quarta-feira, julho 13, 2022

O absurdo ‘direito’ a abortar

 (Neste artigo, seguirei uma linha de raciocínio puramente formal, lógica. Peço ao leitor que o leia sem filtros, sem preconceitos.)

Comecemos por uma constatação.

Um filho é fruto da ação, direta ou mediada (evoco, aqui, as formas de conceção natural ou medicamente assistida), de dois: um pai e uma mãe.

O facto ‘filho’ expressa, por si só, uma omnipresença de dois: os seus progenitores.

Em cada filho está, inerentemente, a ação de duas pessoas de quem emerge um novo ser.

A esta luz, o filho que nasce une, para sempre e desde o seu início, as vidas de dois indivíduos: os seus pais.

Estes factos parecem-me irrefutáveis…

O aborto interrompe esta história de união da ação de dois indivíduos, os progenitores, numa nova vida.

Ora, perante o aborto, o direito depara-se com uma dificuldade: como agir?

A decisão dos legisladores tem sido uma de duas:

- ou permanecer fiel ao entendimento de que as leis transmitem mensagens aos cidadãos e, por isso, manter a afirmação de que abortar, por consistir na eliminação de uma vida humana em desenvolvimento, é um erro punível (esta punição recai sobre todos os envolvidos no aborto e não apenas na mulher: são suscetíveis de punição os incentivadores, os praticantes do aborto, os companheiros ou familiares que forçam, etc.);

- ou, alegando motivos diversos, despenalizar o ato, a pretexto de conflito de direitos ou outros motivos.

Observa-se, porém, uma nova linha que pretende defender, já não a mera despenalização do ato, mas o seu reconhecimento como direito.

Para a análise desta via, regressemos ao início da nossa reflexão.

Constatámos (sem grande esforço) que o filho é fruto da ação de dois: os progenitores, um pai e uma mãe.

Pretender reconhecer a um dos dois o direito exclusivo a abortar introduz aqui uma novidade altamente problemática.

Senão, vejamos. Socorramo-nos de uma metáfora que, como todas as metáforas, deve ser apenas uma ajuda ao entendimento sem que nos devamos prender nos aspetos específicos desta…

Imagine-se uma sociedade empresarial em que existem dois sócios com 50% de participação cada um.

A certa altura, um dos sócios propõe a aquisição da participação do outro sócio, ficando, assim, com 100% das quotas, comportando a posse do exclusivo de direitos e, por isso, também, de deveres.

Não é difícil imaginar que, se as coisas correrem bem, o novo sócio (absoluto) recolherá todos os dividendos, mas, também, que, se as coisas correrem mal, será este a arcar com a totalidade das despesas e dos problemas. Só por generosidade e bondade da parte do sócio que cedeu a sua parte é que poderá haver a assunção de responsabilidades, face às novas condições do contrato. Sublinhe-se: só por iniciativa do segundo sócio é que haveria assunção de responsabilidades por parte deste, dado que o novo contrato atribuíra totais direitos ao primeiro.

Ora, salvaguardadas as devidas diferenças (um filho não é um mero contrato ou negócio, bem certo!), o reconhecimento de que haja um ‘direito’ da mulher a abortar é tão válido como legitimar que o primeiro sócio, que ficou com o exclusivo da sociedade, possa vir reivindicar deveres ao que deixara de ter quotas na sociedade.

Dito de outro modo.

O filho gerado é fruto de dois. Reconhecer que houvesse um direito a abortar por parte da mulher suspenderia qualquer ‘direito’ do pai’, durante o tempo de exercício desse ‘direito a abortar’, restituindo-se ao pai os seus ‘direitos’ apenas depois do tempo de exercício absoluto da mãe.

Se se reconhecer que as mulheres que pretendem abortar o fazem porque a isso têm direito, daqui decorrerá, logicamente, que as mulheres que pretendem ser mães (ter filhos!) ficarão desprotegidas, porque nenhum pai estará obrigado a assumir responsabilidades quando, em todo o processo foi, afinal, excluído. Neste quadro, seria por pura arbitrariedade que se exigiria ao pai que assumisse responsabilidades em caso de não aborto, pois, afinal, ele tinha estado privado de quaisquer direitos, no período entre a conceção e o tempo legalmente previsto para a mulher exercer o seu ‘direito’. Como podem exigir-se deveres a quem não teve quaisquer direitos?

Pois é…

O problema é que toda esta visão que entende que haja um ‘direito ao aborto’ parte de pressupostos desajustados, o primeiro dos quais o de que um filho se constitua como um direito dos pais: os pais devem cuidar; os pais devem acolher; o filho não é um direito, mas, antes, alguém protegido pelo Direito!

Posta assim a questão, é fácil entender que toda esta discussão está virada do avesso.

Não deveria estar a discutir-se o possível (e denunciado como ‘absurdo’) direito a abortar, mas sim como comprometer, cada vez mais, o pai com o filho em gestação. O filho é gerado por dois, pelo que deve ser responsabilidade dos dois e, nunca, direito de um contra outro ou, sequer, contra todos.

Dado que o filho é gerado por dois, o filho terá de ser protegido pelos dois e, como sociedade que somos, protegido contra o mal que os dois possam pretender fazer-lhe.

Esta devia ser a linha a seguir.

E só assim se poderia compreender, com espanto e compaixão, que não podemos continuar cúmplices dos mais de 22 milhões de abortos que se realizaram, só no primeiro semestre deste ano, em todo o mundo. Os números deveriam despertar-nos para o que estamos a fazer.

O aborto é a falência de uma sociedade. Reconhecê-lo como um ‘direito’ soma absurdo a esta falência.

 

sábado, maio 21, 2022

É preciso salvar a liberdade…


Pensar é uma autêntica gravidez. Não fosse o conceito do âmbito da ‘conceção’. Pensar é, efetivamente, ‘conceber’ algo.

Há, porém, ideias fecundas e ideias perfeitamente estéreis e que esterilizam tudo em seu redor.

A ideia de liberdade é uma dessas ideias que, pela sua centralidade no contexto da modernidade, corre o risco de, sendo extremamente fecunda, se converter no fator de ‘esterilização’ dos demais conceitos que implica e com que se implica.

Entendamos porquê.

A ideia de ‘liberdade’ é, provavelmente, a mais generosamente referida nos contextos e discussões atuais. É, por isso, fundamental que nos entendamos, em primeiro lugar, sobre o que pretendemos dizer ao evocá-la e, em segundo lugar, que tenhamos a consciência de que, por se tratar de um conceito, é preciso saber quem são os seus ‘pai’ e ‘mãe’ para percebermos a genética do conceito que utilizamos, a fim de entendermos se nos reconhecemos no ‘filho’. Esta síntese implica, ainda, que tenhamos a consciência de que todos os conceitos são conceitos, isto é, não são factos, são formulações que dependem de determinados pressupostos e comportam consequências.

Com estes dados, partamos à descoberta do que estamos a dizer ao evocar a liberdade.

 

Liberdade: ‘fazer o que se quer’?

Espontaneamente, ‘liberdade’ costuma evocar a ideia de se fazer o que se quer. Liberdade máxima parecerá ser, com esta conceção aparentemente espontânea, a inexistência de constrangimentos a fazer o que se quer.

Precisamos de perceber o alcance desta visão para, eventualmente, a podermos criticar e, no limite, superar.

Para a analisar, é preciso compreender a fenomenologia da ação humana, isto é, é preciso perceber como emergem, nos sujeitos humanos, os atos que são, verdadeiramente, humanos e como se distinguem dos que não são humanos.

Para o entender, é preciso consciencializar que todo o ato verdadeiramente humano envolve o homem todo, não apenas parte de si.

Acrescente-se que todo o ato humano envolve as três dimensões do homem: a inteligência, que se manifesta no saber, no conhecer, na busca da verdade (no intelligo, na penetração do olhar ao interior das coisas…); o afeto, que se manifesta nas emoções, no sentir (é o que os clássicos definiam como o modo de acesso às coisas, o deixar-se ‘afetar’ por elas, tornando-nos ‘vulneráveis’ ao outro, aos outros…), e, por fim, a vontade, que se manifesta como ‘querer’.

Não será difícil, após este muito rudimentar esboço da fenomenologia da ação humana identificar, desde já, que a conceção de liberdade que a identifica como possibilidade de fazer o que se quer enferma de um limite anteriormente denunciado: o de se confinar a uma só das três dimensões: neste caso, à vontade (ao querer). Antecipamos, aqui, que esta redução da liberdade à vontade parece ter dois responsáveis: Schopenhauer e Nietzsche que, por vias diferentes, idolatraram a vontade de poder presente no Homem, tudo confinando e conformando a esta, com custos que iremos apreciar, ao longo deste texto.

 

‘A minha liberdade termina onde começa a do outro’?

Ora, uma tal redução, pela natureza própria do que é um conceito, implica tremendas consequências. É como se alguém entrasse numa autoestrada pelo acesso errado. Pode comportar quilómetros de erro e, no limite, uma viagem totalmente desviada do pretendido…

E uma das consequências está na própria escolha dos nossos ilustres autores novecentistas: a opção pela vontade. Esta define-se como ilimitado e de objeto indeterminado. Enquanto a inteligência tem um objeto específico e identificável – a verdade, o que é verdadeiro -, a vontade é, por natureza, imprevisível, só compreensível pelo próprio e insuscetível de antecipar pelos demais. A liberdade, confinada à condição de exercício de vontade, torna-se, assim, um conceito intrinsecamente individualista e solipsista.

Sim, neste contexto e nesta conceção, a liberdade (isto é, as vontades) estorvam-se umas às outras.

Sim, neste modo de entender, tem de se aceitar que ‘a liberdade de cada um acaba onde começa a do outro’, como terá definido Herbert Spencer, pelo que a liberdade de cada um só pode aumentar quando a do outro for limitada ou, no extremo final, quando a do outro desaparecer. Os outros são, então, como reconhecia Sartre, o ‘inferno’.

Um tal entendimento nasce do pressuposto de que a liberdade é exercício de vontade.

Mas, sê-lo-á, de facto?

Reparemos que a redução da liberdade à vontade comporta uma contradição insofismável: o seu exercício que deveria ser humano pode voltar-se contra aquilo que define, verdadeiramente, o que é o humano, isto é, a sua racionalidade. O que nos distingue dos demais seres é a racionalidade. Mas, se a liberdade – tão central e nuclear – é um exercício de vontade, pode prescindir e, no limite, opor-se à racionalidade. Será, ainda, humana uma liberdade assim?

 

Os factos demonstram a pertinência do conceito

Tornam notória esta denúncia os factos, apurados numa leitura fenomenológica.

Veja-se o seguinte exemplo.

Um toxicodependente quer muito, muitíssimo, o estupefaciente que o sossegue. É capaz, inclusive, de roubar; no limite, de matar!

Mas, - perguntemos com verdade – o seu ato de vontade (ato voluntário) é um ato livre? É voluntário, certamente (ele quer! Quer muito!), mas será livre?

A nossa conclusão parece pura retórica. Não o é, de facto.

E porquê?

Por aquilo que acabámos de constatar: o ato é voluntário, mas falta-lhe a iluminação racional para ser, de facto, ato livre.

Um ato livre não é o ato submisso à irracionalidade, à vontade, ao instinto (contrariamente ao que presumiam Nietzsche e Schopenhauer), mas antes o ato que mobiliza os afetos e a vontade ao que a razão lhe aponta como a melhor escolha.

E, com o desabamento da identificação de liberdade com vontade implode, também, o solipsismo de que o conceito aqui denunciado presumia.

Vejamos porquê…

A liberdade é uma condição (podemos vir a realizar atos livres porque somos intrinsecamente indeterminados previamente), é uma possibilidade (podemos ser livres ou não o ser em cada ato), mas é, também, uma realidade, isto é, um ato (se, como vimos, os nossos atos se conformam ao que a razão indica como sendo a melhor escolha. Não podemos deixar de recordar que a palavra liberdade nascerá do termo latino ‘libra’, que se refere à balança de dois braços que devem estar em equilíbrio…).

Seja como condição, seja como possibilidade, a liberdade implica sempre os outros, pois não nascemos de nós e não nos tornamos conscientes de nós por mérito nosso. Tomamos consciência de nós mesmos porque os outros humanos suscitaram em nós o despertar dessa consciência que estava em nós como uma potência que carecia dos outros para se tornar um ato.

 

‘Penso, logo existo’?

Digamo-lo de forma simples.

Contrariamente à presunção de Descartes, não é porque ‘penso que existo’; é, antes, porque os outros existem e se relacionam comigo que eu sei que existo. É porque existes e porque me fazes pensar que eu tomo consciência de que existo e posso, por isso, pensar.

O outro é condição de possibilidade de nós, do eu.

A psicologia, que o seja honestamente, evidencia-o.

Uma criança que fosse abandonada na selva, por volta dos três, quatro anos, poderia sobreviver, biologicamente falando, mas nunca teria consciência de si mesma. São os outros que despertam o eu que está em potência no interior de cada um.

Neste registo, as liberdades não se limitam umas às outras, mas antes projetam-se, promovem-se e só o são, enquanto atos, se despertam e potenciam as outras liberdades.

Não, não é verdade que a minha liberdade acabe onde começa a do outro (talvez, sim, as vontades se estorvem, mas já vimos que isso não é ‘a’ liberdade…); a minha liberdade só o é, de facto, se levar com ela a liberdade dos outros e as fizer serem cada vez mais liberdade.

Lembre-se, a título de ilustração, o que ocorre no mundo da economia.

Recorde-se o que aconteceu, após a II Guerra Mundial: a Europa ficou em cacos… Os Estados Unidos, apesar de serem preconizadores de um liberalismo tantas vezes solipsista, perceberam que não o poderiam ser, após a II Guerra. Se a Europa permanecesse destruída, a economia americana nunca seria pujante. Foi preciso, através do Plano Marshall, potenciar a economia europeia para que, com ela, se projetasse a economia americana.

Num outro âmbito, o da educação, podemos recordar como um pai ou uma mãe não o são mais se ‘esmagarem’ o crescimento do filho. Um pai ou uma mãe são-no na medida em que promovem o desenvolvimento do seu filho. Se não o fizerem, também eles, enquanto pai e mãe, se amarfanham.

É, por isso, fundamental, sair deste conceito solipsista, individualista e voluntarista de liberdade, responsável por um caminho que nos conduzirá a uma sociedade que não será mais do que, como afirma Manuel Braga da Cruz, ‘uma soma de indivíduos sobre um território’.

Há muito que vimos dizendo que se terá de passar de uma lógica de ‘indivíduos’ (que é um conceito quantitativo; somos ‘um’, ‘dois’, ‘três’ indivíduos, sem que tal nos defina, qualitativamente…) para uma lógica de ‘pessoas’, conceito que implica, intrinsecamente, a ideia de relação.

O mundo humano não é feito, primeiramente, de indivíduos, pensados em si mesmos, qual mónadas fechadas. O mundo humano é, primeira, relação, inter-relação, encontros.

Liberdade não é, pois, fazer o que se quer. É a possibilidade, a condição de possibilidade que nos permite escolher o que é melhor. Envolve-nos, totalmente, sob a iluminação da razão, da inteligência. Liberdade é algo intrinsecamente humano. É, aliás, um conceito que, pela natureza da definição aqui encontrada, implicada, essencialmente, a ideia de responsabilidade: responder e responder diante de alguém. Reduzi-la a um exercício da vontade é entregá-la ao sub-humano animal de que nos deveríamos levantar, mas a que muitos parecem querer fazer-nos regressar… É curioso constatar, aliás, que nunca se evocou tanto a liberdade, mas nunca, também, se pretendeu tanto reduzir os atos do indivíduos a causas que ele diz não controlar: a genética, a história pessoal, a sociedade, as circunstâncias, etc… Evoca-se a liberdade, mas num registo de desresponsabilização, o que, mais uma vez, denuncia a contradição do conceito. Ser livre é, intrinsecamente, responsabilizar-se e, por isso, compromete e exige estar em atitude de constante discernimento e não de volubilidade e anomia. Ser livre é, por isso, matéria de humanos integralmente entendidos, é uma conquista nunca terminada.

segunda-feira, maio 09, 2022

Aborto: desfazer o nó górdio

O aborto será o nó górdio das sociedades ocidentais?

Talvez…

Talvez, como o célebre nó, quem o desfizer, venha a dominar o mundo… E, talvez, ainda, ele se desfaça de uma forma inesperada. Lancemos, por isso, a espada sobre a corda, à maneira de Alexandre Magno, e vejamos como, afinal, de modo simples, se detém no chão o liame que parecia ser invencível…

Não sei, ainda, se o desfazer do laço nos dará o domínio sobre o mundo, mas estou certo de que nos enredos da corda se enunciam muitos dos problemas com que se depara a nossa sociedade contemporânea.

A base da nossa sociedade não é o indivíduo, mas a relação. Se duvidamos, basta que vejamos com atenção como as decisões fundamentais não nos pressupõem, primeiro, indivíduos, mas sim seres relacionais. Para que serviria, afinal, ter uma língua oficial se não fosse para a partilhar e, em torno dela, nos unirmos? Para que serviria um hino nacional se não fosse para o darmos a ouvir e nos unirmos em torno dele com emoção e, quantas vezes, comoção?

Para que serviria obrigarem-nos à partilha do que ganhamos, através de impostos, se não fosse para nos valermos uns aos outros, mesmos aos que nunca conheceremos?

Para que serviria reconhecer associações e organizações ou a família como base da sociedade se não fosse sob o pressuposto de que somos seres que se definem na relação?

Por influência, porém, de uma visão liberal de matriz estritamente individualista, temos sido convencidos de que, entre Estado e indivíduo, nada existe…

E, ainda que assim fosse, a discussão sobre o aborto esquivar-se-ia a estes pressupostos pela razão que passarei a descrever.

Um homem e uma mulher que se envolvem num momento denso de afetividade e sensualidade são, ainda, um homem e uma mulher… A partir, porém, que da sua relação começou a gerar-se um novo ser, eles deixaram de ser apenas um homem e uma mulher. O que eram ganha nova densidade em virtude de um novo ser que os une, de modo indefetível e que, quer queiram, quer não, os unirá para sempre. Mesmo que ousem fazer de conta que não é assim.

Claro que muitos dirão que esta leitura é reacionária. Mas é curioso que se há algo de reacionário nisto é à dura realidade que o teremos de atribuir.

A partir do momento em que um humano está em gestação, aquele homem e aquela mulher já não serão, apenas, aquele homem e aquela mulher: passarão a ser, para sempre, o pai e a mãe daquele ser.

Mesmo que ousem nunca lhe dar um nome ou permitir que mostre o rosto que, desde a primeira hora, se prenuncia.

O pai e a mãe deste novo ser humano em gestação são-no em virtude dele e as suas vidas estarão, inelutavelmente, unidas.

A gestação deste novo ser cria uma nova realidade que, sendo, primeiramente, uma realidade de natureza biológica (aquele ser humano é filho deste pai e desta mãe e a genética o demonstra sem ideologias e de forma objetiva…), deveria ser, desde a primeira, hora, uma nova realidade jurídica.

Aquele homem e aquela mulher passam, a partir deste momento, a ser pai e mãe e, numa sociedade honesta, deveriam passar a ter deveres de cuidado para com aquele igual a todos nós que está, agora, a fazer-se gente e que, não antes dos seus três anos de idade, pouca consciência terá de si mesmo se não lho permitirem os demais humanos em seu redor.

É verdade - como reconheceram os abortistas que logo rasgaram as vestes quando se afigurou a possibilidade de que a história do caso Roe vs Wade se pudesse alterar (esta que é uma infeliz história de mentira e perjúrio – seja-se honesto e diga-se que a legalização do aborto, no ocidente, assentou em fake news…) - que a legislação sobre o aborto mostra a saúde democrática das nossas sociedades. Ela mostra se, de facto, os direitos de quem tem poder se sobrepõem à voz dos que não a têm porque lha impedem de vir a ter.

Um embrião ou um feto humanos é um de nós; são nós na sua/nossa primeira etapa da vida. E se é certo que se protege uma ave desde a fase do ninho, como pode pretender-se proteger um humano apenas quando ele já pode defender-se e gritar?

Voltemos atrás…

Como poderia aceitar-se que o filho fosse ‘direito’ de apenas um dos dois, pai ou mãe?

Em primeiro lugar, o filho não é um bem a que alguém tenha direito. O filho é filho. Ponto!

Cabe-nos ajudá-lo a fazer-se gente! Cuidar e cuidar e… após tudo isso, cuidar!

Se o aborto viesse a ser um direito (convém que se reconheça que, até Macron, poucos tinham sido os que afirmavam que fosse direito. Sempre se situara no âmbito da despenalização. Hoje, pretende-se considerar como direito…), os direitos de um só (a mulher; não a mãe!) prevaleceriam, de forma absoluta, sobre os direitos de dois outros: o filho e o pai.

Valerá a pena perguntar a que título passaria a estar, ao lado da parturiente, o pai: por especial concessão da mulher que determinaria que este seria o pai?

Mas o filho de que ele é pai não foi gerado no momento do nascimento, mas no primeiro momento, o da conceção!

Só por pura arbitrariedade de um legislador ‘arbitrário’ (passe a redundância) é que se pretenderia legitimar tal coisa. A realidade do filho gera o pai e a mãe no momento da sua conceção. As vidas destes três seres unem-se nesse momento. Não noutro qualquer.

Assim o determina a natureza das coisas.

Só por ideologia ou por motivos obscuros pode pretender-se que seja de outro modo.

O nó górdio desfar-se-á no dia em que, definitivamente, houver coragem para reconhecer a personalidade jurídica do ser humano em gestação, exigindo-se deveres de cuidado dos respetivos pai, mãe e sociedade que se deverá reconhecer na vida em crescimento. De outro modo, a arbitrariedade sobre quando é que uma mãe é mãe ou um pai é pai será nascente de conflitos e favorecerá litígios desnecessários.

Como poderá esperar-se a construção de uma sociedade pacífica que assenta na legitimação da violência da mãe sobre o seu próprio filho? O aborto mata o filho e, com ele, mata a mãe. Fica uma mulher em conflito consigo e com os que a rodeiam….


sábado, abril 30, 2022

De Midas a Zaqueu

 Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)

A nossa viagem de Troia a Ítaca prossegue. O nosso Ulisses continua o seu regresso à cidade de onde partiu para travar a guerra de Troia. Um regresso que nos faz vislumbrar os contributos da cultura grega, mas reparar, também, e como nunca, em como é singular a generosa dádiva do cristianismo…

Hoje, a nossa viagem leva-nos a ler a sempre sedutora tentação de possuir.

O homem, quando não consegue ser, deseja possuir. E quanto menos é, mais pretende ter… Faz-se crescer em ilusão quando a exiguidade da sua real dimensão lhe some todas as ilusões.

Um dos mais significativos mitos clássicos, de que nos fala Ovídio, na sua obra ‘Metamorfoses’, é o de Midas, de que a nossa cultura mantém a ideia do ‘toque de Midas’, para se referir a alguém que tem o dom de ter um sucesso infindo, como se tudo em que tocasse se transformasse em ouro.

Midas é, de acordo com o mito, um rei da região da Frígia a quem o deus Dionísio concede um dom em gesto de gratidão. Midas pede que lhe seja concedido o dom de tudo transformar em ouro.

No princípio, tudo corre como ele previra. Tudo o que lhe era trazido se transformava no reluzente metal, criando a inebriante sensação de um poder absoluto.

O que, porém, não estivera nas previsões de Midas é que ele continuava a precisar de comer e alimentar-se e o portentoso dom rapidamente se tornou uma maldição. O pão, uma coxa de frango ou uma taça de vinho… tudo se ‘aurifica’ com o seu simples toque.

Restar-lhe-ia, assim, que, apesar do ‘toque de Midas’, lhe adviesse a morte, não fosse a atitude compreensiva de Dionísio que lhe permitiu regressar à anterior condição desde que se banhasse nas águas do rio Pactolo que, segundo o mito, passou ele mesmo a ser formado por pepitas de ouro.

Midas tem, na nossa viagem, o seu anverso na figura de Zaqueu.

Este pequeno homem que, segundo Lucas (19,1-10), procurou Jesus e, não o conseguindo ver, se empoleirou num sicómoro, uma espécie de figueira, árvore tantas vezes conotada como sendo amaldiçoada, serve-nos de cara de uma moeda com duas faces.

Midas desejara tanto possuir que o seu poder de transformação da realidade em ouro infindo o conduzira à maldição de que padeceu o próprio Adão quando ousou comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Um e outro pretenderam ser deuses. Midas pretendeu-o sem acautelar que o seu poder chegasse ao ponto de transformar o orgânico em inorgânico, comportando, assim, o veneno da sua própria destruição.

Zaqueu, por oposição, em coerência com o próprio significado do seu nome - «justo, puro» - descobriu, ao encontrar-se com Jesus Cristo, que havia algo muito mais importante do que muito possuir: saber-se salvo!

Perante esta certeza, Zaqueu supera as próprias imposições da lei judaica e estabelece para si mesmo que restituirá aos que lesou o quádruplo do que lhes retirara, quando tal só estava previsto, segundo Êxodo 21,37, para apenas uma situação, o que não se aplicava a ele…

Zaqueu, homem pequeno, um vendido aos exploradores de que ele, como publicano, era a imagem visível da exploração, empoleirado numa árvore amaldiçoada, ganha nova vida quando recebe o ‘toque de Jesus’.

O toque de Midas destrói, em nome da posse; o ‘toque de Jesus’ vivifica o que já estava morto.

Não há, neste novo ‘toque’, a negação da posse, mas a restituição desta ao seu verdadeiro lugar. Possuir é sempre simples condição de caminho, não o fim ou a meta do próprio caminhar. A meta é realizar-se como plenificado por Deus, é realizar-se como ‘salvo’, pois ‘hoje, a salvação entrou nesta casa’.

 

domingo, abril 10, 2022

De Cassandra aos Profetas de Israel

 

Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)


Recordamos os nossos leitores de última hora que esta rubrica se dá pelo nome de ‘regresso a Ítaca no sonho do Éden’, pretendendo-se fazer, aqui, uma ponte fecunda entre o que nos chega da cultura clássica (principalmente a grega), de que tantos nossos cidadãos se sentem herdeiros exclusivos, e as raízes cristãs que levam a seiva às nossas sociedades.

A nossa tem sido uma atitude de perscrutar o que as une, mas também, a de evidenciar o que de específico nos parece ter vindo do cristianismo.

Hoje, regressamos à cidade de Ulisses (Ítaca) sob o sonho do Éden, retornando a Troia.

A nossa protagonista é o que hoje poderíamos designar como uma adivinha, uma sibila.

Cassandra é nome maior com que poderíamos designar alguém de cuja boca vem augúrio certeiro sobre o amanhã.

Ela soube, muito antes de todos, e instou Príamo para que a ouvisse, que Troia iria cair às mãos dos gregos, pois o cavalo que os troianos encontraram às suas portas, considerando-o uma bênção ou troféu dos deuses, era, afinal, o original ‘cavalo de Troia’ (como, hoje, os que nos invadem os computadores…). Por ele viria a desgraça e o desastre…

Mas Cassandra não era apenas uma adivinha, uma sibila. Sobre ela impendia uma maldição lançada pelo rejeitado deus Apolo que a procurara seduzir, mas a quem ela se recusara entregar. A maldição permitia que ela previsse o futuro, mas impedindo que fosse ouvida e seguida…

Olho para a figura de Cassandra como a metáfora das inúmeras vozes que continuam, hoje mesmo, a alertar para o desastre, mas sem que os demais as escutem…

A minha reflexão poderia acabar aqui.

Verifiquei, porém, que o contraste com os profetas veterotestamentários poderia ser, ele mesmo, muito fecundo.

Recordemos, antes do estabelecimento desse contraste, que a Bíblia dos Setenta, cujo cânon é seguido pela maioria das igrejas cristãs (com exceção das igrejas da Reforma, que seguem o cânon da bíblia Hebraica), organiza, após os livros sapienciais (os ‘escritos’), os livros proféticos, reunindo-os em quatro profetas maiores (não que o sejam pela sua importância, mas pela dimensão dos respetivos livros), Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel (a Bíblia Hebraica, seguida pelo cânon protestante, coloca-o entre os ‘escritos’, expressando, assim, algum carácter específico a este livro, comparando-o com os outros livros proféticos. Na verdade, a exegese bíblica constata muita linguagem provinda do género apocalíptico.), e em doze profetas menores, sendo que Lamentações e Baruc são como que anexos ou prolongamentos (como designa a Nova Bíblia dos Capuchinhos) do livro de Jeremias. Os profetas menores são Oseias, Joel, Amós, Abdias, Jonas (a Bíblia hebraica também o coloca entre os ‘escritos’), Miqueias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.

O que nos mostra, então, o contraste entre a figura de Cassandra e a dos profetas do Antigo Testamento?

Um dos termos mais utilizados (e que, inclusive, é utilizado para dar título aos livros dos profetas) é o de «nabi’», termo que é traduzido, no ‘dicionário bíblico hebraico-português’ de Luís Alonso Schökel (Editora Paulus), por ‘Profeta, Vate, vidente, agoureiro’. Por esta tradução do termo mais habitualmente utilizado, o confronto entre os profetas e Cassandra não é particularmente fecundo: em ambos os casos parece sublinhar-se a ideia daquele que adivinha ou antecipa o futuro. Mas essa não será a dimensão definitiva da missão do profeta. A sua missão expressa-se, de modo particularmente claro, no que afirma Ezequiel, quando explicita que “A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos” (Ez 36,16). O significado mais profundo da profecia veterotestamentária explicita-se no significado que nos chega pela via do termo cunhado do grego, ‘Profeta’. A palavra é uma construção resultante de ‘pro+fêmi’, que, traduzido à letra, quer dizer ‘aquele que fala em nome de alguém’, ainda que também possa querer significar (mais uma vez!), ‘aquele que fala antes de…’, ‘aquele que antecipa’. Veja-se o significado do prefixo ‘pro’ proposto pelo dicionário grego-português de Isidro Pereira (SJ), editado pela livraria A.I (Braga): ‘diante, por diante, para diante, antes, ao princípio’, mas também ‘por, em favor de, em vez de’…

Cruzando todos estes dados e sem querer dispersar do fundamental, importa dar conta de que o profeta de Israel não é alguém que tem o futuro como uma realidade insuscetível de mudança (seria, aliás, contraditório com a própria realidade que é o ‘futuro’ – etimologicamente, significa ‘as coisas que ainda serão’ e, por isso, não são, de facto, ainda.).

O profeta de Israel é alguém que, em nome de Yahveh, pede aos homens a conversão do coração.

Por isso, ao contrário de Cassandra, poderia iniciar todas as suas intervenções por ‘se’: ‘se não mudardes o vosso coração, o amanhã não vos será risonho’. Essa matriz de atuação é visível nas paradigmáticas histórias de Abraão que intercede, junto de Deus, para que salve a cidade de Sodoma, em nome de cinquenta… Não, de quarenta e cinco!... Não, de trinta… Etc. Em nome de um só justo! (Cfr. Gn 18, 17 ss)

Ou, ainda, na história de Jonas que não quer reconhecer a bondade de Deus e procura esquivar-se a ter de propor aos ninivitas que mudem de vida, numa atitude que lhe mereceu, entre algumas igrejas, o estatuto de judeu invejoso…

Mas o Deus de Israel não é invejoso.

É um Deus de Esperança. Não o seriam, nunca, os deuses diante de quem se curva Cassandra. Sobre os seus ombros impenderá, sempre, a força do destino face a quem não há conversão de coração possível.

Vislumbram-se, na nossa sociedade, sinais de que, por um lado, Cassandra não é ouvida e, por outro, que dela se guarda, porém, o que de pior se reservava na sua história: não haver lugar para a redenção e para a conversão.

Como desejam os nossos ouvidos as palavras de esperança daqueles que falam, não em seu nome, mas em nome de Outrém, do Deus de Israel, de quem nos virá o auxílio, a nascente da esperança.

Para que não seja uma fatalidade que nos entre pela porta maior o cavalo de Troia!

sábado, janeiro 22, 2022

In Memoriam | Pe. Franclim – a morte levou um ímpar biblista. Fica, sempre, a Palavra!

 Luís Manuel Pereira da Silva

(Presidente da Comissão Diocesana da Cultura e amigo)

 


Hoje (18 de janeiro de 2022), faleceu o Pe. Franclim...

A fé que, do nosso lado ainda é esperança, mas, do seu, é já certeza, une-nos como sempre nos uniu nas longas horas passadas em viagens conversadas por um mundo feito de ‘hojes’ e de ‘ontens’ de sempre. Tivemos longas conversas sobre o eterno e o efémero, surpreendendo-me, sempre, a incrível memória bíblica e fina inteligência que não se perdia no que não importava, mas via nos detalhes o que mais ninguém encontrava.

Guardarei, para sempre, a consciência de uma dívida sem par pela incrível capacidade de trabalho que me fazia sempre crer que os seus dias tinham mais horas do que os meus.

Uma capacidade que o fez publicar numerosas traduções de alguns dos textos mais antigos da história da humanidade, muitos deles traduzidos, pela primeira vez, em português, e publicados no site da Comissão diocesana da Cultura onde, desde o início, foi um fiel colaborador.

Devemos-lhe todos tanto… (Portugal perdeu um eminente biblista!)

Devo-lhe tanto… 

Era surpreendente a humildade com que guardava a sua sábia visão sobre as coisas, não querendo, nunca, que a sua opinião fosse imposta, mas apresentada apenas se oportuna. Quando transmitida, percebia-se uma inteligência singular, rara e apenas conferida aos mais sábios de entre os homens.

Não posso deixar de aqui contar que a dívida que lhe temos é imensa, visível na histórica tradução da obra ‘Fracassos da Corte’.

Esta obra, escrita por Giovanni Maria Muti, em 1682, estivera perdida (não se sabia, aliás, da sua existência). Foi por uma providencial circunstância que, no ano de 2016, o diretor do Museu de Aveiro, Dr. José António Rebocho, descobriu, em investigações que fizera, esta peça que tem na figura de Santa Joana Princesa a sua protagonista.

Quando me chegou ao conhecimento a existência desta peça, escrita em toscano, conversei com o sr. D. António Moiteiro sobre como conseguir quem a traduzisse. O nome do Pe. Franclim logo surgiu como ‘tradutor oficial’ da Diocese, a quem enviei, em 7 de setembro, a peça original, a que faltavam algumas páginas que viemos a descobrir, poucos dias depois.

Em 1 de outubro, já a tradução estava pronta, iniciando-se preparativos, não só para a sua publicação, mas, também, para a sua encenação, pelo grupo de teatro da professora Teresa Grancho, ‘Oficina Capitão Grancho’. A peça foi levada à cena em 19 e 20 de maio de 2017.

A surpresa e o entusiasmo que tomaram conta de todos os envolvidos neste processo de descoberta são, hoje, substituídos por uma enorme dívida de gratidão.

Todos sabíamos que só a singular capacidade de trabalho do pe. Franclim pudera fazer sair dos escombros do tempo uma peça que a distância idiomática poderia ter votado a um renovado período de silêncio.

Essa capacidade é sobejamente ilustrada, também, pelas inúmeras traduções de documentos antigos que pudemos publicar, no site da Comissão da Cultura, nos últimos cinco anos, textos consultados por universidades nacionais e estrangeiras, em especial do Brasil, que, com regularidade, nos solicitavam a disponibilização dos referidos documentos.

Da sua mão saiu a tradução do livro do Apocalipse, em vias de ser editada pela Conferência Episcopal Portuguesa, assim como várias obras dedicadas aos evangelistas lidos na liturgia dos três anos litúrgicos. Depois de S. Marcos e S. Lucas, editado este em novembro passado, deixou pronta a edição de livro dedicado a S. Mateus, que se espera que veja a luz, logo que possível.

É imenso o legado da sua palavra, sempre fina, inteligente e capaz de descortinar as mais difíceis compreensões, tornando luminoso o que, para olhares distraídos, seria opaco. O que deixou escrito poderá ser sempre revisitado. Mas fica a certeza de que a sua palavra, aqui, diante de nós, é insubstituível. Não havia dúvida bíblica que não se desvanecesse, prontamente, e com uma segurança que nos fazia crer que o Pe. Franclim tivera o privilégio singular de ser o redator não denunciado a quem Deus segredara os seus motivos para o que sobre si disseram os autores bíblicos.

‘O que pensaria o Pe. Franclim sobre o que se afirma neste texto bíblico?’ – é a interrogação que continuaremos a fazer, aqueles que tivemos o privilégio de ser mais do que seus leitores, mas seus frequentes ouvintes.

Aguarde-me no Céu, Padre Franclim, pois quero, quando ‘aí’ chegar, ouvir as palavras com que sempre me atendia, com entusiasmo: ‘Então, juventude?!’.

 

sábado, janeiro 15, 2022

Regresso a Ítaca no sonho do Éden | A pedra de Sísifo já repousa

 

Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)

 

Regresso a Ítaca e o meu pensamento, o meu sonho, ilumina-se no Éden.

Este tem sido o nosso caminho ao longo deste percurso que atinge, com este texto, a sua décima segunda etapa. Em todas elas, o nosso objetivo foi colocar em diálogo e, eventualmente, em confronto, duas das principais raízes do pensamento ocidental: a influência grega e a marca cristã.

Ítaca é aqui, o sinónimo da viagem de Ulisses de regresso a casa, Ítaca, após a sua participação na guerra de Troia.

Éden é a expressão do sonho com que Deus criou o mundo e à luz do qual toda a criação, na sua fragilidade histórica, deve ser refletida e iluminada.

Neste passo do nosso caminho, centramos a nossa atenção na visão trágica da vida que os gregos nos deixaram como herança que continua a ‘queimar-nos as mãos’. De facto, a visão trágica continua, múltiplas vezes, a ganhar terreno em relação à visão sustentada na esperança, marca indelével do cristianismo no ocidente. Muitos são os que daquela se reivindicam herdeiros, sem dela quererem abdicar, mesmo quando a esperança lhes mostrou fazer sentido.

Nestes tempos de discussão sobre a eutanásia, estas duas visões cruzam-se, de forma radical e quase que inconciliável.

Evoca essa visão trágica da vida o mito de Sísifo.

Sobre Sísifo impende uma maldição lançada por Zeus: a de que arrastará, monte acima, uma enorme pedra que, prestes a ser depositada no alto, volta a rolar, uma e outra vez, monte abaixo. Perante esta visão trágica e esta circularidade e repetitividade do tempo, o cristianismo fez rolar a pedra, com efeito, mas para a deixar, definitivamente, onde deveria permanecer.

São muitas as alusões bíblicas à pedra. O Vocabulário de teologia bíblica, coordenado por Xavier Léon-Dufour (Editora Vozes) recorda que a pedra simbolizava, nas culturas envolventes ao povo bíblico, o poder mágico, proibido em Israel. Esse significado vem, porém, a ser superado pela simbologia que à permanência e durabilidade da pedra se associará como expressão de fidelidade e permanência de Deus fiel à Sua Palavra.

A pedra já não será, então, um sinal negativo (nem mágico, nem trágico), mas o símbolo de que à Palavra caberá a última decisão sobre o rumo vertiginoso e efémero do mundo.

É a esse significado que aludirão as ideias de ‘pedra angular’, da escolha de Cefas como ‘pedra’ da Igreja ou, ainda, a própria referência a Cristo como ‘pedra de tropeço’, numa alusão não trágica (como se o que acontece fosse resultado de uma fatalidade), mas sim voluntária e livre: são os homens que, pelas suas decisões, veem em Cristo motivo de tropeço; não é o resultado de um qualquer poder fatalista ou determinação involuntária.

Em qualquer destas simbologias, há uma marca de liberdade, por um lado, e de sentido, por outro.

A pedra exprime que o Deus da História é vencedor e a Sua Palavra atrai a Si o rumo dessa mesma História. É pela Sua ação que Moisés faz jorrar água do rochedo, da pedra que, no deserto, era seca e árida. Onde há tragédia, onde há circularidade fatal e insuperável, o Deus da História faz emergir o sentido, a Palavra que dá rumo e quebra a circularidade eterna de um fastidioso rumor de abismo.

E o sinal definitivo desse sentido encontramo-lo no rolar de uma pedra que não voltará a deslocar-se: a pedra do sepulcro que, rolada uma vez, se depositou como ‘pedra’ sobre o assunto ‘morte’; a ressurreição é a Palavra que faz repousar, de uma vez por todas, sobre o monte, a pedra roliça de Sísifo.

E, por isso, se parecia ter razão Albert Camus, autor francês de origem argelina que escreveu um livro que se propõe enfrentar e sustentar o absurdo da existência humana, a que deu o título de ‘o mito de sísifo’ e que começa com a afirmação de que “só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio” (Albert Camus, O mito de Sísifo, Edição «livros do Brasil», p. 13), a nossa constatação, porém, de que o autor acabou o livro sem levar até ao limite a seriedade filosófica permite-nos perceber que a pedra rolou de uma vez por todas e que podemos, por fim, deixar descansar Sísifo.

O cristianismo não expressa o mero desejo de que assim seja; não é uma teoria, uma discussão. Parte de um evento, de um acontecimento que, começando no tempo da História, se prolonga para além da história. O monte sobre o qual Sísifo fazia rolar a pedra permanecia totalmente na História. E, na História, não pode encontrar-se o sentido definitivo: só eventuais antecipações provisórias do Sentido ou, para utilizar terminologia de W. Pannenberg, manifestações ‘prolépticas’ (antecipadoras) do Último Sentido que nos é concedido por Deus, a Realidade que tudo determina, não como destino sem liberdade, mas, antes como atração que chama e convida.

O verdadeiro e definitivo Sentido está para além da História. E dessa permanência última são sinais as efémeras, mas duráveis, rochas que, ainda assim, se desgastam e pulverizam: elas são símbolo. O Eterno só transparece na História, mas não é a História: ‘já não está aqui’! O que ficam são os sinais antecipadores.

Esta é a linha que separa as duas visões: uma busca o sentido definitivo aqui, na História, mas o que encontra é um eterno circular do tempo que se desfaz e pulveriza; a outra encaminha-se para o além, do qual volta a olhar o tempo, mas sabendo-o o primeiro momento do rumo último para que o agora se encaminha.

Sísifo está só.

Já Aquele que dá sentido está sempre acompanhado, pois, enquanto Amor, é, em si mesmo, encontro e relação.

Sísifo pode, por fim, descansar, se livremente aceitar não se submeter ao poder de um destino trágico.

Aceitarão isso os seus herdeiros?

sábado, janeiro 08, 2022

‘Nenhuma mãe cria um filho para ele ser um homicida…’


Capitel da Igreja de Santa Maria Madalena (Vezelay)
Jesus transporta Judas aos ombros: a imagem da misericórdia!
imagem recolhida de https://portugues.clonline.org/not%C3%ADcias/igreja/2016/07/11/sujar-as-m%C3%A3os-como-jesus

(Este texto só poderia ser escrito por um cristão [ouso pensar que só mesmo por um católico devedores que somos do que K. Barth designava como o ‘maldito «e» católico’. O «e» que me faz olhar para a justiça «e» para a misericórdia. Estou disto profundamente convencido…])

 

Li, num destes dias, que se tinha suicidado a mulher responsável por um crime horrendo cometido no Algarve. A notícia do crime chocara Portugal: o assassínio de um rapaz, seguido de desmembramento e ocultação do cadáver cujos órgãos foram dispersos por diversos pontos da região algarvia.

A notícia do suicídio da principal agressora significava uma espécie de justiça final por tão hediondo crime. Como ocorria após os autos-de-fé ou a execução da pena capital, os assistentes saem a menear a cabeça, certos de que, por fim, se fez justiça…

Confesso que, quando ouvi a segunda notícia, o meu sentimento foi outro: compadeci-me!

Compadeci-me de todo o drama humano em que esta história estava enlameada.

Lembrei-me de uma frase que ouvi, há uns anos, ao saudoso Pe. João Gonçalves, coordenador nacional da Pastoral Penitenciária, que ele mesmo ouvira a um seu homólogo brasileiro: ‘nenhuma mãe cria um filho para ele ser homicida…’

Esta frase fora proferida pela mãe de uma vítima que perdoara ao homicida do seu filho, encontrando-se com a mãe daquele. No dia do encontro, a mãe da vítima confiara a sua certeza de que sabia que aqueloutra mãe, com quem agora se encontrava, não educara o seu filho para que ele viesse a ser o assassino do seu.

Estas mães eram cristãs. Ambas sabiam que só o amor pode redimir-nos.

Bem certo que o Estado deve fazer justiça. Bem certo que deve (tem, mesmo, essa obrigação particular…) de investigar e levar à barra do tribunal quem comete crimes.

Mas, há todo um outro caminho que não pode deixar de ser percorrido.

Um caminho que supera o da justiça.

A dignidade humana não se perde, por maior que seja o crime, por mais graves e hediondos que sejam os nossos atos. É, aliás, isso que define a dignidade humana: ela permanece, mesmo quando os atos são indignos. Nem poderia ser de outro modo: se não se soubesse o que é dignidade, como poderia saber-se o que é indigno?

Os atos podem ser ‘indignos’; o sujeito humano é sempre ‘digno’.

Mas tal continua a ser, porém, insuficiente.

Recordo-me de, há uns anos, ter lido, numa entrevista feita a Bono Vox (vocalista dos U2, numa entrevista a Mischka Assayas) que, por fascinante que seja a ideia de um ‘karma’ em que somos punidos pelo mal que fazemos, o que salva o mundo é, de facto, a ideia de ‘Graça’, que só ao cristianismo poderemos ir buscar.

E é desta convicção que se faz esta reflexão.

Fez-se justiça?

Certamente!

Mas há algo mais a olhar.

Em primeiro, a pessoa da vítima.

Porque a ‘desumanizaram’ (reduziram da sua condição humana) os que ousaram tirar-lhe a vida e esquartejá-lo? Como pode o ser humano ofuscar o seu olhar perante o rosto que clama por clemência? Como pode aceitar preferir a sedução do imediato perante a eternidade da humanidade que nos habita?

As vítimas da história clamam por justiça… Clamam por amor eterno. Clamam e encontrarão, certamente, no regaço de Deus, o aconchego que alguns humanos lhes retiraram…

 

E a pessoa do agressor?

Continua ‘pessoa’, apesar da crueldade dos seus atos.

Recordo, a este propósito, a força da narrativa de ‘A última caminhada’, uma história real (vertida para o cinema, com a excelente representação de Susan Sarandon e Sean Penn) contada pela Irmã Helen Prejean que recorda, no corredor da morte, ao agressor (violador e homicida), Matthew Poncelet, que ele continua a ser Filho de Deus, apesar do hediondo crime que ele deve reconhecer como tal, mas que não lhe retira a sua condição de ‘Filho de Deus’.

«- Já me tinham chamado ‘Filho de muita coisa’, mas nunca de ‘Deus’… »- responde-lhe Matthew.

Só depois de reconhecer a gravidade do seu erro, e a sua condição de pecador, é que Matthew começa o percurso de recuperação da perceção de que não deixou de ser digno e que a sua vida continua a merecer o amor, apesar da maldade que se manifestou nos seus atos.

Compadeci-me…

Compadeci-me, ao vir-me à memória tudo isto, da mulher que matara aquele jovem rapaz. Compadeci-me ao saber que se suicidara porque, nesse ato, percebi o desespero que é a total ausência de esperança.

Como pôde morrer, definitivamente, a esperança?

Porque, certamente, se apagou a consciência de se ser digno, de se ser amado.

Mas Deus é amor

E, por isso, o último encontro entre o agressor e Deus será um encontro de amor.

Mas de que se fará esse encontro?

Recupero uma imagem que devo a uma aluna do Cefam (Centro de formação D. António Marcelino) que, em aula de escatologia, em que eu falava deste último e definitivo encontro entre nós e Deus, o formulava como um encontro de rostos. O nosso será um rosto limpo e levantado, se a nossa vida foi uma vida de amor.

Mas será um rosto que baixará os olhos quando se encontrar, definitivamente, com Aquele que é amor, se a sua vida não tiver estado centrada no amor.

E imagino este encontro entre esta mulher e Deus como um encontro em que se baixarão os olhos. Deus quererá levantar-lhos… Mas deixará ela que eles se ergam?

Regressemos a este tempo que antecede esse definitivo encontro.

Porque deixámos que se apagassem todas as esperanças?

Toda esta história (desde o hediondo crime ao suicídio da sua principal executante) deveria ser matéria para profunda reflexão:

… sobre quão sedutor é possuir! E a quanto estamos disponíveis para fazer em nome dessa posse!

… sobre quão fácil é deixarmo-nos convencer de que o mal é bem!

… sobre como somos manipuláveis e, por isso, quão atentos devíamos estar às estratégias de manipulação!

… sobre como é fácil deixarmo-nos seduzir pelo imediato e apagar o humano que se espelha no rosto do outro!

… sobre como a justiça é só uma parte da análise sobre os crimes e como é muito grande o iceberg de drama humano que se esconde em cada um desses atos que matam e estropiam ou destroem!

… sobre como ser preso devia ser parte de uma história de cumprir uma pena (bem certo!), de uma reabilitação (certamente, também!), mas principalmente, de um refazer-se como humano (principalmente!).

… sobre cada pessoa envolvida num crime (desde as vítimas, aos manipuladores, aos que se deixaram manipular e aos que se enredaram na prática de crimes…) e os dramas em que se enredaram as suas vidas, entre decisões erradas e medos que se acumulam!

E como será importante, por isso, que, no lugar em está cada preso, esteja alguém que lhe diga: ‘tu continuas a ser amado, ainda que não mereça amor o que fizeste!’

Pois Jesus dir-nos-á, naquele encontro definitivo: ‘estive preso e foste visitar-me!’

Ele também morreu na morte que se deu a si aquela mulher…

quinta-feira, dezembro 30, 2021

Recensão de 'Leonardo Boff, S. José: a personificação do Pai'

 

Leonardo Boff, S. José: a personificação do Pai, Cascais, Editora Pergaminho, 2006.

 

O que poderemos dizer sobre S. José? ...se dele só temos silêncio!

Leonardo Boff enfrenta esta questão e a dureza desta constatação.

Com efeito, a escassez e simplicidade das referências bíblicas poderia ser obstáculo a uma reflexão conclusiva sobre a sua identidade e relevância na história da salvação.

Boff enumera oito situações em que José é referido, nos textos bíblicos, sendo que em nenhuma delas ouvimos palavras suas: na genealogia, na anunciação, no nascimento do seu filho, no relato da fuga para o Egito, na descrição do regresso a Nazaré, na apresentação de Jesus no templo, aos oito dias, no relato da presença de Jesus entre os doutores da Lei e, por, fim, quando se refere que Jesus era filho do carpinteiro.

De resto, se queremos saber mais sobre José, e se formos dados ao cultivo da imaginação, restar-nos-ão os evangelhos apócrifos (de onde, aliás, emanaram muitos dos elementos icónicos que preencheram a sua representação artística ao longo dos tempos).

Para nos conduzir na sua reflexão, Leonardo Boff enuncia uma tese e socorre-se da metodologia teológica que assenta, por um lado, no reconhecimento do lugar da própria tradição teológica para a consolidação da leitura do facto revelado, mas articulando esse mesmo reconhecimento e utilização com um elemento metodológico da teologia altamente iluminador: o nexo dos mistérios.

Socorrendo-se deste, Boff formula um teológúmeno (uma hipótese teológica ainda não totalmente validada pelo magistério, mas que poderá (e já fez) fazer o seu caminho). Esse teologúmeno é devido, como o mesmo Boff reconhece, a Adauto Schumaker, um franciscano nascido em 30 de junho de 1910, que chegou a trabalhar na editora Vozes, onde veio a publicar algumas das suas ‘especulações teológicas’. Estão na posse do nosso autor alguns dos manuscritos do frade Adauto, com quem ele mesmo privou e a quem foram partilhadas em confidência os elementos fundamentais da tese defendida neste livro.

Ora, a ideia fundamental aqui apresentada é a de que José vive em união hipostática com o Pai Celeste.

Para tal, e fazendo uso da metodologia acima enunciada, Boff sustenta que a teologia refere que cada Pessoa da Trindade age na unidade desta («Dada a inclusão de uma [Pessoa Divina] na outra (pericórese), quando uma se autocomunica traz consigo as outras duas, preservada a característica própria de cada uma. Se o Filho se autocomunica a Jesus de Nazaré (encarnação), ele carrega consigo o Pai e o Espírito Santo, embora seja só o Filho que se encarna.» (p. 126)), pelo que, para simplificar, poderá constatar-se que, se em Jesus está presente o Verbo (segunda Pessoa da Trindade), se em Maria agiu o Espírito Santo, a aplicação da metodologia decorrente do ‘nexo dos mistérios’ (em que uns mistérios iluminam outros e estão em estreita coesão e articulação com eles) leva-nos a pressentir que, no silêncio de José se torna presente a ação discreta, mas eficaz, do Pai.

Para reforçar a tese, Leonardo Boff percorre os caminhos da história para evidenciar que, com efeito, longo foi o silêncio do Magistério sobre a figura de José (mais presente entre a espiritualidade popular), mas para a qual tem despertado, em particular nos últimos dois séculos, e, de forma mais significativa, com João Paulo II, que dedica uma exortação apostólica a S. José. Desta, Leonardo Boff destaca a seguinte citação que considera permitir vislumbrar o sentido da sua tese:

«A Igreja rodeia de profunda veneração esta Família, apresentando-a como modelo para todas as famílias. A Família de Nazaré, diretamente inserida no mistério da Incarnação, constitui ela própria um mistério particular. E ao mesmo tempo — como na Incarnação — é a este mistério que pertence a verdadeira paternidade: a forma humana da família do Filho de Deus, verdadeira família humana, formada pelo mistério divino. Nela, José é o pai: a sua paternidade, porém, não é só «aparente», ou apenas «substitutiva»; mas está dotada plenamente da autenticidade da paternidade humana, da autenticidade da missão paterna na família. Nisto está contida uma consequência da união hipostática: humanidade assumida na unidade da Pessoa divina do Verbo-Filho, Jesus Cristo. Juntamente com a assunção da humanidade, em Cristo foi também «assumido» tudo aquilo que é humano e, em particular, a família, primeira dimensão da sua existência na terra. Neste contexto foi «assumida» também a paternidade humana de José.» (João Paulo II, Exortação Apostólica Redemptoris Custos, 21)

O que João Paulo II afirma, ainda não é coincidente com a tese proposta por Boff (e por isso, o próprio autor reconhece tratar-se de um teologúmeno), mas o significado é profundo e admissível: afirmar que José é a personificação do Pai permite olhar para a Sagrada Família já não apenas como um modelo, mas como a própria ação efetiva da Trindade que a encarnação não é abstrata, mas a assunção da real condição humana, que se realiza a partir de uma concreta situação. A assunção (em união hipostática) da paternidade de José, expressando a totalidade da Trindade na família de Nazaré, coloca a prioridade na comunhão em relação à individuação, pretexto para que, em páginas muito significativas, Leonardo Boff reflita sobre desafios colocados, nos nossos tempos, à realidade familiar, em geral, e à condição paterna, em particular. Destacamos desta reflexão o que Boff diz sobre aquilo que ele designa como o ‘princípio antropológico do pai’, socorrendo-se de designação tomada da psicanálise:

«A situação atual do pai não serve de base para se experimentar Deus como Pai. A tradição psicanalítica tem sustentado a importância da figura do pai e das experiências que os filhos/filhas fazem com ele para projetar uma imagem de Deus-Pai integradora e humanizadora […]. Para que continue a desempenhar esta função transcendental e verdadeira missão, urge um reengendramento, sobre outras bases, da figura do pai. É nessa perspetiva que S. José, como pai, pode contribuir com alguma luz.» (p. 166).

A citação aqui recolhida permite observar que ‘S. José, a Personificação do Pai’ não se confina ao limite de formular e defender uma tese, ainda que já não fosse um exercício despiciendo: enuncia consequências efetivas para a sociedade e para a vivência pessoal de uma leitura teológica da figura de José.

Um livro recomendável e de leitura envolvente (espero que sejam tão decisivas para esse reconhecimento as minhas palavras como o foram as de um amigo a quem o emprestei…) oportuna para recolher as aparas que ficam do passar da plaina de um ano dedicado a esta singular figura da história da Salvação.

segunda-feira, dezembro 27, 2021

Livro: recensão de Seb Falk, A Idade Média: a verdadeira idade das luzes

 

Seb Falk, A Idade Média: a verdadeira idade das luzes, Lisboa, Bertrand Editora, 2021.

 O fim de um mito

(Ou ‘como ter nas mãos um meio eficaz de repor justiça’)

 

Fake news!

Andamos preocupados – quase obcecados com a matéria. De tal modo que nos levam a crer (fake new!) que as fake news são de hoje.

Este livro não é – nem por sombras! – sobre ‘fake news’. Mas propõe-se enfrentar uma das mais consolidadas ‘fake news’ dos últimos três séculos.

Isso mesmo!

Cerca de trezentos anos!

Trata-se de uma ‘fake new’ que serviu interesses e que alimenta, ainda hoje, muitos preconceitos.

Partamos à sua descoberta.

A sua denúncia formula-se no próprio título do livro: ‘A Idade Média: a verdadeira idade das luzes’ (Talvez se pudesse ter optado por ‘a verdadeira idade da luz’, tendo em conta o que o autor refere, na página 162, a pretexto dos estudos medievais sobre a luz de que resultaram a criação dos óculos, mas admite-se a opção da tradutora por ‘a verdadeira idade das luzes’, aludindo ao título autoatribuído pelos iluministas…).

E que denúncia se vislumbra ali?

A de que a Idade Média foi tudo menos uma idade de trevas.

Mas essa ‘fake’ (a de que a Idade Média era idade de trevas) fez caminho – muito caminho! – e continua, hoje, bem consolidada. (Dado o curto-circuito entre ‘Idade Média’ e ‘Igreja’, quando, numa discussão, se quer silenciar a força argumentativa de um cristão, logo se evoca a ‘tenebrosa’ condição da Idade Média. E tudo fica arrumado! Nada melhor do que um bom preconceito para acabar com uma discussão!)

Quem não se lembra da teoria de que a Idade Média acreditava que a terra era plana?

Sim, quem não se lembra? Disso davam eco (ainda hoje?) os livros de História.

E a lembrança é tão forte que até nos custa a crer que não fosse assim.

Mas não o era, de facto.

A Idade Média não acreditava que a terra fosse plana.

Entre nós, portugueses, já os professores Henrique Leitão, Jorge Buescu e outros denunciaram essa fake new, com muita erudição e detalhe.

Seb Falk demonstra-o, neste livro, de forma muito detalhada.

Para tal, recorda, entre outras coisas, que um dos tratados mais estudados, durante a Idade Média, era o ‘tratado da esfera’ que teve em João Sacrobosco (1230) um dos seus maiores proponentes. A esfera era, bem certo, o orbe celeste, mas, também, a Terra.

Porém, apesar deste facto, a História e a história da História, após a revolução francesa e durante o século XIX, veiculou a ideia de que os medievais (até lhe chamou ‘Idade Média’, para estabelecer uma ponte vazia entre os antigos e os modernos!) eram obscurantistas e defendiam (imagine-se!) que a Terra era plana.

Entre nós (Seb Falk não conta este detalhe), chegou-se ao ponto de consolidar a teoria (a fake new) de que a Idade Média acreditava numa terra plana com a tese de que Cristóvão Colombo não obtivera o apoio da corte portuguesa porque entre esta se continuava a acreditar que a terra era plana.

 

Como consolidar um preconceito

A verdade é outra!

Como conta Jorge Buescu, num artigo com o título ‘a terra nunca foi plana’ (no livro ‘da falsificação de euros aos pequenos mundos’), a coroa portuguesa não apoiou a empresa de chegar à India pelo ocidente, porque sabia que a distância era tão grande que seria um investimento no vazio, pois Colombo nunca chegaria lá. A sorte deste foi ter-lhe aparecido a América, no caminho!

Ora, esta e outras teses são demolidas neste livro de Seb Falk.

Um livro extraordinário!

Extraordinário pelo rigor do autor, pela erudição em linguagem simples com que aborda cada temática e porque é profundamente respeitador do leitor. Veja-se, a título ilustrativo, a qualidade das notas (que, para um leitor habitual, deviam ser de rodapé, mas as edições atuais optam por colocá-las no final, o que dificulta a leitura em vaivém… Deixo o repto!). Seb Falk não faz citação de citação: vai às fontes!

E faz um ensaio de história da ciência como quem escreve um romance policial.

Tudo começa com a investigação sobre o verdadeiro autor de um tratado, a partir de uma investigação feita por Derek Price, na década de 50, que se interrogava sobre o efetivo escritor de uma obra que nos dava instruções detalhadas para a construção de um derivado do astrolábio que permitiria identificar, com precisão, a localização dos planetas. (Tenha-se em conta que tudo era baseado, exclusivamente, na investigação matemática em articulação com as deduções artonómicas, pois ainda se tinha de esperar pela invenção do telescópio… Mas a lucidez e o rigor matemático denunciam um verdadeiro espírito científico de quem parte à demanda da verdade).

Tudo começa aí e vai-se desfiando até nos levar ao quotidiano da vida medieval, onde descobrimos o fascínio da descoberta e a frescura da liberdade intelectual, tantas vezes hoje pretendida e amarfanhada. Ilustra esta liberdade a história de uma greve ocorrida no século XIII, na universidade de Paris, em que os mestres reivindicavam liberdade perante o poder político. A sua reivindicação saiu vencedora. (Sim, não podemos esquecer que as universidades – Bolonha, Salamanca, Oxford, Montpellier, Paris, Coimbra, Lisboa, etc. – nasceram na Idade Média! E que já então a ‘circulação’ dos intelectuais entre universidades era uma prática habitual!).

Pela mão de Seb Falk, compreendemos que os nomes maiores da ciência moderna não nasceram do nada (Mas a forma como é feita a história da ciência deixa, muitas vezes, o travo amargo de uma conceção emergentista dos grandes nomes: como se aparecessem sem ‘gigantes aos ombros dos quais se encavalitam’. Sim, também esta frase, cuja autoria é tantas vezes atribuída a Isaac Newton, é da responsabilidade do medieval Bernard de Chartres!). Percebemos as raízes medievais do pensamento astronómico (devedor à influência cristã e muçulmana que recebeu nos estudos universitários que fez em Cracóvia, Bolonha, Pádua e Ferrara) de Copérnico, que responde, com o heliocentrismo, a interrogações de sempre colocadas pela teoria defendida (e muito discutida) por Ptolomeu, no seu Almagesto, mas mais proximamente formuladas por Peuerbach e Regiomontanus, ou as origens do próprio pensamento de Leibniz no admirado Richard Swineshead (século XIV), autor do Livro dos cálculos, que lhe valeu a alcunha de ‘calculador’.

Falk aborda, ainda (e muito escapa a esta resumida recensão de leitor entusiasmado – exigente tarefa se impõe ao próximo autor que tomarei em mãos, após esta tão fecunda leitura!), a questão do impacto do heliocentrismo nas mentalidades. Curiosamente, também as fakes são abundantes no que respeita a esta matéria. Bem nos recordamos todos de ouvir dizer que o heliocentrismo demolira a visão arrogante que o geocentrismo vincava. Seb Falk recorda, porém, que ‘os pensadores medievais imaginavam muitas vezes a Terra ao fundo, e não no centro, do vasto Universo; e estar tão longe quanto possível da perfeição dos céus não era propriamente uma posição desejável. É por isso que, na obra de Galileu Diálogo sobre os dois principais sistemas do Mundo, Ptolemaico e Coperniciano, o astrónomo florentino pós o seu porta-voz, Salviati, a afirmar que «estamos a tentar tornar [a Terra] mais nobre e mais perfeita […] e de certa forma a colocá-la nos céus, de onde os vossos filósofos a baniram».’

Mas a fake new respetiva defende que os medievais é que eram arrogantes! (Na era dos emojis, deixo ao leitor imaginar qual escolheria!...)

 

Idade Média: idade luminosa com sombras… Como as demais épocas!

Chegados aqui, impõe-se uma pergunta: mas a idade média era só luminosidade e esta beleza de que aqui falamos?

(Obviamente que o autor não esconde os aspetos menos luminosos desta época. Isso é, aliás, frequentemente recordado, por exemplo, quando apresenta o paralelismo entre o desenvolvimento astronómico e a influência dos reptos da astrologia.)

Duas notas nos merece esta constatação da presenças de aspetos opacos na idade média: que todas as épocas tiveram (e terão) as suas opacidades – veja-se como, em pleno século XXI, continuam a proliferar, e com forte influência, as mentalidades que negam, por exemplo, que na gravidez humana esteja em desenvolvimento vida humana! Ou que defendem que existam raças desigualmente humanas, etc… (na luminosa época da ciência, continuam a verificar-se obscuridades deste teor…) – e, por outro lado, que as zonas de sombra pressupõem a luz. Não poderemos fixar-nos nas sombras, omitindo a origem luminosa perante a qual emerge zona sombria. Em relação à Idade Média, a opção tem sido amplificar a sombra, omitindo a força da luz. Seb Falk desafia a que se olhe a Idade Média pelo seu lado luminoso: ‘a verdadeira idade da Luz’!

Não pense, porém, o leitor, que o livro se desenrola ao longo de mais de 400 páginas com a repetição de ‘veja, na Idade Média não eram como pensa’. O livro é, como acima descrito, uma espécie de ‘romance policial’ baseado em factos e dados de investigação. E até é humilhante constatar quanto desconhecíamos. E quanto podemos descobrir quando, honestamente, deixamos que a história de cada época fale por si, sem que lhe imponhamos os nossos preconceitos. Factos, factos e mais factos! Nomes e descobertas e linhas de discussão. Num desenrolar de novelo que nos fascina, da primeira à última página. E, quando já terminámos a leitura, o autor formula um conjunto de sugestões que nos fazem partir à aventura de sermos nós mesmos a ver como funcionava o ‘equatorium’ (Ah, eis o nome do instrumento alternativo ao astrolábio, proposto por John Westwyk – anónimo na nossa recensão como permanecera anónimo durante quase 500 anos…) ou como pensou Richard de Wallingford (que ilustra a capa do livro) o primeiro relógio mecânico ou, ainda, a procurar saber um pouco sobre os nomes dos desconhecidos tradutores das grandes obras clássicas, originalmente escritas em grego ou árabe, vertidas pela sua mão para latim. Seb Falk resgata do silêncio da história nomes de tradutores como o de Gerardo de Cremona ou de Alfred Shareshill… (Ilustres desconhecidos mas de quem todos falam quando dizem que Aristóteles e Avicena foram recebidos nas universidades da Idade Média!)

O próprio autor assume que não quer maçar os leitores com a sucessão de nomes de insignes figuras medievais. Enuncia alguns dos preteridos numa lista final que inclui sugestões muitos úteis de outros livros e sites onde poderão encontrar-se estas e outras informações relevantes. O livro deixa, no leitor que acaba de fazer a viagem que nos é proposta, a sensação de que nada será como dantes… Bem certo que demolir um preconceito não é tarefa fácil. Mas a argumentação, que é pura descrição factual, não deixa margem para dúvidas. Em nome da verdade, há que reconhecer que a Idade que os modernos quiseram chamar ‘média’ foi rica de pensamento e descobertas científicas. Este é, por isso, um livro de justiça… Um livro que coloca nas suas mãos um meio de repor a verdade onde as fake news têm abundado.

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...