Seb Falk, A Idade Média: a verdadeira idade das
luzes, Lisboa, Bertrand Editora, 2021.
O fim de um mito
(Ou ‘como ter nas mãos um meio eficaz de repor
justiça’)
Fake news!
Andamos preocupados – quase
obcecados com a matéria. De tal modo que nos levam a crer (fake new!) que as
fake news são de hoje.
Este livro não é – nem por
sombras! – sobre ‘fake news’. Mas propõe-se enfrentar uma das mais consolidadas
‘fake news’ dos últimos três séculos.
Isso mesmo!
Cerca de trezentos anos!
Trata-se de uma ‘fake new’ que
serviu interesses e que alimenta, ainda hoje, muitos preconceitos.
Partamos à sua descoberta.
A sua denúncia formula-se no
próprio título do livro: ‘A Idade Média: a verdadeira idade das luzes’ (Talvez
se pudesse ter optado por ‘a verdadeira idade da luz’, tendo em conta o que o
autor refere, na página 162, a pretexto dos estudos medievais sobre a luz de
que resultaram a criação dos óculos, mas admite-se a opção da tradutora por ‘a
verdadeira idade das luzes’, aludindo ao título autoatribuído pelos iluministas…).
E que denúncia se vislumbra ali?
A de que a Idade Média foi tudo
menos uma idade de trevas.
Mas essa ‘fake’ (a de que a Idade
Média era idade de trevas) fez caminho – muito caminho! – e continua, hoje, bem
consolidada. (Dado o curto-circuito entre ‘Idade Média’ e ‘Igreja’, quando,
numa discussão, se quer silenciar a força argumentativa de um cristão, logo se
evoca a ‘tenebrosa’ condição da Idade Média. E tudo fica arrumado! Nada melhor
do que um bom preconceito para acabar com uma discussão!)
Quem não se lembra da teoria de
que a Idade Média acreditava que a terra era plana?
Sim, quem não se lembra? Disso
davam eco (ainda hoje?) os livros de História.
E a lembrança é tão forte que até
nos custa a crer que não fosse assim.
Mas não o era, de facto.
A Idade Média não acreditava que
a terra fosse plana.
Entre nós, portugueses, já os
professores Henrique Leitão, Jorge Buescu e outros denunciaram essa fake new,
com muita erudição e detalhe.
Seb Falk demonstra-o, neste
livro, de forma muito detalhada.
Para tal, recorda, entre outras
coisas, que um dos tratados mais estudados, durante a Idade Média, era o
‘tratado da esfera’ que teve em João Sacrobosco (1230) um dos seus maiores
proponentes. A esfera era, bem certo, o orbe celeste, mas, também, a Terra.
Porém, apesar deste facto, a
História e a história da História, após a revolução francesa e durante o século
XIX, veiculou a ideia de que os medievais (até lhe chamou ‘Idade Média’, para
estabelecer uma ponte vazia entre os antigos e os modernos!) eram obscurantistas
e defendiam (imagine-se!) que a Terra era plana.
Entre nós (Seb Falk não conta
este detalhe), chegou-se ao ponto de consolidar a teoria (a fake new) de que a
Idade Média acreditava numa terra plana com a tese de que Cristóvão Colombo não
obtivera o apoio da corte portuguesa porque entre esta se continuava a
acreditar que a terra era plana.
Como consolidar um preconceito
A verdade é outra!
Como conta Jorge Buescu, num
artigo com o título ‘a terra nunca foi plana’ (no livro ‘da falsificação de
euros aos pequenos mundos’), a coroa portuguesa não apoiou a empresa de chegar
à India pelo ocidente, porque sabia que a distância era tão grande que seria um
investimento no vazio, pois Colombo nunca chegaria lá. A sorte deste foi
ter-lhe aparecido a América, no caminho!
Ora, esta e outras teses são
demolidas neste livro de Seb Falk.
Um livro extraordinário!
Extraordinário pelo rigor do
autor, pela erudição em linguagem simples com que aborda cada temática e porque
é profundamente respeitador do leitor. Veja-se, a título ilustrativo, a
qualidade das notas (que, para um leitor habitual, deviam ser de rodapé, mas as
edições atuais optam por colocá-las no final, o que dificulta a leitura em
vaivém… Deixo o repto!). Seb Falk não faz citação de citação: vai às fontes!
E faz um ensaio de história da
ciência como quem escreve um romance policial.
Tudo começa com a investigação
sobre o verdadeiro autor de um tratado, a partir de uma investigação feita por
Derek Price, na década de 50, que se interrogava sobre o efetivo escritor de
uma obra que nos dava instruções detalhadas para a construção de um derivado do
astrolábio que permitiria identificar, com precisão, a localização dos
planetas. (Tenha-se em conta que tudo era baseado, exclusivamente, na
investigação matemática em articulação com as deduções artonómicas, pois ainda
se tinha de esperar pela invenção do telescópio… Mas a lucidez e o rigor
matemático denunciam um verdadeiro espírito científico de quem parte à demanda da verdade).
Tudo começa aí e vai-se desfiando
até nos levar ao quotidiano da vida medieval, onde descobrimos o fascínio da
descoberta e a frescura da liberdade intelectual, tantas vezes hoje pretendida e
amarfanhada. Ilustra esta liberdade a história de uma greve ocorrida no século
XIII, na universidade de Paris, em que os mestres reivindicavam liberdade
perante o poder político. A sua reivindicação saiu vencedora. (Sim, não podemos
esquecer que as universidades – Bolonha, Salamanca, Oxford, Montpellier, Paris,
Coimbra, Lisboa, etc. – nasceram na Idade Média! E que já então a ‘circulação’
dos intelectuais entre universidades era uma prática habitual!).
Pela mão de Seb Falk,
compreendemos que os nomes maiores da ciência moderna não nasceram do nada (Mas
a forma como é feita a história da ciência deixa, muitas vezes, o travo amargo
de uma conceção emergentista dos grandes nomes: como se aparecessem sem
‘gigantes aos ombros dos quais se encavalitam’. Sim, também esta frase, cuja
autoria é tantas vezes atribuída a Isaac Newton, é da responsabilidade do
medieval Bernard de Chartres!). Percebemos as raízes medievais do pensamento
astronómico (devedor à influência cristã e muçulmana que recebeu nos estudos
universitários que fez em Cracóvia, Bolonha, Pádua e Ferrara) de Copérnico, que
responde, com o heliocentrismo, a interrogações de sempre colocadas pela teoria
defendida (e muito discutida) por Ptolomeu, no seu Almagesto, mas mais proximamente
formuladas por Peuerbach e Regiomontanus, ou as origens do próprio pensamento
de Leibniz no admirado Richard Swineshead (século XIV), autor do Livro dos
cálculos, que lhe valeu a alcunha de ‘calculador’.
Falk aborda, ainda (e muito
escapa a esta resumida recensão de leitor entusiasmado – exigente tarefa se
impõe ao próximo autor que tomarei em mãos, após esta tão fecunda leitura!), a
questão do impacto do heliocentrismo nas mentalidades. Curiosamente, também as
fakes são abundantes no que respeita a esta matéria. Bem nos recordamos todos
de ouvir dizer que o heliocentrismo demolira a visão arrogante que o geocentrismo
vincava. Seb Falk recorda, porém, que ‘os pensadores medievais imaginavam
muitas vezes a Terra ao fundo, e não no centro, do vasto Universo; e estar tão
longe quanto possível da perfeição dos céus não era propriamente uma posição
desejável. É por isso que, na obra de Galileu Diálogo sobre os dois principais sistemas do Mundo, Ptolemaico e
Coperniciano, o astrónomo florentino pós o seu porta-voz, Salviati, a
afirmar que «estamos a tentar tornar [a Terra] mais nobre e mais perfeita […] e
de certa forma a colocá-la nos céus, de onde os vossos filósofos a baniram».’
Mas a fake new respetiva defende
que os medievais é que eram arrogantes! (Na era dos emojis, deixo ao leitor
imaginar qual escolheria!...)
Idade Média: idade luminosa com
sombras… Como as demais épocas!
Chegados aqui, impõe-se uma
pergunta: mas a idade média era só luminosidade e esta beleza de que aqui
falamos?
(Obviamente que o autor não
esconde os aspetos menos luminosos desta época. Isso é, aliás, frequentemente
recordado, por exemplo, quando apresenta o paralelismo entre o desenvolvimento
astronómico e a influência dos reptos da astrologia.)
Duas notas nos merece esta constatação
da presenças de aspetos opacos na idade média: que todas as épocas tiveram (e
terão) as suas opacidades – veja-se como, em pleno século XXI, continuam a
proliferar, e com forte influência, as mentalidades que negam, por exemplo, que
na gravidez humana esteja em desenvolvimento vida humana! Ou que defendem que
existam raças desigualmente humanas, etc… (na luminosa época da ciência,
continuam a verificar-se obscuridades deste teor…) – e, por outro lado, que as
zonas de sombra pressupõem a luz. Não poderemos fixar-nos nas sombras, omitindo
a origem luminosa perante a qual emerge zona sombria. Em relação à Idade Média,
a opção tem sido amplificar a sombra, omitindo a força da luz. Seb Falk desafia
a que se olhe a Idade Média pelo seu lado luminoso: ‘a verdadeira idade da
Luz’!
Não pense, porém, o leitor, que o
livro se desenrola ao longo de mais de 400 páginas com a repetição de ‘veja, na
Idade Média não eram como pensa’. O livro é, como acima descrito, uma espécie
de ‘romance policial’ baseado em factos e dados de investigação. E até é
humilhante constatar quanto desconhecíamos. E quanto podemos descobrir quando,
honestamente, deixamos que a história de cada época fale por si, sem que lhe
imponhamos os nossos preconceitos. Factos, factos e mais factos! Nomes e
descobertas e linhas de discussão. Num desenrolar de novelo que nos fascina, da
primeira à última página. E, quando já terminámos a leitura, o autor formula um
conjunto de sugestões que nos fazem partir à aventura de sermos nós mesmos a
ver como funcionava o ‘equatorium’ (Ah, eis o nome do instrumento alternativo
ao astrolábio, proposto por John Westwyk – anónimo na nossa recensão como
permanecera anónimo durante quase 500 anos…) ou como pensou Richard de Wallingford
(que ilustra a capa do livro) o primeiro relógio mecânico ou, ainda, a procurar
saber um pouco sobre os nomes dos desconhecidos tradutores das grandes obras
clássicas, originalmente escritas em grego ou árabe, vertidas pela sua mão para
latim. Seb Falk resgata do silêncio da história nomes de tradutores como o de Gerardo
de Cremona ou de Alfred Shareshill… (Ilustres desconhecidos mas de quem todos
falam quando dizem que Aristóteles e Avicena foram recebidos nas universidades
da Idade Média!)
O próprio autor assume que não
quer maçar os leitores com a sucessão de nomes de insignes figuras medievais.
Enuncia alguns dos preteridos numa lista final que inclui sugestões muitos
úteis de outros livros e sites onde poderão encontrar-se estas e outras
informações relevantes. O livro deixa, no leitor que acaba de fazer a viagem
que nos é proposta, a sensação de que nada será como dantes… Bem certo que
demolir um preconceito não é tarefa fácil. Mas a argumentação, que é pura
descrição factual, não deixa margem para dúvidas. Em nome da verdade, há que reconhecer
que a Idade que os modernos quiseram chamar ‘média’ foi rica de pensamento e
descobertas científicas. Este é, por isso, um livro de justiça… Um livro que
coloca nas suas mãos um meio de repor a verdade onde as fake news têm abundado.