permanecer fiel ao princípio quando ‘nem tudo corre’, pois é para essa hora que, afinal, celebrámos, coletivamente, o contrato firmado em apólice com o nome de Constituição.

Com este pressuposto, tenho defendido, desde o referendo de 2007, que, se bem vistas as coisas, após a liberalização do abortamento voluntário até às dez semanas, todos os nascidos posteriormente a essa data são, efetivamente, sobreviventes. Sobreviventes de uma lei que deixou à decisão das vontades individuais a determinação de se uma vida é ou não inviolável.

Sê-lo-emos (continuamos a acreditar que o tempo verbal certo será ‘sê-lo-íamos’), também, se for (fosse) legalizada a eutanásia… Todos os que vierem (viessem) a morrer de morte natural serão (seriam) sobreviventes a uma tal lei.

Não se inverteu, portanto, o paradigma de referência ao deixar de considerar que é perante a vida que devem acomodar-se as vontades (por ela ser inviolável), para se entender, pelo contrário, que é esta que deve acomodar-se às vontades?

É que, com efeito, as vontades são volúveis, variam, mudam, alteram-se, podem desejar e deixar de desejar, enquanto a vida não tem ondulações nem gradações: está ou não está! E é por a sua rejeição ser irreversível que a sua inviolabilidade deve ser – lá está! – mesmo inviolável.

E é especialmente quando a vida é mais frágil, quando a vida não corre, que a sua apólice de seguro deve ser acionada, para que as vontades não a façam sucumbir à sua força.

A história do reconhecimento da inviolabilidade da vida mostra que o percurso foi lento, de cerca de 2000 anos, mas sustentado. Nas últimas décadas, porém, por um processo que faz lembrar o retrato descrito por George Orwell, no ‘triunfo dos porcos’ e em ‘1984’, em que as verdades da primeira hora vão sendo alteradas e moldadas de modo a já pouco significarem do inicialmente defendido, temos vindo a assistir a um desblindar dessa apólice de seguro de vida. Temos vindo a ser arrastados por um processo de insensibilização paulatina, encaminhando-nos num sentido que não é de progresso, contrariamente ao que pretendem dizer-nos, mas de evidente retrocesso, com a agravante de se pretender acantonar, na trincheira dos radicais, quem ousa dizer que o rei vai nu. Consciente dessa estratégia, o Papa Francisco recordou, logo na exortação apostólica ‘Evangelii Gaudium’ que “muitas vezes, para ridicularizar jocosamente a defesa que a Igreja faz da vida dos nascituros, procura-se apresentar a sua posição como ideológica, obscurantista e conservadora; e no entanto esta defesa da vida nascente está intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano.” (EG 213), acrescentando, mais adiante: “A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações».” (EG 214)

É por isso que o país vem, pouco a pouco, despertando para esta evidência de que a vida é anterior às vontades que a devem, sim, acolher. Despertando deste torpor que a todos pretende insensibilizar, os portugueses têm-se mobilizado, dando respostas, organizando-se, acolhendo, cuidando e, também, caminhando… caminhando por aqueles (e, afinal, por todos nós, algum dia…) a quem a vida não corre.

Neste ano, em 18 de março, dez cidades do país realizarão caminhadas por aqueles (por todos nós…) a quem a vida ‘não corre’, caminhadas pela vida. A sua causa é a mais decisiva de todas; nasce do reconhecimento de que a vida antecede as vontades, pede para ser acolhida, pois se tal não acontece, nada é o que lhe sobra, o futuro acaba ali. A sua é a voz daqueles a quem nunca a concederam ou pretendem vir a tirar. Como não ver isto? Como permanecer-lhe indiferente?

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...